quinta-feira

[1] Gotas

O José tem à volta de 75 anos. Fala-se de miséria habitacional, concretamente ao nível do telhado, que se encontra degradado, deixando que as gotas de chuva lhe entrem em casa e caiam em cima da cama. Imagina-se o que lá vai dentro. Além disso, o seu aspecto denuncia falta de cuidados de higiene pessoal, em que as pulgas encontraram poiso; parece, ainda, não usufruir de uma alimentação digna, sendo visto, na rua, a comer apenas bocados de pão com alguma outra coisa. O José é portador de algum atraso mental e vive sozinho, sem suporte familiar, depois de terem falecido, primeiro o cunhado, única pessoa com maior tino naquela família, e depois a irmã, que lhe cuidava da alimentação e da roupa.

Ninguém pediu nada. Há olhos para ver. Ouvidos para ouvir. E uma pele para se arrepiar.
Há uma intervenção para fazer.

7 comentários:

Conversa Inútil de Roderick disse...

Muitos Josés há pelo Portugal do Sec. XXI!! Infelizmente...

Cátia disse...

Infelizmente muita gente não quer ver... não quer fazer nada para mudar... infelizmente é muito comum.

Continuo a adorar ler-te.
Beijinho mt grande,
CA

antonio - o implume disse...

Não com os meus impostos, responde o povo que vira a cara quando o José passa...

Justine disse...

Os Josés precisam de ajuda, nem que seja para morrer com dignidade já que viver é o que se vê, mas quem se importa??
Até quando a existência de Josés?

Å®t Øf £övë disse...

E com quantos "Josés" não nos cruzamos nós diariamente...
Bom fds.
Bjs.

antonior disse...

"Sim, e quantas vezes pode um homem virar a cabeça
Fazendo de conta de que não vê?



A resposta, meu amigo, voa no vento
A resposta voa no vento


Sim, e quantas vezes tem um homem de olhar para cima
Antes de poder ver o céu?
Sim e quantos ouvidos tem um homem de ter
Antes de poder ouvir os outros chorar?

A resposta, meu amigo, voa no vento
A resposta voa no vento"

Assim cantava (no seu inglês nativo) um jovem rebelde há meio século atrás. O senhor Dylan, mais tarde apaziguado pelas "virtudes" do "sistema" americano. Nesse tempo cantava junto com a Joan Baez, o Pete Seeger e muitos outros. Depois tudo se desmembrou, perdeu força. Tudo se pulveriza.

Hoje, aqui, como noutros lados quem pode fazer alguma coisa, olha para o lado para não ver....

Quem olha em frente e sente, não tem meios para fazer nada....

E tudo fica igual, dia após dia...

Tantos Josés por ai, e Manéis, e Joanas....fome, doença, dor...e quem, para fazer o quê? Um paliativo agora para cair no mesmo dentro de dois dias. O problema é de estrutura social, a estrutura social, depende da cultura política e essa gasta o dinheiro na corrida ao poder ou na sua manutenção.

E dito isto, explico que não me deve ser atribuida filiação ideológica porque não tenho nenhuma...

Abraço

Fa menor disse...

Obrigada pelas vossas achegas.
Segue a continuação.