sábado

Sombras II

Reparou com atenção em toda aquela inusitada cena e seguiu-os. Sabia como lidar com crianças, sentia aptidão natural para isso. Por isso foi-lhe fácil aproximar-se e falar com cuidado e meigamente. Procurando ganhar a confiança deles, começou por perguntar com se chamavam. Manuel e José, respondeu o maiorzinho, apontando para si e para o irmão, respectivamente. Que faziam ali sozinhos? Que não sabia da mãe. Esta, ao sair, tinha-lhe pedido que tomasse conta do irmão. Seria por pouco tempo. Não demorava. Uma colega tinha necessidade da sua ajuda e era preciso que lá fosse.
Primeiro pensou que ela tinha precisado demorar um pouco mais, e adormeceram no sofá da sala enquanto viam televisão. Do dia seguinte acordaram e ela não estava no quarto. Se calhar tinha saído para fazer alguma coisa e não tinha querido acordá-los. Comeram bolachas com leite, e mais tarde os iogurtes que estavam no frigorífico. E à noite a mãe ainda não regressara.
Hoje resolvera procurá-la nos lugares onde ela os costumava levar. Não tinham mais ninguém em casa. Sentia muito a falta da sua mamã. Tinha medo que lhe pudesse ter acontecido alguma coisa de mal.
O pequenino pedia a mãe. Pegou-lhe ao colo e acarinhou-o como se fosse filho seu. Adormeceu-lhe no regaço enquanto o acariciava. O outro encostou-se-lhe também e sentiu-se invadir de uma ternura imensa. Estes pequeninos precisavam de alguém que olhasse por eles, que lhes encontrasse a mãe, que os protegesse, tão indefesos e carentes estavam, e tão à mão de predadores, alheios ao perigo que corriam. Tinha que fazer alguma coisa.
Entrou com eles na igreja enquanto o mais pequenino dormia e ficaram um pouco em silêncio naquela penumbra refrescante. Pediu ajuda à Virgem. Era preciso fé e esperança.
Mais tarde, levou-os a lanchar e acompanhou-os a casa, talvez a mãe já lá estivesse. Não estava. Viu fotos... e o seu sangue gelou e ferveu... procurou nomes, telefonou. Fez-lhes o jantar e comeu com eles. Tranquilizou-os, encontraria a mãe! E adormeceu-os contando-lhe uma história.
Fez mais telefonemas. Sim, estava ali… meu Deus, deveria ser ela! Sentiu-se invadir por uma convulsão incontrolável, um sentimento de perda irreparável, um vazio sem esperança. Agora estes meninos não tinham ninguém, não tinham mais ninguém senão a si... e tomou a decisão: seria o seu pai. O pai que eles pareciam não ter.

12 comentários:

Vivian Mag disse...

...retratos cruéis da vida de todos nós...sim, porque somos unos neste mundo escola...muahhhhhhh

Justine disse...

Bem contada, esta história pungente.

vida de vidro disse...

Uma história triste com um final de alguma esperança. Gostei muito de ler. **

Peregrina disse...

Está maravilhosa, a continuação :)

Mexe comigo. Que ternura !

Beijinho*

Fa menor disse...

Vivian,
às vezes a vida de umas pessoas pode ser muito parecida com a de outras... às vezes nos revemos em certas situações.
Beijinhos



Justine,
Obrigada. Espero não frustrar expectativas...
Bjs



Vida de Vidro,
Obrigada.
... vamos ver ainda o desenrolar da estória...
Beijinhos



Peregrina,
Obrigada.
Então volta para ler mais!
beijinhos

Cris disse...

Comovente, Fá!
Beijinhos

O Profeta disse...

Frágil e palpitante luz
A beleza é feita de ternos murmúrios
A voz quebra a quietude do silêncio
A chuva leva a terra ao encontro dos rios

Não há fracassos no sonho
Caminhei nas nuvens para te ver do alto
Abri os braços ao relâmpago
Desci à terra, senti nos pés o frio basalto


Vem descobrir qual o caminho


Bom fim de semana


Mágico beijo

antonio - o implume disse...

Está bem escrito este conto. Um anjo desceu dos céus e trouxe-lhes um pai.

Fa menor disse...

António,
... eu diria: O pai... (ops!)

Fa menor disse...

Profeta,
O Caminho deve ser a nossa descoberta diária...
Beijo


Cris,
Obrigada, amiga! :)
Beijinhos

depassagem disse...

em nosso voo para atingir a perfeiçao
algo sabemos, intrinseco, fincado
Amor e Paz esta sempre dentro de Nós
quando não, sentemo-nos ao Sol e escutamos as palavras de "silencio"
que nos foram redigidas

Fa menor disse...

Depassagem,
Amor e Paz, o essencial!
Obrigada pela passagem por aqui...