quinta-feira

Gaivotas


A praia estende-se pelo enorme areal quase deserto a esta hora. O sol cai a pique sufocando-me os olhos de luz. Torra.

Acabei de almoçar e apeteceu-me vir espreitar o mar; quero aproveitar bem estes dias de inteira liberdade, sem os pais a controlar-me.
Eles, depois de eu muito os chatear, lá me deixaram vir passar esta semana na praia com as primas, na casa que elas alugaram. Mas eu prometi que teria juízo, e tenho. Só vou para a praia quando as primas também vão… bem, excepto agora. Elas não quiseram vir a esta hora, com tanto calor, e eu não pude esperar. O mar é tão perto que eu o avistava no intervalo das dunas, e o seu barulho fazia eco em mim.

Primeiro, sentei-me no muro a olhá-lo. Uma imensidão que toca no céu sem nuvens, onde as gaivotas se perdem. Depois, avancei até à orla da espuma, atraída pelo enrolar das ondas inquietas. Fui deixando os rastos dos pés na areia húmida, junto aos das gaivotas, até os mergulhar na água ansiosa. Que fria! Recuei. Caminhei ao longo da areia beijada pelo mar, a apanhar conchinhas, fugindo aos pulinhos de cada vez que o mar se aproximava.

Recolhi-me, por fim, junto às barracas da praia, procurando um pouco da sua sombra. Estendi a toalha à sombrinha e tirei o vestido; por baixo, o fato de banho novo que eu tanto queria. É azul-escuro, com umas risquinhas em azul mais claro no peito, que dão com a cor dos meus olhos, os quais protegi do sol nesta sombra onde me deitei a olhar o céu longamente. Apurei todos os sentidos. Um bando de gaivotas passa a voar – três e três: seis; sete; oito e mais outra: nove. E é o marulhar das ondas; o vento do mar nas narinas e nos ouvidos; as abas da barraquinha a dar a dar. Mais outro bando de gaivotas – doze – a voar. Para onde voam as gaivotas?

Agora voa uma em sentido contrário. Eu sou como essa gaivota. Perdida. Solitária. Se calhar, rejeitada pelo bando e que, por isso, voa para o outro lado. Também eu, muitas vezes, me afasto à procura de um lugar para mim, um lugar só meu, onde só eu entro. Eu e as gaivotas que me voam nos sonhos.

17 comentários:

Maria Luiza disse...

Menina, que riqueza de relato!!! Fui transportada até lá e tomando seu corpo consegui sentir todas as sensações descritas. Que delícia!!! Parabéns!! Bjbjbjbj!!!

antonio - o implume disse...

Para onde voa a tua escrita?

Evanir disse...

Eu sou como essa gaivota. Perdida. Solitária. Se calhar, rejeitada pelo bando e que, por isso, voa para o outro lado. Também eu, muitas vezes, me afasto à procura de um lugar para mim, um lugar só meu, onde só eu entro. Eu e as gaivotas que me voam nos sonhos.

Amiga o final do seu texto é com lágrimas que digo me senti dentro do seu texto e te digo mais estou aqui porque estou com saudades de ti..Um feliz final de semana beijos e beijos meus ,Evanir.

Vanuza Pantaleão disse...

Gaivotas somos nesses céus, voamos livres adentrando esse azul...
Que post mais lindo!
Beijos, querida!!!

Insana disse...

Estava com saudades de suas palavras, meus dias sem ter o que dizer me tirou ate gosto por ler. mais volto e aos poucos recupero o que perdir..

bjs
Insana

SOL da Esteva disse...

Fa

Onde é que já li isso?
Pois! Richard Bach, no Fernão Capelo Gaivota.
O diferente, o rejeitado do Bando...
É isso que sentes, não?
Acorda que é apenas parte dum pesadelo que muitas vezes nos assola ao longo da Vida.
Voar no mesmo sentido dos demais é como seguir o rebanho para o mesmo redil.
Vamos, Amiga. Há que acordar e partir para a Vida.


Beijo

SOL da Esteva
http://acordarsonhando.blogspot.com/

O Árabe disse...

Gosto desse seu jeito de escrever, fazendo da prosa poesia. :) Boa semana, amiga; fica bem!

helia disse...

Um texto muito interessante!
Também eu gostaria de , em certos momentos da minha vida , ser gaivota e poder voar para bem longe!

Nilson Barcelli disse...

Temos muito de gaivota, de facto.
Um belo texto, gostei.
Beijos.

Vanuza Pantaleão disse...

"Caminhei ao longo da areia..."
Quantos caminhos nos esperam?
Beijinhos azuis!!!

sonho disse...

Voei...nas tuas palavras...
Beijo d'anjo

Isabel Maria Rosa Furtado Cabral Gomes da Costa disse...

Demasiado bonito! É o cenário perfeito para um sonho: o marulhar do mar, a espuma das águas, as conchinhas, as gaivotas. Um lugar só para nós.

AnaMar (pseudónimo) disse...

Voa, voa em busca da liberdade que a tua escrita me dá.

Petrus Monte Real disse...

Pura poesia! Palavras impressionantes...com clareza, fluência... e muita liberdade de sentir e acção.

Uma boa semana
Beijo

Smareis disse...

Linda poesia,lendo me fez fazer uma bela viagem. Parabéns pelo texto. muito bonito. Voltarei mais vezes. Um Abraço!

Ailime disse...

Amiga Fá,
A sua esrita continua a encantar-me pela sua beleza e mensagens contidas.
Eu também sou como a tal gaivota que muitas vezes vai em sentido contrário, não perdida, mas porque o ruído me pertuba e gosto de observar o mar de uma outra forma.
Beijinhos e muito obrigada por me proporcionar momentos tão sublimes.
Ailime

Álvaro Lins disse...

As gaivotas são as minhas aves preferidas!:)
Gostei
Bjo