sábado

[5] Gotas recolhidas

A carrinha da Instituição ficou de levar o José no dia seguinte para fazer uma visita ao Centro de Dia e almoçar lá. Este vestiu a roupa de domingo e foi. Gostou do que viu e da refeição, e concordou em fazer uns dias de experiência, após o que fez a inscrição e foi admitido. Passou a ter refeições decentes, higiene pessoal como deve ser, e roupa tratada. A casa e a cama foram desinfestadas e esta levou um colchão e cobertores novos. Passado uns tempos já nem parecia o mesmo, de aspecto asseado e bem alimentado.
O pedreiro foi mandado ver o telhado e fez um orçamento. Chegou-se à conclusão de que o dinheiro do José era mais do que suficiente, não sendo necessário recorrer a qualquer ajuda externa. Afinal, por via do dinheiro, ele não tinha necessidade de ter estado tanto tempo naquela miséria. Mandou-se, assim, fazer um telhado novo, substituir o soalho de madeira, velha e podre, por material facilmente lavável, fazer obras exteriores na entrada da porta principal da habitação e, ainda, substituir uma janela em muito mau estado.

Durante o tempo em que decorreram as obras, o José passou a dormir na Instituição, na Unidade de Apoio Integrado (UAI) – uma resposta social de permanência temporária, de períodos de quinze dias, renováveis no caso de se justificar, destinada a pessoas com necessidades de apoio social e de cuidados de saúde continuados, com os objectivos de lhes criar condições de autonomia, de forma a habilitá-las a regressar ao seu domicílio; ou de convalescença de doentes, após alta hospitalar, e ensino às famílias e outros prestadores de cuidados informais do modo de os cuidar; e receber outros idosos ou doentes para descanso dos familiares. Este caso enquadrou-se perfeitamente nesta resposta, mas o José teve sorte, pois passado algum tempo, a Segurança Social deixou de querer continuar a comparticipar esta resposta social, o que levou depois a deixar cair esse acordo de cooperação e passar essas camas, afectas a essa resposta, para alargamento da resposta social de Lar de Idosos. Caso, na altura, não houvesse UAI, teria sido mais difícil o acolhimento do José durante o período em que decorreram as obras, o que levaria a ter de se procurar outra solução, talvez com recurso à comunidade, apesar de ninguém se ter disponibilizado para ajudar ou mostrado grande interesse pelo facto. Isso era assunto para a Associação resolver, ela é que está vocacionada para isso, é para isso que ela existe – parece ser pensamento consensual generalizado.

Depois das obras concluídas e melhoradas as condições interiores, a higiene habitacional passou a ser assegurada pela Instituição e o José pôde usufruir de uma melhoria na sua qualidade de vida.

Junto com o telhado veio “cama, mesa e roupa lavada”: meio caminho andado para a felicidade.

23 comentários:

São disse...

Muito interessante texto, principalmente par quem - como eu - trabalhou na área social e educativa.

Boa semana.

Vicktor disse...

Querida Fa

Conjunto de "gotas" maravilhosas que dão bem conta do espírito de solidariedade que muitos sabem partilhar.

Pena é que as entidades oficiais, que se dizem actual no campo social, não o façam e mais dificultem a vida de quem o pretende fazer.

Instituições Privadas de Solidariedade Social, os voluntários que as apoiam, são a tábua de salvação de muitos dos nossos idosos, especialmente, dos mais carenciados.

Beijinho.

anad disse...

Minha querida amiga como tem verificado estou a contar a minha viagem à Rússia que foi uma experiência fantástica. Desejo-lhe umas boas férias se ainda não foi.
Beijinhos
Anad

Justine disse...

E finalmente, uma vida digna!

Gui disse...

Uma história com um final feliz. Haja algumas. Um beijo amigo.

tulipa disse...

Tenho andado meia apagada e fugida deste cantinho tão belo, onde nos delicias com a tua escrita magnífica.
Voltei e adorei...

Uma história com um final feliz.

A perseverança nos altos sentimentos é a força que nos eleva acima das nossas limitações....

Bom fim de semana.
Beijos

Maria Soledade disse...

Valeu o esforço por esse José. A dignidade é o minímo que se pode oferecer a um ser humano!

Gostei do final.Assim fossem todos, pena que a realidade de aínda Muitos seja bem diferente...

De parabéns estão todos os voluntários que se entregam de corpo e alma a casos cuja meta da felicidade parece tão distante e que o Verdadeiro Amor tão facilmente encontra!

Parabéns Fa Menor

Beijinhos

O Árabe disse...

É sempre positivo, quando a solidariedade e a inclusão mudam para melhor uma vida. Gostei! :) Boa semana.

Joana d'Ouriique disse...

Linda a historia do José. Oxalá todas fossem assim viveriamos num mundo muito melhor.

Beijinhos

antonior disse...

Sim, é verdade, a felicidade é possível.

Talvez os maiores males da sociedade contemporânea sejam a intolerância, a indiferença e a ambição desmedida.

antonior disse...

Respondi ao seu comentário, no meu post anterior na própria página em que comentou

legivel disse...

... regresso a tempo de "assistir" ao final da "história" com final feliz.
Gota a gota também é feito o trabalho solidário em prol da dignidade social.

Fenix disse...

Amiga Fa,

Por este espaço e pelo que nele transmites e também pelos teus outros espaços, tenho lá um presentinho para ti no meu O Renascer da Fenix.

Beijinhos
São

Mariz disse...

Fa querida

Vi agradecer as tuas palavras num momento tão significativo.

Deixo-te um abraço sentido
Mariz

O Profeta disse...

Uma jura de amor nasce do peito
O querer vestiu-de de exaltação
Um olhar prende um sorriso sincero
Duas mão procuram a união

Seguem juntos rumo ao infinito
Habitam o Templo da imaculada ternura
Nesta peça ninguém morre, acaba bem
As deixas são engalanadas pela formosura


Queres viajar no para sempre...?

Doce beijo

O Profeta disse...

Não vem cá à minha ilha de S.Miguel cara amiga?


Doce beijo

Fa menor disse...

Bem que gostaria de um autógrafo no Alquimia das Palavras... mas não deu para ir aí, amanhã já estarei no continente.

Bjo

pico minha ilha disse...

Vi aqui ter pelo blog da São.Então esteve aqui na ilha no casamento do filho, a foto no Cachorro ainda na Quarta-Feira estive lá, no Cais Mourato estive fez Sexta-Feira 15 dias, quando o Saúl veio cantar por lá e daqui a pouco vou ao Lajido que temos festa por lá.Espero que a chuva não atrapalhe.De uma Picarota aqui por S.Roque

Gui disse...

Uma história comovente, tão igual a tantas outras que por aí há, mas a maioria delas sem um final tão feliz. O texto está muitísimo bem escrito. Leu-se de um "trago". Um beijinho, Fá, gostei muito de te ler.

Fa menor disse...

Pico minha ilha,
tenho imensa pena de não te conhecer antes... poderíamos ter-nos falado. Sim, eu estava lá nesse dia. E tb conheci S. Roque.
Obrigada pela visita.
Bjinhos


Gui,
De facto, são tantas histórias parecidas, nem todas com final feliz... quando se lhes podia mudar o rumo.
Obrigada por gostares de me ler.
Bjinhos


Justine,
quando se pode ajudar alguém a ter uma vida digna fica a sensação do dever cumprido.
Bjinhs


Anad,
as férias ajudam-nos a revigorar para mais um ano de luta.
Obrigada!
Bjins


Vicktor,
IPSSs que se vêem cada vez mais desapoiadas...
Obrigada.
Bjins



São,
então compreendes bem certos dramas...
Bjinhos


Tulipa,
obrigada por teres voltado.
Bjins


Maria Soledade,
Obrigada.
Assim todos os finais fossem felizes.
Bjinhos


O Árabe,
solidariedade e inclusão... duas palavras a que se tem que dar corpo, que não podem ser só duas palavras bonitas.
:)
Obrigada.


Joana d'Ouriique,
Pois é, uma pena que o egoísmo dos homens não os deixe construir um mundo melhor.
Obrigada pela visita.
Bjinhos


Antonior,
E às vezes nem é preciso muito para fazer os outros felizes... há quem se contente com tão pouco e, quantas vezes, até o pouco lhe é negado.
Bjinhos


Legível,
bem regressado, sempre, aqui!
Sim, gota a gota...
Obrigada.


Mariz,
Abraço tb para ti, amiga.

Fa menor disse...

Fenix,

Muito obrigada!
Acabei agora de o colocar na montra da C(l)ave.
Desculpa a demora.

Beijos

Å®t Øf £övë disse...

Fá,
Há pessoas a quem basta dar uma pequena ajuda para a voltarmos a ver a sorrir, e a ter uma vida mais feliz, e com maior esperança.
Bjs.

Fa menor disse...

Bem dito, Art!

Obrigada.

Bjs