quinta-feira

Em Tempo de Andorinhas


Tinham chegado as andorinhas. E enquanto umas depressa começaram a recolar os ninhos antigos outras construíam os seus próprios, de raiz. Migalha a migalha. Gota a gota. Pedaço a pedaço. Logo pela manhãzinha a laborar e sempre de alegres gorjeados.
Dentro de pouco tempo as famílias aumentariam e formar-se-iam novas famílias. Novas asas. Novos voos. Novos ninhos. Os beirais estavam a ficar florescentes de vida. É certo que também deixavam um lastro de porcaria pelo chão além, mas nem só de belezas se compõe a vida…

O menino saltou-lhe. Isso fez Matilde voltar a atenção, do que se passava lá fora, para o que se passava dentro. Dentro de casa. E dentro de si. Dava para estabelecer alguma analogia. Há vidas tão cheias de beleza e que dão em porcaria; e há porcarias de vida que dão em coisas boas. Assim se passava consigo: um misto de feio e belo; de conspurcado e puro.
Se houvera horas em que se sentira uma desgraçada, deixava que esses sentimentos ficassem agora em plano secundário, queria colocar isso fora das suas preocupações. A sua preocupação, de momento, era uma só: o filho no seu ventre. Não queria que ele absorvesse as suas tristezas, as suas mágoas, os seus fantasmas, por isso essas coisas tinham de ser atiradas para longe.
Engravidara numa fase negra da sua vida, que mais negra ainda ficara quando o seu pseudo-namorado a fizera escolher: ou ele ou a gravidez. Ele não devia ter feito isso: perdera. Arrancara-lhe um bocado da vida, mas perdera. Quase ganhara, pois não tinha sido fácil, também, enfrentar as feras em casa. Se não tivesse tido ninguém a jogar consigo na sua equipa, ele teria acabado por ganhar, porque era o mais forte, o mais bem treinado, e a ela tinham-lhe fugido todas as forças.

Tinham passado quase três meses desde então – por alturas do Natal, quando a mãe andava aflita à espera do espírito do Natal, que não havia meios de se manifestar, mas em que ele viera subtilmente, sem se fazer abertamente notado, aonde era mais necessário. E o seu filho, com sentença de morte chantageada, tinha escapado à matança dos inocentes.
Ainda não arrecadara muitas vitórias, ainda fraquejava algumas vezes quando a vida lhe doía na alma. No entanto, aquele jogador de futebol, que lhe pontapeava lá dentro, era quem mais certeza lhe dava de que uma vida humana deve ser preservada acima de qualquer outro valor; acima de qualquer vergonha, carreira, futuro, família ou amor; e ainda mais quando é carne da nossa carne, sangue do nosso sangue.

21 comentários:

Luís Coelho disse...

Boa noite Fá Menor
Este texto está muito bom com pequenos laivos de vida real.

Há mães com um coração de mãe e que sozinhas conseguem suportar as ondas contrarias à sua situação de mulher.

Peço desculpa pelas poucas vezes que passo por aqui. Tenho andado um pouco adoentado e nem os pequenos textos me saem correctamente escritos.

Hei-de passar com mais regularidade.

Je Vois la Vie en Vert disse...

E esta luta pela vida que cresce dentro dela é uma luta que vale a pena travar. Não há nada igual ao amor de mãe !

Beijinhos
Verdinha

antonio - o implume disse...

Asas novas para todas as novas vidas...

Cadinho RoCo disse...

O momento da gravidez é sagradoi.
Cadinho RoCo

Nilson Barcelli disse...

A gravidez é a coisa mais bonita que há.
Por isso, deve ser protegida, acarinhada e ajudada.
Belo texto, gostei. Até da porcaria das andorinhas... coitadas, são táo pequeninas que o que fazem é insignificante...
Beijos.

Lilá(s) disse...

A gravidez é uma fase linda na vida de uma mulher.
Bom texto.
Bjs

ONG ALERTA disse...

Gravidez é tudo de bom...beijo Lisette.

Vanuza Pantaleão disse...

Amiga,
Tentando ver as coisas por um espectro mais amplo, diria que todos deveríamos ficar "grávidos" de amor, perdão e respeito pelos nossos semelhantes.
Um texto que pede muita reflexão...
Beijos no seu coração!!!

Isabel Maria Rosa Furtado Cabral Gomes da Costa disse...

Muito bonito. Um bébé é o que há de melhor no mundo.
Um beijo.

. intemporal . disse...

.

.

. a osmose como seara oscilante .

.

. entre.o.tudo.e.o.nada .

.

. deixo um beijo . de abril .

.

.

O Árabe disse...

Realmente, são os filhos o nosso maior impulso... desde antes de nascerem! :) Boa semana, amiga.

Natural.Origin disse...

Palavras que voam...

Sorriso:)

Val disse...

Oi, Fá.
Obrigada pela visitinha ao meu bloguito. E o Quadragésima continua sim. Troquei a blogueira convidada. Dá uma olhadinha agora.
Bjos,
Vou seguir o seu,

AFRICA EM POESIA disse...

AMIGA FÁ

100 000visitas

Tnho festa no meu blog
tenho selo para ti

Um beijo

Vanuza Pantaleão disse...

Amiga Fa,
Ainda me recupero da gripe, mas estou retornando como as andorinhas, como as aves voltam ao ninho e às casas dos que lhes querem bem.
Aqui, sinto-me em casa...
Obrigada pelo carinho!!!

ONG ALERTA disse...

Máe é um ser divino!!!
Beijo Lisette.

Petrus Monte Real disse...

Passei pela primeira vez, fiquei ouvindo e lendo... espreitei também a C(l)ave de Fá e gostei muito do primeiro texto com que me deparei. Um encanto!.
Muito grato

Daniel Aladiah disse...

Querida Fá
Sim, a vida apesar de tudo...
Um beijo
Daniel

Saulo e Simone disse...

Fa Menor

Somos novos nestas lides e, ao passearmos pela blogoesfera, deparámo-nos com o seu blogue. Achámos interessante encontrar alguém que escreva histórias de forma assídua. É o que tentamos fazer no nosso espaço, onde gostaríamos de a receber: www.enredos-enredos.blogospot.com. Voltaremos a visitá-la. :)

Saulo e Simone

Naty e Carlos disse...

Não importa o dia ou o mês do ano
que você se encontre,
importa sim, que no seu coração
a Páscoa sempre se faça presente,
e que você possa renovar sempre
o seu amor com aqueles que
necessitam
de uma palavra de conforto nas horas
difíceis,
que você torne-se um farol de luz
a iluminar as trevas
e caminhe com seu irmão ao encontro
de Jesus!
Bjs com carinho

Fernand's disse...

quando ela achava que não tinha mais força, uma fortaleza ergueu-se...



bjsmeus