quarta-feira

Espírito de Natal II

Em casa onde falta o pão, a todos pode falhar a razão.

Chegou Dezembro. E com ele o Natal. Mas este entrou em casa dos Batista de espírito arredio. Por onde andava o espírito de Natal? Porque se esquecia ele deles?
Em família onde o Amor e a Paz se fazem escassos, o Natal é retratado de um corpo sem espírito. Os rostos fecham-se, a frieza enregela e corrói. Quando o espírito de Natal se ausenta fica-se só, triste e infeliz. Não se sente o amor, tolerância, paz, compaixão, sentido de dádiva.

A época de Natal é propícia à reunião familiar. Estar em família com amor é a base do espírito de Natal. Amor é a palavra-chave, a senha de acesso à paz e à felicidade.
Mas o Natal e o verbo amar não se conseguiam ali conjugar.
É claro que a vida não é sempre fácil. Somos surpreendidos, no escorrer dos dias, por contrariedades e revezes; sofremos desgostos; estamos tão sujeitos a desgraças. Mas se não se é capaz de estender a mão, quer como quem dá, quer como quem pede ajuda para se erguer do chão, corre-se o risco de se ficar sem ter a quem amar. E sem amar, sem abertura para amar, para dar amor – a todos e a qualquer um, e não só àqueles que nos interessam – não absorvemos o verdadeiro espírito de Natal.
Um Natal até pode ter presépio e árvore de Natal e luzes a piscar… ter neve artificial nas janelas a brilhar… mas o espírito andar longe. Pode até haver prendas, mas o espírito de Natal vai muito para além das prendas materiais que se dão: para muitos pode ser só preciso um sorriso, uma palavra simpática, um carinho, um telefonema…

O espírito de Natal assoma à alma nesta altura do ano para a abrir em calor humano. Numa família unida. No perdão que apaga desavenças. No tempo que se dá a quem dele precisa. Na paciência para ouvir e reconfortar. No ombro que se oferece para alguém chorar. Na generosidade e bondade que extravasa dos rostos para fazer a felicidade dos outros. E sentir-se feliz assim.
Mas muitas vezes assim não é. Que não se apague, ao menos, a esperança de o vir a ser. A Esperança é o berço do espírito de Natal. Mas esse berço – Esperança – não pode ficar vazio, despido. Tem de ser preparado, revestido de lençóis quentinhos. E, se possível for, todo o quarto tem de se ir decorando ao seu redor, para tornar todo o ambiente mais fofo e acolhedor. E, mais tarde ou mais cedo, o milagre acaba por acontecer assim que a decoração estiver pronta.

Mas se se instalar um vazio que não se consegue preencher, o Natal pode trazer um sofrimento maior do que qualquer outra altura do ano. E se a Esperança também se ausentar pode ser o descalabro total. Mas se ela comparecer, uma réstia acenderá um rastilho. A tristeza, a solidão, a doença, a dor, o desamor podem andar constantemente a espreitar, mas é preciso que a Esperança não lhes ceda o lugar.

Pois bem. Na família Batista, houve alguém que não se deixou desesperar.



Continuação de Boas Festas com o espírito de Natal sempre presente.
Para todos vós, um Ano de 2011 onde reine o Amor e a tolerância.

terça-feira

Espírito de Natal I

Tudo começou quando a dona Maria Aurora ficou viúva. Faltando-lhe o seu companheiro de toda a vida, decidiu ir viver com a filha, a sua única filha - filha única -, com o seu rico genro - genro rico -, e seus amados netos José Maria e Matilde, de 20 e 18 anos respectivamente. Ela sabia que a sua filha, muito bem casada com Alcides Batista, um empresário de sucesso, não deixaria que nada lhe faltasse. E, de facto, por um bom tempo assim foi. Tudo corria bem. Alcides, proprietário de uma cadeia de lojas de pronto a vestir, não tinha mãos a medir. A sua esposa, Maria, ajudava-o quando podia para pôr a escrita em dia, ocupando-se da escrituração e, se preciso fosse, também ao balcão, enquanto a sua mãe tomando as rédeas da casa na sua ausência, se sentia nas suas sete-quintas a ditar as suas ordens à família. José Maria e Matilde, que sempre foram alunos exemplares, andavam na universidade.
Era uma família normal aos olhos de toda a vizinhança, até ao dia em que a esposa descobre que o marido a apostou ao jogo no casino.
Maria, ao fazer a escrita da empresa, tinha dado com uma grande diferença nas contas e, vendo o dinheiro a faltar em casa e para pagar às empregadas, ‘encostou o marido à parede’, e ele confessou o seu vício ao jogo, de que tinha dificuldade em se livrar e, no qual, num dia em que não tinha mais dinheiro para jogar, foi pressionado pelos colegas a apostá-la a ela, tendo sido por um triz que não a perdera. Tinha consciência de que andava mal, mas precisava de recuperar, ao menos, algum do dinheiro que tinha perdido e que levara a empresa quase à insolvência e fizera surgir todos os problemas à família. Contudo, referia que a sogra é que fora a causa primeira de toda esta situação, pelo facto de ir viver com eles, pois ela controlava tudo e todos, e ele, para não ter de a aturar, começara a sair à noite com amigos e a viciar-se no jogo.
José Maria, o filho do casal, sempre foi sociável e com boas notas nas disciplinas escolares. Ao dar conta do mau ambiente familiar acontecido tão repentinamente, começou a fazer noitadas com amigos pouco recomendáveis e a chegar a casa de madrugada alcoolizado, como forma de fugir aos problemas, passando as tardes a dormir e faltando às aulas. De aluno exemplar tornou-se num aluno fraco, fechando-se cada vez mais em si, sem falar com a família.
Matilde, mal saída da adolescência, sempre tinha sido uma menina muito mimada e protegida e nada sabia da vida. Ao ver-se mergulhada em tamanha confusão na família começou a buscar refúgio nos amigos e a passar semanas sem aparecer em casa. Ao fim de um certo tempo aconteceu: engravidou.
Só desgraças!
A dona Maria Aurora, mãe da Maria, começa então a ser pressionada a gastar o dinheiro da sua reforma nas despesas da família, e não anda nada contente com isso. Diz que não sabem governar vida, que se não fosse ela morriam todos à fome naquela casa. Que o genro lhe saiu melhor do que a encomenda, e que não sabe educar os filhos, por isso é que tudo deu no que deu: a neta está grávida e não sabe quem é o pai; e o rapaz ou se fecha que ninguém o vê, ou anda com umas companhias que até metem medo…
O caso está mal parado.


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Um Feliz Natal de Amor, Paz, Saúde, Alegria!

sexta-feira

Pontos nos iiii

Os tempos modificam-se como da noite para o dia. E outra vez como do dia para a noite.
Fingem-se páginas bem alinhadas, arrancadas à intempérie que não dá tréguas. Num corrupio, abastecem-se memórias de histórias esquecidas, tontas, torcidas, tremidas, aladas, caladas. Coladas. Vividas.
A ti pertence o meu sabor das manhãs de neblina. Em ti abandono as dores das noites sem luar. De ti retiro calor e frio, paz e tormento. Fogo. Relento.
E debato-me numa indecisão: refresco-me na chuva que me salpica a janela ou retiro-me no sono que me espreita as pálpebras?
Posso, precariamente, colar as mãos ao volante e soltar-me livre no asfalto negro que me fascina. Posso, indefinidamente, resumir-me ao espelho da janela e fechar o mundo do lado de dentro. Posso.
Posso cerrar a cortina e suprimir, de vez, este engano em banho lento. Posso trocar as voltas às voltas à volta de mim. Posso. Talvez um dia mergulhe nessa coragem. E posso ter a certeza de que, quando isso acontecer, essa volta será uma volta dada bem por cima.

quinta-feira

Um mundo para Luísa

Ao adaptar-se à sua nova vida, Luísa vira-se envolvida nos cuidados aos sogros.
Dona Arminda, a sogra, com 73 anos, há algum tempo que vinha fazendo curativo, em casa, a uma ferida que lhe aparecera na perna direita, e Luísa foi-se apercebendo de que esta não tinha jeito de cicatrizar, mas, pelo contrário, parecia que afundava. Levou-a então a uma consulta ao médico de família que a encaminhou para os serviços de enfermagem, onde passou a ir fazer penso três vezes por semana. Andaram neste vai-e-vem durante meses, enquanto a barriga de Luísa crescia.
O senhor Américo, o sogro, era sete anos mais velho do que a esposa, mas sem grandes problemas de saúde, apenas um pouco duro de ouvido e, de vez em quando, com umas dores nos pés que lhe dificultavam um pouco a marcha. Gostava muito de ficar com o neto quando as mulheres não estavam em casa. Parecia que rejuvenescia com as brincadeiras que os dois travavam. Estas eram, para ambos, momentos muito agradáveis de partilha de afectos e de vida. Aquele relacionamento intergeracional ensinava o pequeno a crescer e o mais velho a renovar o gosto de viver. Gostava de dar o seu passeio pela rua, mas só o fazia quando a nora o podia acompanhar, pela tardinha, os dois de braço dado e com o pequenito, ora de mão dada à mãe, ora ao avô.
Mas a idade não perdoa, e as dores nos pés começaram a ser mais e as forças nas pernas a ser menos, o que o passou a confinar, cada vez mais, ao interior da habitação. No entanto, de vez em quando, sentava-se à porta de casa, a apanhar sol nas pernas e, assim, sempre ia observando o que se passava lá fora.
Luísa ia-se sentindo mais pesada e redonda à medida que o tempo passava, até que, enfim, chegou a hora de o José nascer. Deixou o Manuel com os avós e chamou um táxi, que a levou à maternidade onde o parto se desenrolou sem complicações. Passados dois dias estava de volta a casa; na alcofinha, um bebé rosadinho e de cabelos de fazer inveja ao “avô” chupava no dedinho com desenvoltura.
- É tão bonito! – Comentavam os idosos, gostando já dele como se fosse seu neto.
O irmão não arredava pé dele, pendurado no berço a contemplá-lo no sono, experimentando-lhe a chupeta, esperando pela oportunidade de se enfiar no seu lugar assim que a mãe de lá o tirasse. Uma vez, apanhando a mãe fora do quarto, tirou-o ele próprio da caminha para cima do tapete e deitou-se naquele ninho fofo e quentinho, como só os bebés têm.
E, durante algum tempo, tudo se resumiu, naquela casa, a choros de bebé e risos de criança. As crianças retêm em si o mundo. Para além delas, o que houver é de menor importância.

quarta-feira

O Direito à Verdade

Os pensamentos e os remorsos não davam tréguas a Luísa.
Não acreditava que apaixonar-se pudesse ser pecado. É que não se pode evitar, principalmente quando se está só ou carente. Mesmo que não se procure. E quando acontece e se é correspondido, então não há como se ocultar por muito tempo, e o encontro dos sentimentos acabará por surgir na menor oportunidade. Parece que existe como que um íman que atrai e tudo se torna inevitável porque os dois se buscam. Luísa ainda o tentou evitar mas sem o conseguir, apesar de saber que um namoro entre uma professora e um aluno nunca seria bem visto. Uma relação entre professora e aluno não era nada convencional, e quando aconteceu foi a medo, por isso reprimida e curta, mas em encontros tanto mais intensos quanto escondidos, tanto mais vividos quanto fugazes. Uma vivência tão cega quanto puros os sentimentos.
O tempo foi escasso para explicações e estórias de vida, e ficou tudo por dizer.
Tudo se precipitara quase no final do semestre e do ano lectivo quando Luísa caíra em si depois de fazer o teste de gravidez. Depois, Luísa dava por si a evitar-lhe os olhos; e as aulas onde o tinha por aluno tornavam-se insuportáveis porque impregnadas da dor da sua presença. Até que Luísa tomara a decisão que a fizera culpada.
Era agora mais do que tempo de lhe contar toda a verdade. Já não era sua professora. E ele já não era seu aluno.
Pelo menos aquela verdade ele tinha de saber. Tinha esse direito. Mesmo que ela nunca obtivesse o seu perdão.

Entre portas e janelas

Uma porta que se fecha pode ser uma janela que se abre. Uma corrente de ar repentina: um sopro mais forte de vento que escancara esta e obriga a fechar aquela; ou um vácuo que se cria pelo trancar da porta que obriga a janela a dar de si. Seja como for: janela que se abra para bater com a porta ou porta que se feche para que o ar entre pela janela, o mundo não pára para acontecer.
Assim sucedera mais ou menos com Luísa: o fecho de uma porta; uma janela aberta. E um mundo lá fora à espera; e outro a nascer-lhe nas mãos. Mundos diferentes que lhe respiravam na pele e lhe transpiravam no olhar.
Por uns tempos ficara para trás a Faculdade e a sua vida de docente, para dar lugar a uma vida doméstica, quase de reclusa.
Os sogros, dois filhos a crescer - um a pular pela casa e outro a pular dentro de si - traziam-lhe os dias de tal modo preenchidos que não tinha tempo para pensar em nada mais.
Tinha sentido alguma dificuldade e apreensão inicial para contar da gravidez aos seus velhinhos, mas eles até haviam reagido melhor do que contara. Lembrava-se das palavras que a sogra então lhe dissera: “Filha, fizeste um grande disparate, sabes disso?”. Ela assentira, corada, pedindo-lhes que não a mandassem embora. E respirara fundo, aliviada, quando eles, olhando um para o outro, lhe disseram que se ela precisava deles, eles também precisavam dela.
Foi assim que Luísa passou a morar ali naquela casa grande: não só essa porta não se lhe fechara como, por entre as cortinas das suas janelas abertas, o sol lhe fora trazendo alguns sorrisos.
Tinha consciência de que fizera grandes disparates… mas, ainda assim, achava que maior disparate teria sido nunca se ter permitido amar.

Repetições

Sim, a vida também é feita de repetições.
Há dias de nevoeiro que se fecham em noite; há dias de nevoeiro que se abrem ao sol. E se há dias de nevoeiro que escondem a vida, há também dias de nevoeiro que a desvendam, que dela palpitam.
A vida repete-se todos os dias; em dias de nevoeiro ou em dias de sol; ou de chuva, ou de tempestade, ou de bonança. Todos os dias o sol nasce; todos os dias o sol se põe. As estações sucedem-se umas às outras. Todos os dias se morre; todos os dias se nasce. A vida tira; a vida dá. E até o que se oculta no nevoeiro também dele irrompe inesperadamente, às vezes contra todas as probabilidades.
Luísa viu as repetições acontecerem na sua vida: em si.
Um dia, o nevoeiro cortara-lhe o ar que respirava; mais tarde, um outro dia de nevoeiro devolvera-lhe o ar em tal quantidade que a sufocara. Contra todas as probabilidades, a vida lhe mostrara de novo o amor. Um amor demasiado belo para ser verdade. José Miguel. O aluno daquele semestre que brilhava por entre uma multidão de alunos, como o sol rompendo o nevoeiro.
Demasiado ofuscada, demasiado sedenta, afogara-se nessa fonte de luz, sem conseguir a racionalidade que lhe permitisse manter a distância. Racionalidade é o que não abunda quando o amor e a paixão se fazem urgência. Mais tarde foi tarde demais.

Chegaram as férias e Luísa foi, e não voltou. A dor também se repete, mas desta vez fora uma decisão sua. José Miguel. Pensou sobretudo nele: nunca lhe atrapalharia a vida. Era muito jovem, era homem, como tal seria fácil para ele ultrapassar aquele seu, talvez, devaneio da juventude que era amar a sua professora. Quanto a ela, o que aconteceria a seguir não passaria de mais uma repetição: ser mãe, e pai, outra vez.

terça-feira

Luísa

Luísa casara numa manhã de Junho; era Primavera, quase Verão. Tinha sido uma cerimónia íntima no registo civil, apenas com um casal amigo de ambos por testemunhas, seguido de um almoço a quatro; e pronto.
O marido, filho único de pais já idosos, não tinha mais família chegada; por isso não queria grandes cerimónias nem boda e resolvera assim. Ela amava-o e conformara-se; que fossem um do outro, construir uma vida em conjunto, era tudo o que lhe bastava. Mas a sua família não lhe perdoou o casamento fugido e repudiou-a. Acabou, com muito custo, por se habituar a esse afastamento; em contrapartida ganhou outra família: os pais do marido, que passaram a ser a sua única família – eram eles que a estimavam como filha.
Casada ainda não era há um ano quando o marido lhe desapareceu, num dia de nevoeiro, qual D. Sebastião. Passou muito mal. A dor e o pranto pareciam querer roubar-lhe a vida. Dormia mal, comia mal… ou mal dormia e mal comia, ao que se seguiram quebras de tensão, desmaios; enjoos. Definhou. Estava grávida, soube-o depois. Isso a salvou. E foi mãe.
Ter um filho sem pai era ter que ser mãe e pai para ele. Dedicar-se inteiramente àquela criança supria-lhe a falta do marido e ajudava-a a não pensar no sofrimento que a falta dele lhe causava. O filho era vida, alegria ressurgida, amor perpetuado.
Visitava amiudadamente os sogros, os quais deliravam com o neto que ia crescendo esperto e saudável, recordando-lhes saudosamente o filho, ao mesmo tempo que lhes preenchia algum do vazio deixado. As férias e muitos fins-de-semana eram passados juntos, até que um dia mais tarde Luísa se mudou para lá. A idade avançada tornava-os cada vez mais dependentes e não tinham mais ninguém senão a ela e ao menino.
Mas não foi só isso que a levou àquela mudança de cidade e de vida. É que a vida também é feita de repetições…

quinta-feira

Quando a Vida é Uma Peça de Teatro

A vida é uma peça de teatro: umas vezes comédia, outras drama. Só que no teatro do quotidiano não são permitidos ensaios, a peça desenrola-se de improviso, sem estudo prévio, em que cada acto rola na sequência de outros actos, mais ou menos amadores, onde o protagonista é uma existência livre, mas que, mesmo que a cena em palco seja monólogo, não vive sem personagens secundárias, figurantes e público, numa permanente construção.
E quantas vezes a vida é um filme! Umas vezes de amor, outras de terror; umas vezes em formato de telenovela, em ecrã de televisão, outras de curta-metragem e em ecrã de cinema. Alguns episódios podem mesmo parecer saídos de filmes antigos, daqueles que sofreram cortes de tesoura porque alguma cena merecera censura ou porque a película pegara fogo.

José Miguel pensava nisso, sentado na sua cadeira no consultório, cansado de uma tarde de trabalho intenso, um tanto desgastante, em que, entre outras, tivera de acalmar duas crianças para as fazer colaborar no tratamento, e de chamar à razão as mães, que em vez de ajudar só atrapalhavam. E pensava nos teatros da vida e no formato que tinha a sua.
Se lhe fosse permitido voltar atrás, ao passado… refazer o seu filme, o teatro que era a sua vida…
Mas não era assim tão simples. O passado não se podia cortar à tesoura, e voltar a colar, como a fita de um filme antigo, nem sequer era como um dente do siso incluso, que se extirpa, sem dificuldade, com uma pequena cirurgia, e que depois de se suturar o vazio, o sítio acaba por ficar perfeito como se o dente nunca tivesse lá existido. Não: no palco da vida real, o passado não pode ser extirpado. Quando muito, pode ser remendado, suturado, a cada dia, com o presente, como jeito de tecer o futuro. Além disso, José Miguel tinha uma confusa percepção de que, no seu passado, poucas teriam sido as vezes em que tivera o papel principal. Se calhar, desde que nascera, em muitas situações tinha sido personagem secundária ou, até, mero figurante...
Se não se sentisse sempre tão carente, talvez não se tivesse apaixonado pela pessoa errada: uma jovem mulher um pouco mais velha do que ele, que lhe dera todo o amor que então precisava, mas que depois o abandonara.
Mas o passado era passado, o que estava feito, feito estava; poucas seriam, pois, as hipóteses de emendar o que, provavelmente, não teria emenda, de endireitar o que nascera torto. Assim, voltar atrás estava fora de questão. A vida tinha que seguir o seu rumo. E amanhã seria outro dia. Quem sabe, igual. Quem sabe, diferente.

terça-feira

José Miguel

José Miguel de Andrade Cardoso nascera no Porto numa tarde de Junho de 1984. Um parto difícil, por fórceps, que traumatizou a jovem mãe e a levou a pensar não lhe dar irmãos, não fora a ironia do destino a surpreendê-la novamente poucos meses volvidos.

Manuela de Andrade, que descendia de uma família de brasão, quase obrigara o seu namorado Jorge Cardoso a casar com ela às pressas.
Jorge provinha de uma família simples, e fora seduzido pela menina de família, de modos finos, que o deslumbrara com um mundo tão diferente do seu.
Depois, ela fizera-lhe sentir a sua vergonha ao saber-se grávida e ele cumprira o que lhe prometera, mais cedo do que contava. A juventude e a inexperiência fizeram pouco deles, por duas vezes.

Entre José Miguel e Ana Maria havia apenas a diferença de um ano e alguns dias, e a cumplicidade, talvez mais do que o sangue, a uni-los. Os sorrisos de um eram a alegria do outro, tal como as lágrimas de um eram a dor do outro. Desde cedo, mais entregues aos avós maternos do que aos pais que, achando a sua liberdade tolhida pelos nascimentos dos filhos, não se permitiram dedicar-se-lhes em grande parte, delegando muitos dos seus cuidados naqueles, com quem moravam, os dois irmãos refugiavam-se mais um no outro do que no colo dos avós ou dos progenitores. Frequentaram a escola juntos, até que o percurso académico divergiu. José Miguel estudou sempre no Porto e sentiu demasiado a falta de Ana Maria quando chegou a altura em que ela foi para Lisboa. Sentiu-se desamparado ao faltar-lhe a confidente sempre pronta a ouvi-lo, só a tendo nos poucos fins-de-semana que esta vinha passar com a família. Passou uns maus bocados, com os seus amores frustrados e com a falta da irmã, sem conseguir buscar o apoio no resto da família, mas sobreviveu.
Quando acabou a faculdade, a nova vida profissional de médico dentista levou-o para Coimbra. E é em Coimbra que volta a encontrar Luísa e que lhe sangra o coração outra vez.

domingo

Fogo

Naquela tarde, o sol fervia-lhe antipaticamente nas têmporas, ao adentrar-se inconsequente no automóvel, estrategicamente estacionado, e feria-lhe de luz intensa os olhos: nem os óculos escuros lhe escondiam os raios vibrantes. Ainda no dia anterior lhe chovera de improviso e, poucas horas volvidas, um sol sem tréguas o despia de nuvens e se apostava a vesti-lo de fogo. E pensou que precisava de uma cortina de sombra, uma corrente de ar, uns pingos de chuva que o viessem refrescar: ardia.
Dali podia percorrê-la com o olhar quando saísse ou entrasse em casa. E enfim vira-a: bebera-a toda com o olhar. Tinha pensado que era quanto lhe bastava, mas encontrava-se pegado àquele assento, à espera de nova visão. Ela saíra, havia de regressar.
Quanto da vida se suspende de um contacto, ainda que só visual, à distância, mesmo que só um dos lados o saiba, o sinta, o aprecie!

Parecia tomado de febre quando levantou a cabeça para o espelho retrovisor e viu reflectido o seu rosto brilhante de suor, marcado pelo cansaço e pela indecisão. Viu-se o jovem que era, mas sentiu-se velho, ao notar as rugas a marcarem-lhe a testa. Sabia que era preciso construir o futuro, mas então, porque se detinha ante um passado que o prendia numa espécie de limbo, do qual não ousava sair? Queria olhá-la de longe, nem que só uma vez mais, e uma pequena felicidade lhe sorriria. Mas essa felicidade ser-lhe-ia suficiente? Se não podia ser de outra forma, sim, tinha de ser suficiente. Vê-la secretamente, saber que estava bem, encher-lhe-ia os olhos e acalmar-lhe-ia a alma.
Ainda desse modo se agitava quando a avistou de volta: magra, mas belíssima como a conhecera. Escorriam-lhe de cobre os cabelos levemente volteados sobre os ombros, enquanto que os olhos de luar se ocultavam por detrás dos óculos escuros – mas adivinhava-os – e eram fascínio e dor: promessa e recusa. Ali, ao alcance de uns passos: todo o seu tormento, a sua agonia – a sua vida.

(M. Fa. R. )

terça-feira

A única escolha

Só tinha uma hipótese: ir. Já perdera muito tempo calando o que havia para dizer. Só agora começava a ter noção de que nunca se deveria ter calado.
São as palavras que se calam as que, por vezes, mais doem. Doem como fazem doer as fracturas expostas. E muitas vezes são nódoas negras que aparecem depois de uma pancada. As que ela calara eram tudo isso e muito mais: eram ferida aberta que, por mais curativos que quisesse inventar, não cicatrizava.
Naquela altura não pensou que seria assim. Achou que ficaria tudo bem, que ficaria tudo melhor se se calasse, e que o tempo seria seu aliado. Mas agora, depois dos traumatismos que sofrera em consequência do acidente, olhando para as nódoas negras do seu corpo, que ainda mal se queriam disfarçar, pensava nas outras que tinha por dentro e que lhe doíam na alma. Estivera do lado de lá da vida. E regressara. Agitava-se agora numa convulsão, ao pensar que aquelas palavras não ditas poderiam ter morrido com ela. Palavras em carne viva, que lhe eram sangue escorrendo dolorosamente da ferida recentemente acesa. Sim, tinham sido nódoa negra de sangue pisado. Agora eram chaga com sangue vivo que se lhe vertia para dentro em catadupa e lhe revolvia as entranhas até a sufocar num vómito aflitivo. Chorar, por vezes resolve; mas outras, nem por isso. E chorar não resolvia a sua dor. Tinha que falar. Tinha que o procurar e falar.
Depois de ter despertado de todo um emaranhado de alucinações, tomara consciência de que o tivera outra vez e que, outra vez, o perdera. Se ele tivesse voltado, talvez que não lhe tivesse sido difícil dizer-lhe tudo. Mas ele não voltara. Não voltava. A espera era inútil. E só ela e Deus sabiam o quanto lhe doía tudo. Tudo.
As palavras que se calam agigantam-se dentro do peito e chega uma altura em que têm de eclodir. Mesmo que façam doer ainda mais do que doem. Mas, se para sarar uma ferida tiver que doer ainda mais, que doa! Assim é que já não podia continuar. Falaria. Falaria tudo o que havia para falar. Tudo. Até à última lágrima. Até à última gota de sangue.
Engoliu a enchente de lágrimas misturadas com essa decisão e foi em frente. A vida tinha-lhe dado outra oportunidade que não podia desperdiçar. Só tinha uma hipótese: ir.

(M. Fa. R.)

quinta-feira

Pontos nos iii

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"A vida é tão diferente
Daquilo que sonhamos
Talvez o nosso mal seja acordar"


Há uma linha invisível, uma ténue fronteira entre o ontem e o hoje... e o amanhã(?); entre o dia e a noite; entre o cedo e o tarde; entre o conhecimento e a ignorância; entre o amor e o ódio... e entre o ódio e o amor(?); entre a saúde e a doença... e entre a doença e a saúde(?)...

"Estou a sentir
A minha voz perdida no deserto"


Espero. Há um nó que me aperta no estômago.

Queria dizer-te que nada me ata a nada, que sou dona de mim, que quem manda em mim sou eu... e até pensava que era um pouco assim. Mas não é.
Tudo o que tenho não é meu. Tudo o que sou não está nas minhas mãos. Tudo o que penso não me cabe no pensamento. Tudo o que sinto me escapa. Tudo o que sei desconheço. E o que olho não vejo. E o que me dizem não sei.
Longe - perto; longo - breve; grande - pequeno; aberto - fechado; visível - escondido...
Palavras: apenas palavras com muitas conotações, sentidos, direcções; e dores, afectos, emoções.

Espero. E chove-me enquanto espero. A chuva que me escorre é porta de vai-e-vem. Para lá dela, o nevoeiro: o despontar da noite ou do dia - o crepúsculo ou a aurora.

A vida nunca é como a sonhamos.
Mas parar de sonhar é parar de viver.

Preciso de um Xanax; ou de um café.

terça-feira

Pontos nos ii

O dia amanheceu cor-de-rosa. Percebi-o pela luz que me chegou filtrada através das cortinas da mesma cor. Esquecera-me de fechar as portadas na noite anterior e o dia espreitava-me, agora, mais cedo do que o costume. Pensei um breve gesto para me levantar mas nem sequer as pálpebras me obedeceram, teimando em voltar a fechar-se. E sonhei, por momentos, o mesmo sonho de sempre, outra vez: isto já não era sonho, mais parecia pesadelo! Sonhava que o meu quase primeiro movimento da manhã era em direcção aos teus braços, mas agora sentia-me sem forças para o fazer. Melhor assim. Agora não eras tu que te impunhas, era eu que comandava. Chamavas-me, mas havia algo, mais aliciante do que tu, que me prendia: tão bem aninhada nos lençóis fofos e quentinhos que nada me arrancaria de lá tão cedo.

A vida fervilhava lá fora há muito tempo quando, por fim, dei conta de que eram mais do que horas. Aquilo não era vida. Mandriava, o que me traria os mais diversos aborrecimentos. Não só começava o dia tarde, o que me faria andar atrasada todo o dia, como não iria ter muito tempo para estar contigo. Levantei-me e não resisti a procurar-te. Mas, desilusão, hoje não te tinha. Como era possível que a janela não abrisse? Já não sei o que é melhor: que me sejas veneno ou pedaço de fantasma que me tapa o sol. De uma maneira ou de outra, não passas sem me embotar o cérebro, e não era para isso que te queria.
Porque me manténs refém? Não havia necessidade! Eu gostava de ti, para que querias de mim ainda mais? Maldita ressaca quando me faltas!…

sexta-feira

Pontos nos i

O sonho foi igual ao de todas as noites. Sonhei que a janela, a mesma janela de sempre, estava fechada e que para lá dela é que era o mundo: lá fora é o mundo e eu fico sempre inquieta enquanto não abro a janela ao sol que por ela me chega. Revolvo-me e não durmo enquanto não acordar.
Quando os mesmos sonhos se sucedem noites a fio passam a ser parte da vida. Quando reclino a cabeça no travesseiro para dormir já sei o que acontece a seguir: a janela, o mundo lá fora à espera, impaciente para entrar no dia seguinte.
Assim entraste na minha vida: todos os dias um pouco, sempre um pouco mais, um sonho que se repete; e passaste a ser-me vida, janela para o mundo. Entraste-me pela porta e foste-me janela. Mirei os meus olhos aos teus e aos poucos gostei de ti até me tornar adicta. Sim, porque me és droga: remédio do qual dependo para me curar as mazelas e, ao mesmo tempo, veneno que me mantém submissa, me envenena lentamente, me mata todos os dias um pouco.
Conheci-te num tempo em que o tempo já não era o que era. Vieste por mãos queridas e eras delas, mas as minhas te tomaram para mim. A culpa não foi minha: foste tu que, sem pudor, me seduziste, te apropriaste da minha vida e fizeste com que me fosse apaixonando por ti. E és-me sol, luar, água para beber, lume para me queimar.

As pálpebras pesam nos olhos cansados, a cabeça fecha-se, as costas doem…
- Coça-me as costas.
Sinto as mãos percorrerem-me os ombros doridos e uma paz silenciar-me as veias e as artérias alteradas. Era assim que deveria ser sempre. Era assim que eu queria estar sempre: tranquila, sem nada desejar, sem mais nada querer.
- O que é que é o comer? Falta muito para o jantar? Já estou com fome.
E lá se vai o sossego! Chega-nos um cheiro estranho. Fumo. Vou até à cozinha, o jantar foi outra vez queimado: o caldo está entornado!

Isto não é normal. Não pode ser normal. Não consigo fazer tanto ao mesmo tempo, com a mente sempre com resmas de coisas para pensar. E tu fazes-te prioridade. Absorves-me. És-me o mundo que me traz alucinada. Que me tira a vida. E o teu papel não deveria ser esse. Não pode ser esse!

Toca o telefone:
- Estou! Sim… onde? Vou já de seguida!
Entro no carro e saio para a estrada. Ligo o rádio na estação preferida:

"It's got to be-ee-ee-ee-ee-ee-ee perfect
It's got to be-ee-ee-ee-ee-ee-ee worth it
yeah.
Too many people take second best
But I won't take anything less
It's got to be
yeah
pe-e-e-e-e-erfect!"

Perfeito! Sair da rotina é o melhor que me pode acontecer. E canto, grito, a par desta música que me faz esquecer, por uns momentos, a loucura em que se está a tornar a minha vida…