sábado

Regresso ao mundo II

Uma sonata de sons alucinantes parecia ecoar aos ouvidos de José Miguel, como convite a loucuras inconfessáveis. Aquela mão, retida na sua, irradiava centelhas de calor que o trespassavam até à medula.
O mundo tinha parado e José Miguel, de olhos fechados, saboreava com sofreguidão aquela embriaguez dos sentidos que se apoderara dele, enquanto o seu peito arfava de comoção.
Não conseguindo aguentar, foi deslizando a sua mão pelo braço nu da sua amada, num bailado de arrebatadora paixão.
Sentia-se um pecador, mas o desejo foi mais forte. Pousou os seus lábios naqueles que o chamavam com um misto de veludo e seda, primeiro com toda a suavidade, depois, sentindo-os entreabrirem-se, fundiram-se neles numa entrega inevitável e plena de êxtase.
O beijo quente e apaixonado fez-lhe reviver alvoroços perdidos no fundo de um baú. Mas aquilo parecia-lhe uma violação. “Perdão, meu amor…”, foram as palavras que lhe afloraram à mente. E afastou-se. Afastou-se sem se poder saciar naquela boca, que tantas vezes tinha povoado os delírios das suas noites. Afastou-se sentindo um arrepio profundo a inundá-lo, até lhe deixar as mãos trémulas e a cabeça à roda. E, de repente nauseado, antes de ter tempo de procurar onde se sentar, notou que o chão lhe fugia…
As emoções tinham sido muitas e demasiado fortes nos últimos dias, e aquela vertigem, que lhe tirou momentaneamente os sentidos e o atirou ao chão, era o resultado disso.
“Luísa… oh, Luísa… tanto te esperei!...”

5 comentários:

antonio - o implume disse...

Somos pecadores da felicidade que não merecemos?

Justine disse...

Pobre Miguel... má consciência fruto da herança cultural judaico-cristã?
Ou outra razão subtil que não dá para adivinhar??
Espero ansiosa a continuação:))
Entretanto Bom Ano e até para o ano!

Nilson Barcelli disse...

Quando era adolescente também pensava que era pecado...
Gostei do teu conto (não sei se acabou com esta parte...). A tua narrativa é muito agradável.
Feliz Natal, beijinhos.

Mariz disse...

Querida Fa Menor...
Agora por aqui, por esta via:
Não a imaginava tão "intensa" a escrever contos....ignorando se e ficção ou não - para o caso tanto faz.
Penso contudo que transmite o que de facto se sentiria em estado de embriaguêz, chamada de: paixão
Como já vivi isso, percebo hoje o quanto estava enganada...
Nada do que o corpo fala, é importante!

Beijinhos estrelados de um Feliz Natal
Mariz

Gilbamar disse...

É perceptível como à medida que o tempo vai passando fica visível o quanto o pensamento humano se transforma e tanta coisa que antes era considerada pecado, agora nem tanto...

Deixo meu fraterno abraço amigo.