domingo

[3] Mais Gotas

Dia seguinte. Hora combinada. Ponto de encontro: a casa do José. Esta é na rua principal da localidade – uma fachada baixinha com um telhado aos altos e baixos – e contrasta com a grande maioria das habitações da rua, que são vivendas modernas.
O José já estava à espera na rua quando chegam os três visitadores. Conhece bem dois deles: o homem que falou com ele e uma das mulheres. A outra não sabe quem é. É-lhe apresentada como a senhora doutora da Associação, a Assistente Social. Ele diz que está bem. Entram pelo portão do telheiro e depois na cozinha: um arremedo de cozinha, diga-se. Não tem mesa, nem bancos, só um borralho com uma trempe e uma panela muito farruscada, em cima; ao canto, um montão de pinhas e carolos de milho. Diz que é para ajudar a fazer a fogueira à panela, para cozer as batatas. Junto ao borralho, um alguidar de barro verde, vidrado, com alguma loiça desbeiçada.
Casa de banho? Sim, tem... - responde. O cunhado quando era vivo mandou pôr um chuveiro e um esquentador com uma botija de gás, naquele canto do quartito escuro, ao fundo da casa de fora e mandou cimentar o chão. A água do banho? Escorre lá para fora por um buraco na quina da parede com o chão. Por cima, no tecto sem forro, vê-se o sol pelas frestas das telhas. Não tem medo da botija do gás aqui dentro? Não, nunca aconteceu nada… Mas não tem lavatório… nem sanita, onde é que faz as necessidades? Atão… no pátio, pois. E, lá fora, no alpendre está um espelho… é lá que corta a barba.
A pouca roupa de vestir está empilhada numa tarimba no lado oposto ao chuveiro. E podemos ver onde é a sua cama? Se vocês quiserem… diz com um encolher de ombros. Então vá, mostre-nos lá. Mostrou. Era na casa de fora. O soalho, de madeira carcomida, com uns sacos de linhagem espalhados, a fazer de tapetes, denunciava a chuva que se abatia nele. O telhado, de telhas de canudo velhas e partidas, à vista. Parece que chove cá dentro… Novo encolher de ombros: Hum, quando ela é muita não cabe nas telhas… eu ponho aí no chão uns baldes a aparar.
Na cama de ferro, junto a uma das paredes, um monte de cobertores negros e mantas de retalhos. Lençóis? Não é preciso, assim é mais quentinho. A servir de almofada, um cobertor dobrado, também negro… Um arrepio, seguido de outros dois. Até parece que as pulgas já começam a picar nos corpos…
Encostada à parede do lado oposto, uma arca grande, de madeira, onde estão batatas, milho e feijões. E roupa velha. Nenhuma mesa. Nem cadeiras. A porta da rua não abre. Quando arranjaram a estrada, a casa ficou mais funda, e agora a porta não abre. Quer dizer, abrir abre, mas não se pode passar por lá, porque levou tijolos por fora, para não entrar a água que escorre da estrada…

10 comentários:

Cátia disse...

Existem realidades que nos fazem chamar à realidade... Que nos fazem valorizar tanto o que temos e o que somos...

Conseguiremos nós sequer imaginar a realidade de algumas pessoas? Não creio...

Um beijo querida amiga,
CA

pin gente disse...

só para aquele abraço (apertado, do fundo do coração) que soube que precisas.

voltarei com tempo... para te ler!
luísa

antonior disse...

Parar, por momentos para olhar para dentro destas palavras e ver o desconforto a escorrer com a chuva pelas telhas...e a aparente indiferença do José deixa-nos incapazes de articular esta realidade com as melhores e com as piores...de ter comentários para além das perguntas e da urgência de saber o que vem a seguir....

Justine disse...

Retrato duro e infelizmente tão real, o que fazes com o teu excelente texto.

O Árabe disse...

Dura realidade... que, infelizmente, ainda permitimos existi rno mundo. :( Bom resto de semana, amiga.

Gui disse...

Caríssima amiga, eu estive presente na sessão de lançamento do livro e gostei, mas tive pena de não ter tido a possibilidade de conhecer os colegas, e não o fiz por timidez da minha parte, que já tenho idade para ser um pouco mais desinibido. O primeiro contacto para mim é difícil, principalmente se for eu a encetar a comunicação. Quanto ao seu blog, gostei, mas virei com mais disponibilidade de tempo para o ler com a atenção que ele merece. Posso deixar um beijo? Por esta via não há perigo de transmitir a gripe A.

Eduardo Aleixo disse...

Gostei muito do seu texto. A expressão " borralho " é da minha infância alentejana. Não a ouvia há muito tempo. Foi bom revisitá-la.

Bruno Cardona disse...

Olá, ainda bem que gostou da minha tela, quanto ao seu blog, bem, é impossivel passar e não lêr, ca me encontro eu de novo arrepiado so de pensar no que escreveu, é triste mas muito real infelizmente, espero que tudo se resolva da melhor forma, um beijinho.
Bruno Cardona

Maria Soledade disse...

Querida Fa Menor:

Este é o retrato real da pobreza na verdadeira acepção da palavra!!

Uma pobreza tão pobre acolhida com um simples encolher de ombros!!!!


**Obrigaste-me a interrogar-me, a culpar-me ,por tantas e tantas vezes dizer que tenho um "galinheiro"!!!(T1+1)...Neste momento oferecia a cara para um valente par de estalos!!! Estás à vontade...ofereço-te a face...

Beijinhos minha querida...Tudo de Bom para ti

Fa menor disse...

Cátia,

Pin gente,

Antonior,

Justine,

O Árabe,

Gui,

Eduardo Aleixo,

Bruno Cardona,

Maria Soledade,

Obrigada por me lerem e se darem ao trabalho de comentar umas gotas que tornam as folhas manchadas...
tantas vezes lágrimas escorridas por dentro.

Beijinhos

Abraços especialmente para os meus colegas da antologia "Entre o Sono e o Sonho". Gostei muito de vos saber por aqui.
Obrigada.