quarta-feira

Esperança Despida

Palhaço não era… nem se sentia, muito embora se rissem dele e com ele. Uma figura caricata que poderia parecer um palhaço, com aquela indumentária que vestia, fazendo gosto em ostentar as medalhas que as feirantes lhe colocavam ao peito à segunda-feira no mercado. Elas achavam-lhe graça e, dançando à roda dele, faziam-lhe uma festa. O David, na sua simplicidade, ficava envaidecido e vinha contar tudo, com a sua tão conhecida gaguez que fazia com que todos puxassem por ele. Que elas tinham dançado com ele e que: “fofoforam aquelas maaaluuuca…ca…cas é é daaaaququeeelas é é é pepeeeixeiras esgueeeeirooouas é é é qqque me deeeram a as medaaaalhas”. Um simples, que trabalhava de carregador no mercado a troco de gorjetas. Palhaço não. Nunca pela pequena cabeça lhe passou que se divertiam à sua custa, muito embora alguns o fizessem, pagando-lhe copos de vinho quando sabiam que isso o faria descarrilar. Palhaços são os que, sem alma, se aproveitam da pequenez dos outros para se divertirem à sua custa. Quando o picavam ou chateavam, ele encarava-os com aqueles olhos, entortadamente, e gaguejante ameaçava que chamava a Guarda.
E o tempo ia passando satisfatoriamente, feito de primavera e verão, até lhe chegar o outono e lhe assomar o inverno. Então um Inverno mais forte, estando ele mais fraco, despiu-lhe a esperança do Natal. Desabou-lhe o telhado do casebre sobrevivente da aldeia semi-fantasma de habitantes. E a chuva e a geada dormiram com ele.
O Natal despido de esperança é um gelado inverno: um inverno que gela os ossos e a alma o ano inteiro, com artes de transformar qualquer um em pobre palhaço.

(M. Fa. R. – 22.12.2009)


A todos um Bom Natal, vestido de Esperança e calor humano,
para que se sinta menos gelado o frio que soprar em 2010.

Um Ano Novo de Paz e Amor!

terça-feira

Passagem

A tarde de Outono começou a fazer-se lua – redonda, grossa – que uma multidão de nuvens prenhas, de ancas largas e de peitos túrgidos, começaram a empurrar para o fundo do céu, fechando-a numa noite temporã. Ela ainda experimentou espreitar por entre umas cortinas que o vento ajudou a arredar, mas não teve forças para fazer frente àqueles bustos inchados que impunham respeito.
Depois de assim vendarem os olhos à lua, estas monstras começaram a guerrear umas com as outras com um leve rosnar intensificado até à discussão séria, empurrando-se e acotovelando-se, discutindo assanhadamente e deitando fogo pelas ventas como toiros, numa ânsia desenfreada de encontrarem lugar para parir. E o céu explodiu em raiva sobre o bosque de eucaliptos que não tinha culpa de nada.

Carregado de medalhas ao peito e de cigarro na boca, foi apanhado naquela confusão pelo caminho enlameado de regresso ao casebre, que ficava para lá daqueles arvoredos, e resmungaguejava contra aquela bátega que o molhou dos pés à cabeça. Se ele soubesse tinha ficado em casa da irmã. “Eeela beeem qqquuue m’aaaaviiiisô!”
Na noite de raios e coriscos, as árvores tomaram formas humanas de cabeçudos gigantes com narizes pontiagudos e dentes arreganhados, que gargalhavam amedrontando o incauto que atravessava naquela hora.
Quem era esta personagem quase descartável, que ali dançava como uma folha de papel soprada pelo vento? Será que deixaria para sempre as suas pegadas naquela lama do caminho? Porque há pessoas que marcam bem a sua passagem pelo tempo.

(M. Fa. R. - 09.12.2009)

quinta-feira

Coração Descalço

Há histórias nascidas da bruma e do sol poente. Há poemas que se soltam de terramotos e de tornados. De vendavais. De névoas; ou de brisas mansas. Há laços feitos de marés e de encantamento. Poeiras de nebulosas que são gritos de esplendor. Ventanias – canções de amor.
Hesitantes, embalados por um sentimento oceânico, movidos por um sopro do olhar, experimentam tocar-se. E acontece o abraço… quente. E nele dois corações que pulsam em uníssono…
Foi uma carência de alma e de corpo que o fez afogar-se bem no meio daquele mar.
Seria tão inesperado assim? Será que mesmo nada o faria prever?
No fundo, lá bem no fundo de Taiki, uma secreta e escondida esperança de que pudesse acontecer. Ele sabia, tinha lido de Jorge Amado, que «A felicidade não se pode alimentar apenas de recordações do passado, necessita também dos sonhos do futuro.»
E o futuro se calhar estava ali, agora, naquilo que lhe parecia um sonho. Algo como música dançava, rodopiava em volta. Os olhos de Taiki abriram-se e as lágrimas retidas escorregaram-lhe em gotas pelo rosto insaciado. E as palavras não ditas a quererem-se adivinhar nos olhares…
Uma necessidade contida de ter alguém, nascida da aurora perdida, fazia com que se sentisse cada vez mais carente…
É quando o perpassa uma vertigem de medo: porque é que as mulheres não trazem manual de instruções? E atrapalha-se como um menino perdido, ali, de coração descalço.
– Oh! Eu não sei o que sinto…

[Continua em Longos Percursos, não deixem de Ler.]
Este foi só mais um meu pequeno contributo na história de Taiki, a pedido do Fontez.

O Silêncio e a Dor

Não nos faz muito bem namorar silêncios.
Mas quando desenhamos a dor fogem-nos sempre as cores mais primaveris para outros pincéis, e os riscos que nos voam da mão e que nos sobrevoam a tela são em formas de raios saídos de trovoadas.
Nos silêncios apagam-se verbos que engoliriam certezas, dúvidas, afrontas, quedas, humilhações, entronizações, ódios, paixões, uma infinidade de credos ou razões.
A dor, essa, quase sempre se pinta em tons de negro. E muitas vezes de sangue.
Quando o silêncio e a dor se misturam só há lugar para tintas descoloradas que escorrem por entre as vértebras de uma cadeia, onde a noite e o dia, fundidos e amordaçados, se vêem aprisionados sem frestas para respirar.
O silêncio é morte: violência verbal.
O silêncio também é vida: saber calar.
E a dor é um fantasma que o silêncio não consegue ocultar.

terça-feira

Tatuagens Escondidas [3]

- "À meia noite se levanta o francês; sabe das horas mas não sabe do mês."
- Quem é o francês, avô?
- Vá, adivinha!
Assim me arreliava o avô, com as adivinhas que me propunha e que eu nunca adivinhava à primeira. E também:
- Escreve: onsamimedia.
- Como é que isso se escreve?
E ele dizia letra por letra "o-n-s-a-m-i-m-e-d-i-a".
O avô tinha sido professor quando ainda não havia escolas, e os rapazes daquele tempo vinham lá a casa para aprender a ler e a escrever e a fazer contas, disse-me ele.
- Mas só os rapazes? Então e as meninas aprendiam com quem?
- Só uma ou outra é que vinha cá de vez em quando só para aprender a fazer o nome, porque, a elas, os pais não as mandavam aprender.
- Oh, coitadinhas! Mas porquê?
- Então, aprendiam outras coisas que as mães lhes ensinavam: lavar a roupa, remendar, cozinhar, cozer a broa... para serem boas donas de casa. Vá, já escreveste? Mostra cá! Agora lê ao contrário.
- Ao contrário como, avô?
- Começas da última letra para a primeira.
Custava-me a fazer o exercício, mas lá ia eu:
- Ai-de-mi-mas-no... mas o que é que quer dizer?
- Não leste bem! É: ai-de-mim-as-no!
Mas eu não lia assim porque estava escrito tudo pegado, quando eu achava que para se ler como o avô dizia tinha que estar escrito, pelo menos, em duas palavras: onsa-mimedia. E teimava com o avô que como eu lia é que era. E ele:
- Estás a ver? Não sejas teimosa! É isso que não deves ser: asno; ai de mim asno!
E eu ficava aborrecida, meio amuada.
Era assim que ele brincava comigo de me arreliar. Se calhar, para ver se eu não ficava mais mimada do que já era... (agora já tenho consciência de que era mimada e que ainda sou, mas não o consigo evitar).

Quando o avô morreu, eu nunca tinha tido contacto com a morte de uma pessoa. Nem sequer nunca tinha pensado que o avô pudesse morrer um dia, apesar de ele ser velhinho e ter bronquite - aquela falta de ar que parecia que tinha pintainhos no peito a piar.
Mas ele um dia morreu. E obrigaram-me a dar-lhe um beijo no rosto branco e frio, dentro do caixão.
E eu passei a ter medo da morte e repugnância aos mortos.

segunda-feira

Asa ferida

Fugia do que não podia controlar. Fugia magoado com a dor de se sentir inseguro, perdendo-se na fronteira entre a verdade e o medo dela.
Tivera uma efémera felicidade que ainda lhe corria nas veias, lhe percorria as artérias, lhe inundava o cérebro, ao mesmo tempo que se transformava num regato de solidão. “Os lugares dos outros atingem-nos na nossa insegurança!” – Era o pensamento que o levava a um lago parado: um lugar que não estava vago, que era habitado por cisnes brancos, onde não cabia um patinho feio.
Contudo, não conseguia evitar de a imaginar no voo das gaivotas. As gaivotas e os sonhos possuem a liberdade de voar por entre as nuvens, indiferentes à agrura da viagem, apenas sentindo o odor a maresia no arco-íris que perseguem. O voo das gaivotas é sustentado pelas asas; são elas a segurança do voo no sopro do vento.
Mas nem ele era uma gaivota nem as suas asas lhe permitiam voar. Era um patinho feio de asa ferida, que tinha sido atingida na sua ainda débil segurança. Não, não podia aventurar-se no voo - as suas asas mal lhe amparavam a fuga.
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(A frase que se encontra entre aspas foi deixada em comentário pelo 'Antonio - o implume' no post 'Fuga', do separador 'Folhas esparsas'. Obrigada, António, pelo contributo que assim deste na continuação da história.)

terça-feira

Fuga

Disse para si próprio que era loucura.
Quando tinha 23 anos deixara-se envolver, perdidamente, num romance dourado com a sua professora preferida daquele segundo semestre, a mais bela das mulheres, que agora, passados quase três anos, estava ali deitada naquela cama do hospital, com os filhos a cobri-la de beijos, depois de ter estado entre a vida e a morte.
Como era possível que não soubesse nada da sua vida, que tinha filhos, marido?...
Este pensamento atormentou-o. Se tinha filhos, devia haver um homem que a amava... porque não estava ele aqui? Não conseguiu acalmar a agitação provocada pela ideia de que outro homem, apesar de ausente, preenchia um lugar a que ele não tinha direito. "Eu não posso passar sem ela, não agora que a reencontrei."
Mas a verdade é que ela o tinha deixado... sim, claro, havia outro homem... o menino mais pequeno não teria 2 anos e o mais velho uns 7. Como pudera ser tão inocente? Que fazia ele ali, então? Só conseguiu, de momento, imaginar uma solução: iria embora.
Talvez que ela tivesse gostado realmente dele, mas as circunstâncias tinham-nos levado por caminhos diferentes, apesar de agora se terem voltado a cruzar... não, não sabia porque o destino os pusera de novo frente a frente... não sabia como a encarar de novo.
Isto estava a produzir-lhe um turbilhão de sensações confusas, contraditórias, que lhe tornavam dolorosa a sua permanência ali. Afastar-se-ia... rapidamente, antes que se arrependesse.
Deitou um último olhar àquele quadro, enquanto se dirigia à porta, sentindo-se estilhaçar todo por dentro.
Talvez voltasse... ou então não.

sábado

[5] Gotas recolhidas

A carrinha da Instituição ficou de levar o José no dia seguinte para fazer uma visita ao Centro de Dia e almoçar lá. Este vestiu a roupa de domingo e foi. Gostou do que viu e da refeição, e concordou em fazer uns dias de experiência, após o que fez a inscrição e foi admitido. Passou a ter refeições decentes, higiene pessoal como deve ser, e roupa tratada. A casa e a cama foram desinfestadas e esta levou um colchão e cobertores novos. Passado uns tempos já nem parecia o mesmo, de aspecto asseado e bem alimentado.
O pedreiro foi mandado ver o telhado e fez um orçamento. Chegou-se à conclusão de que o dinheiro do José era mais do que suficiente, não sendo necessário recorrer a qualquer ajuda externa. Afinal, por via do dinheiro, ele não tinha necessidade de ter estado tanto tempo naquela miséria. Mandou-se, assim, fazer um telhado novo, substituir o soalho de madeira, velha e podre, por material facilmente lavável, fazer obras exteriores na entrada da porta principal da habitação e, ainda, substituir uma janela em muito mau estado.

Durante o tempo em que decorreram as obras, o José passou a dormir na Instituição, na Unidade de Apoio Integrado (UAI) – uma resposta social de permanência temporária, de períodos de quinze dias, renováveis no caso de se justificar, destinada a pessoas com necessidades de apoio social e de cuidados de saúde continuados, com os objectivos de lhes criar condições de autonomia, de forma a habilitá-las a regressar ao seu domicílio; ou de convalescença de doentes, após alta hospitalar, e ensino às famílias e outros prestadores de cuidados informais do modo de os cuidar; e receber outros idosos ou doentes para descanso dos familiares. Este caso enquadrou-se perfeitamente nesta resposta, mas o José teve sorte, pois passado algum tempo, a Segurança Social deixou de querer continuar a comparticipar esta resposta social, o que levou depois a deixar cair esse acordo de cooperação e passar essas camas, afectas a essa resposta, para alargamento da resposta social de Lar de Idosos. Caso, na altura, não houvesse UAI, teria sido mais difícil o acolhimento do José durante o período em que decorreram as obras, o que levaria a ter de se procurar outra solução, talvez com recurso à comunidade, apesar de ninguém se ter disponibilizado para ajudar ou mostrado grande interesse pelo facto. Isso era assunto para a Associação resolver, ela é que está vocacionada para isso, é para isso que ela existe – parece ser pensamento consensual generalizado.

Depois das obras concluídas e melhoradas as condições interiores, a higiene habitacional passou a ser assegurada pela Instituição e o José pôde usufruir de uma melhoria na sua qualidade de vida.

Junto com o telhado veio “cama, mesa e roupa lavada”: meio caminho andado para a felicidade.

segunda-feira

[4] Ainda mais gotas

Sentiu-se bem toda aquela miséria. Era necessário fazê-la também entender ao José que, por estar tão habituado a ela, por não conhecer outra maneira de viver, parecia não se incomodar muito. Era preciso fazer-lhe perceber bem o estado degradante que o envolvia e que se agravaria, na certa, com o próximo Inverno. Se viesse um temporal o telhado estava sujeito a ruir.
Mas como é que pode viver aqui, assim, senhor José? O telhado precisa de ser arranjado, senão qualquer dia cai… e mesmo, quando chegar o Inverno chove aqui com força e molha-lhe a cama toda… depois pode ficar doente. Ele assente: Pois era… pois era… mas como é que há-de ser? Se quiser, manda-se cá um pedreiro ver e fazer um orçamento… e tenta-se que alguém dê uma ajuda, ou algum subsídio… Encolhe os ombros. Pergunta-se-lhe quanto recebe de pensão. Diz que não sabe, que é o que lhe dão no banco.
Tenta-se saber como é que passa o dia. Diz que é por aí. Às vezes pega na enxada e entretém-se a roçar umas ervas atrás de casa. E outras, vem para a rua ver e falar com quem passa. Come umas sardinhas assadas com pão ou umas batatas cozidas e bebe uma pinga. Não bebe leite. Mas, às vezes, acolá a dona do restaurante manda-o lá ir buscar uma sopa.
Perguntam-lhe se não gostaria de experimentar a ir até ao Centro de Dia… almoçava lá… vão lá passar o dia pessoas que conhece… tinha lá companhia para se distrair… Nunca se sabe! – Responde.
A Assistente Social insiste se não tem nenhum papel da pensão. Ele procura na carteira… cheia de notas… pasme-se: muitas notas! Um perigo! O dinheiro acumulado de vários meses. Traz aí o dinheiro todo que tem… Não. Tem mais no banco… uma conta a prazo.

domingo

[3] Mais Gotas

Dia seguinte. Hora combinada. Ponto de encontro: a casa do José. Esta é na rua principal da localidade – uma fachada baixinha com um telhado aos altos e baixos – e contrasta com a grande maioria das habitações da rua, que são vivendas modernas.
O José já estava à espera na rua quando chegam os três visitadores. Conhece bem dois deles: o homem que falou com ele e uma das mulheres. A outra não sabe quem é. É-lhe apresentada como a senhora doutora da Associação, a Assistente Social. Ele diz que está bem. Entram pelo portão do telheiro e depois na cozinha: um arremedo de cozinha, diga-se. Não tem mesa, nem bancos, só um borralho com uma trempe e uma panela muito farruscada, em cima; ao canto, um montão de pinhas e carolos de milho. Diz que é para ajudar a fazer a fogueira à panela, para cozer as batatas. Junto ao borralho, um alguidar de barro verde, vidrado, com alguma loiça desbeiçada.
Casa de banho? Sim, tem... - responde. O cunhado quando era vivo mandou pôr um chuveiro e um esquentador com uma botija de gás, naquele canto do quartito escuro, ao fundo da casa de fora e mandou cimentar o chão. A água do banho? Escorre lá para fora por um buraco na quina da parede com o chão. Por cima, no tecto sem forro, vê-se o sol pelas frestas das telhas. Não tem medo da botija do gás aqui dentro? Não, nunca aconteceu nada… Mas não tem lavatório… nem sanita, onde é que faz as necessidades? Atão… no pátio, pois. E, lá fora, no alpendre está um espelho… é lá que corta a barba.
A pouca roupa de vestir está empilhada numa tarimba no lado oposto ao chuveiro. E podemos ver onde é a sua cama? Se vocês quiserem… diz com um encolher de ombros. Então vá, mostre-nos lá. Mostrou. Era na casa de fora. O soalho, de madeira carcomida, com uns sacos de linhagem espalhados, a fazer de tapetes, denunciava a chuva que se abatia nele. O telhado, de telhas de canudo velhas e partidas, à vista. Parece que chove cá dentro… Novo encolher de ombros: Hum, quando ela é muita não cabe nas telhas… eu ponho aí no chão uns baldes a aparar.
Na cama de ferro, junto a uma das paredes, um monte de cobertores negros e mantas de retalhos. Lençóis? Não é preciso, assim é mais quentinho. A servir de almofada, um cobertor dobrado, também negro… Um arrepio, seguido de outros dois. Até parece que as pulgas já começam a picar nos corpos…
Encostada à parede do lado oposto, uma arca grande, de madeira, onde estão batatas, milho e feijões. E roupa velha. Nenhuma mesa. Nem cadeiras. A porta da rua não abre. Quando arranjaram a estrada, a casa ficou mais funda, e agora a porta não abre. Quer dizer, abrir abre, mas não se pode passar por lá, porque levou tijolos por fora, para não entrar a água que escorre da estrada…

[2] Outras Gotas

A IPSS local tomou conhecimento das aparentes necessidades do José, através de um dos directores, que atentou na situação e levou o problema à reunião de direcção. A direcção deliberou avaliar a situação e estudar as possibilidades de resolução. Talvez conseguir-lhe um subsídio eventual para as obras do telhado e trazê-lo para o Centro de Dia onde tomaria as refeições e o banho.
Dois dos directores ficaram responsáveis pelo caso e, no dia seguinte, falaram com a Assistente Social da Instituição.
Seria preciso, primeiro, conhecer a fundo a situação e dar apoio perceptivo ao José, ou seja, ajudá-lo a perceber e a avaliar o seu problema, a dar-lhe significado e a estabelecer objectivos realistas e, só depois, dar-lhe o apoio instrumental: ajudá-lo a resolver o problema através da prestação concreta de bens e serviços. O problema é, primeiramente, do José, ele é que tem de querer resolvê-lo, se conseguir perceber que tem um problema e que o quer resolver.
Combinaram fazer uma visita ao José, ficando incumbido de o abordar, para conseguir agendar a visita ao domicílio, o director que trouxe o problema à discussão, o qual teria mais hipóteses de ser bem sucedido, uma vez que tem alguma confiança com ele.

Passados dois dias a visita estava marcada. O José disse que sim, que podiam ir lá falar com ele quando quisessem. Seria então no dia seguinte.

quinta-feira

[1] Gotas

O José tem à volta de 75 anos. Fala-se de miséria habitacional, concretamente ao nível do telhado, que se encontra degradado, deixando que as gotas de chuva lhe entrem em casa e caiam em cima da cama. Imagina-se o que lá vai dentro. Além disso, o seu aspecto denuncia falta de cuidados de higiene pessoal, em que as pulgas encontraram poiso; parece, ainda, não usufruir de uma alimentação digna, sendo visto, na rua, a comer apenas bocados de pão com alguma outra coisa. O José é portador de algum atraso mental e vive sozinho, sem suporte familiar, depois de terem falecido, primeiro o cunhado, única pessoa com maior tino naquela família, e depois a irmã, que lhe cuidava da alimentação e da roupa.

Ninguém pediu nada. Há olhos para ver. Ouvidos para ouvir. E uma pele para se arrepiar.
Há uma intervenção para fazer.

terça-feira

A gente habitua-se

A gente habitua-se. Quer se queira que não, a gente acaba sempre por se habituar...
Habitua-se ao passado, que mais do que passado, torrado, moído, cru ou cozido; cosido ou tecido, ou só alinhavado; espalmado, enrolado, estendido, comprido ou nem tanto; tanto nos mói como nos mata, tanto nos afasta como nos oprime e ou muitas vezes nos salva ou redime.
A gente habitua-se ao presente, que é presente, dádiva ou castigo; por vezes um perigo e outras sorte; muitas vezes vida e outras morte.
A gente habitua-se ao futuro. Maduro ou duro; que pode ser resplandescente ou escuro, negro, fumegante, frio, quente, fervente, escaldante, pungente; sempre igual ou diferente; mas que se anseia puro, vivente.
A gente habitua-se!
Quer se esperneie quer não, acaba sempre por se habituar... e conformar...
Ou não...

Finalmente

Os braços estendidos com as mãos abertas são asas que planam ancoradas à ânsia de um encontro perdido de afecto; planar é uma forma de suster a respiração, para absorver uma explosão de sentidos inebriante.

Há uma tela a tingir-se de um colorido novo: a entrada de dois passarinhos com a insegurança de um primeiro voo. Dois olhitos ansiosos, seguidos de outros dois assustados, exploram o espaço desconhecido. Ao fundo, a luz: a figura central, única. Agora, nada mais importa. As pernitas saltitam sem sentir o chão e os bracitos abrem-se e esticam-se para abarcar toda a emoção e deixar esvair toda a saudade, numa configuração de amor e terapia.

Dói. Oprime. Sufoca. Mas é vida que flui. Chovem beijos salgados, prisioneiros de um mar de abraços, em sucessivas ondas, que acabam por se espraiar até ao relaxamento; uma dança de mãos que acariciam rostos, de olhares e sons que traduzem a grandiosidade do colo de mãe.
Agora, nada mais importa: só mãe e filhos juntos, de novo!

Cinza?

O sorriso já de si amargo morreu-lhe por completo nos lábios; a luz esmoreceu-lhe no olhar. O brilho opaco que ainda despontava no seu rosto foi-se apagando como uma torcida que deixa de fumegar.
O lume vai-se lentamente apagando na fogueira já gasta. Não quer arder. Não quer cintilar. Gasta. Apagada. Sem fulgor. Tudo é negro no canto cada vez mais escuro. Vai-se extinguindo a lenha dando lugar à cinza que se vai acumulando e encobrindo, porventura, algum brasido ainda quente. Um coração, ainda rubro, que teima em não parar de bater. Mas por quanto tempo mais, se um mundo de escombros em putrefacção lhe rasgam as carnes e a alma? Só cinza. Lixo. À sua volta o que mais encontra é lixo, lixo, lixo, lixo, lixo, lixo, lixo, lixo, lixo, lixo, lixo…

Cinza?

O reencontro

Entre a insónia e o despertar há um mundo de palavras respiráveis, à espera para se soltar.
Do passado à insónia, marcas foram sulcadas, rasgadas, aprisionadas. Marcos de pedra e cal, espetados, amarrados.
A insónia do passado traz consigo uma urgência de se reabilitar.
Entre a insónia e o despertar, um sono mal dormido, numa ânsia mordida, calada, dorida… parada, sofrida.

Abriu, por fim, os olhos. Viu-o. Era ele. Afinal… era ele. Era tudo tão estranho.

Olhou-a, como quem não sabe o que quer; como quem não sabe o que faz; como quem não sabe nada de nada. Era tudo tão estranho!

Ele estava ali. Ela estava ali. Frente a frente. Como num sonho, ou num feitiço, em que os dois são outros e não eles. Meses e meses de dor concentrados num momento. Meses e meses de amor prisioneiros de um olhar.
Ambos sentiram, de repente, falta de um mimo. Falta de o receber e de o dar.
José Miguel aproximou-se e tomou-lhe a mão… De olhos nos olhos e de mão na mão, todas as palavras são demais. Todos os gestos revelam as palavras não ditas.
As lágrimas acabaram por se soltar, os soluços por irromper. Ambos deram vazão à emoção que os sufocava. Nenhum dos dois conseguia falar; só o facto de estarem juntos já preenchia todo o vazio que se houvera instalado durante a longa ausência. José Miguel foi impelido a afogar o rosto no pescoço de Luísa e esta a afagar-lhe a cabeça, a apertá-lo de encontro a si. E assim permaneceram por largos minutos, até serem interrompidos. Então olharam-se ainda ébrios do que sentiam.
Como faz falta um mimo!

quinta-feira

Benjamim – pássaro selvagem

Benjamim é um beija-flor, um pássaro selvagem, um pinga-amor.
Ele não sabe, mas partilha de uma maldição, comum a variadas maldições, que não o deixa parar em ramo verde. Desconfia, apenas, de algo trágico e eminente, pululando em seu redor, nos sons melodiosos de uma flauta. E essa música deixa-o receoso. Todavia, não se atreve a criar coragem para escutar com atenção a voz do vento. Desse modo, fica sem perceber bem de onde sopra o toque e o que quererá dizer essa ode.
Por um lado, uma verdade portátil borbulha no seu cérebro de pardal de telhado; por outro, uma simplicidade volúvel fervilha no seu bico carregado de néctar e pólen de flores - vitualhas imprescindíveis à sua sobrevivência.
Ainda assim, a sua natural rebeldia, aliada à desconfiança de que algo não estará bem, levam-no a tomar providências no sentido de tecer um ninho seguro, que o proteja de contratempos. Mas, apesar de tudo, continua firme na decisão de que será sempre um pássaro selvagem.


Texto do 12.º Jogo das 12 Palavras

quarta-feira

Asas são para voar

Longe vão os tempos em que eu voava com Morfeu. Já não sou aquele gavião de asas doiradas… deixei que elas fossem violentamente arrancadas por uma nortada… caí. Embati tão forte dentro de um navio à deriva que quase lhe causei um rombo.
No fundo dos meus olhos quase se extinguiram as labaredas que os faziam brilhar. No lugar desse lume que me aquecia, o vento passou a ser o soberano, aquele que dita as leis e transforma em aridez tudo aquilo em que toca.
Cada sacudidela, cada oscilação deste barco que me aprisiona, causadas pela fúria das águas do enorme oceano que me volteia, provoca em mim uma vasteza de um nada, que eu almejaria que fosse um tudo. Por isso me transformei num tigre assanhado, que ruge e arranha, numa tentativa desesperada de despertar uns sopros de uns olhares, por muito fugazes que sejam, que me venham atear os resquícios das fogueiras que um dia arderam em mim.
Eu sou apenas eu e a minha situação.
Mas, ao longe, bem ao fundo de um tempo que parece breu, uma batida me faz estremecer e acordar. São as asas de latão que vêm ao meu encontro. Afinal, Morfeu ainda não me abandonou, não desistiu de mim. Começo a perceber que ele jamais deixará de me chamar a voar!

[Mais um texto com 12 Palavras sugeridas - 11.º jogo]

terça-feira

Bocas

Caminham em fila indiana, pela beirinha do ribeiro, cinco figurinhas miúdas, baixinhas, pequeninas. Tão pequeninas, tão delicadas, que uma brisa, que lhes soprasse, as poderia fazer desequilibrar e tombar sem remédio em direcção ao riacho. Por isso, cautelosamente, a família avança em direcção a uma casinha, num cantinho mais escondido na aldeia dos anõezinhos, que fica na clareira da floresta das magnólias e das hortênsias.
À frente, a mãe guia o seu pequenino rebanho. Atrás, o pai protege-os, orgulhoso da sua prole. O Becas, o Bicas e o Bocas, três destemidos guerreiros (incapazes de fazer mal a um rato), seguem, alegres e travessos, escoltados pelas suas chefias.

Já são uns rapazinhos, não muito criancinhas, mas ainda gostam de brincar às escondidas e à apanhada uns com os outros e, também, aos domingos, com os seus amiguinhos.
O Bocas é o mais pequeno dos três. Não por ser o mais novo, mas porque a sua constituição mais franzina o deixou mais pequeno do que os irmãos. É também este o mais brincalhão e namoradeiro, sempre rodeado pelas mais lindas catraias da aldeia. É engraçado observar as partidas que gosta de pregar às rapariguitas, e que elas, todas sorridentes, não se atrevem a levar a mal, ficando, até, à espera para ver qual é a próxima contemplada com uma maldadezita das dele. Ele gosta de todas elas sem distinção… ah! mas há uma que, aos poucos, lhe vai prendendo mais a atenção.
Coitadito do Bocas!... Quando se acerca das suas amiguinhas, começa a ficar com um apertozinho no coração… e não sabe o que fazer para as tratar a todas por igual, pois aquela, para ele, começa a ser muito especial.

Atrás dos seus irmãos, o Bocas vai caminhando mas sem sentir muito o caminho, esquecendo-se de brincar amiúde como é seu costume. Vai um pouco pensativo, dando voltas para encontrar uma maneira de descalçar aquela bota, antes de arranjar um trinta e um.
Pois… magicava ele, para com os seus botões, que se não conseguir mudar a situação, um dia ainda haverão de começar a contar assim a sua história:
“Era uma vez um anão que teve três filhos, o Becas, o Bicas e o Bocas. Este último era tão pequeno, mas tão pequeno, que quando casou foi viver para dentro de um sapato número trinta e dois!”

Publicado no Ticho para o Desafio: Os Três Anões

Arte(lharia)

- Isto mais parece um SALSIFRÉ, saído de uma qualquer FÁBULA ESCAGANIFOBÉTICA!
Assim disparou dona Prazeres, toda finesse, de braço dado ao seu NOVO namorado, enquanto percorriam a galeria.
- Não gostas, minha querida? – Pergunta-lhe o namorado, com o sorriso a esmorecer-lhe nos lábios.
- Não! E não vais QUERER que eu diga que gosto, só para te fazer o jeito!
Luizinho sentiu-se à DERIVA, a ficar sem pinga de sangue. Tinha preparado a exposição com tanta PAIXÃO, com tanto amor e dedicação… e agora… agora o resultado era esta insatisfação!
- Estás a mangar… não vês que isto é arte, minha querida?! – Refere ainda com alguma exaltação. – Um estilo de arte muito SINGULAR!
- Arte? Chamas arte a estas esborratadelas, a estas bacias cheias de mazelas, a estes cacos espalhados pelo chão?
O namorado, coitado, a sentir-se mal-amado, não queria acreditar neste AUTÊNTICO descalabro. Ele que pensara fazer-lhe uma surpresa, daquilo que, para si, constituía uma proeza, e ficava agora mudo e quedo, debatendo-se entre o argumentar e o encolher-se num canto a chorar.
Ele bem sabia como a dona Prazeres era difícil de contentar… mas ainda pensara em fazê-la RENASCER com a sua arte… talvez que nisso ela pusesse um LÍMPIDO olhar. Mas, qual quê? O seu SUPREMO mau feitio tinha que dar o seu sinal! E foi isso que fez com que a coisa azedasse e tivesse corrido mal.
Mas então, o Luizinho, longe de estar resignado à sua sorte, replica-lhe num rasgo audaz:
- Pois olhe, minha querida, não é assim que se conquista o coração cá do rapaz!

(Mais um texto das 12 Palavras - 10.º jogo )

segunda-feira

Regresso ao mundo III

“Não éramos iguais. Nunca foi uma relação de iguais… tinha de me afastar.”
Sempre a mesma desculpa. E sempre o mesmo peso na consciência. E sempre o mesmo amor teimoso a não dar tréguas nem sossego. Tanto tempo já passado e tantas lutas para que a tranquilidade visitasse o seu coração, e até parecia que, à medida que o tempo passava, a inquietação se instalava mais.

Tinha ficado de tal modo atrapalhada ao avistá-lo ao longe, que não reparara no automóvel a grande velocidade e se deixara atropelar, quase mortalmente. Fora um milagre ter acordado daquele coma profundo, depois de ter sido dada como morta.
A sua primeira preocupação tinha sido com os seus meninos e pedira socorro para eles, mas acordara com José Miguel na memória, talvez devido ao facto de ele nunca de lá ter saído. Ele era o seu constante pesadelo.

Quando sentiu uma respiração quente a acariciar-lhe o rosto, o pesadelo suavizou, mas nada daquilo podia ser real. Não podia ser… já sonhara aquele sonho tantas vezes... Era somente um produto da sua mente perturbada que insistia em atormentá-la.
No entanto, aquele beijo parecia tão verdadeiro que não queria acordar. Perfeita alucinação em que mergulhara e que lhe transmitia um bem-estar interior tão intenso que queria que perdurasse, para não ter que dar ouvidos aos remorsos de o ter deixado, sem lhe contar a verdade, e que não a largavam nunca.

Poderia ele perdoar-lhe?

sábado

O sal de Taiki

“Pior do que a morte é a solidão… e a minha vida é uma completa solidão”. Murmura Taiki após um breve período de ausência mental.
Ao largo ouve-se uma música alegre, saída de um automóvel parado à entrada do jardim.
- Odeio música! – É um grito saído das profundezas do seu ser.
- Que estupidez! - Escuta.
Boquiaberto volta-se na direcção da voz.
De repente, ali naquele momento, apeteceu-lhe falar com alguém desconhecido. Era-lhe mais fácil abrir-se com alguém que não conhecesse, do que com aqueles que já conheciam o seu drama e o olhavam com compaixão. O que não queria era que tivessem dó de si.
E ali estava, à sua frente, como que caída do céu, a dona daquela voz melodiosa, de tonalidades do nascer do sol, preparadíssima para uma troca de ideias.
- Queres-me dizer qual é o problema? – Pergunta a desconhecida.
Taiki ainda hesita:
- Pro… problema?
- Claro! Quem não gosta de música só pode ter um grave problema. Desde quando é que não gostas de música? – Pergunta a jovem?
- Desde hoje… agora… - mal balbucia Taiki, revelando a sua amargura.
A jovem inquire-o com o olhar e este estende-lhe a carta, decidido a confiar-se-lhe, carente como estava de um ombro amigo.
Ela lê a carta e emociona-se. Aconselha-o a seguir em frente, pois não pode mudar nada do que se passou. Agora só o futuro importa.
- Quem olha para trás transforma-se numa estátua de sal!
- Nós nem nos despedimos… - soluça Taiki, acabando por dar liberdade ao seu pranto, largando ali, naquelas lágrimas, o sal que começara a aprisionar.
- Chora… é melhor chorar do que ficar com um nó na garganta!
A jovem abraça-o, e ali se dá o início de uma amizade…

[Texto a pedido do Fontez - Longos Percursos
para continuação d'
o baloiço e anteriores.]