sexta-feira

Desfolhada


A madrugada e a manhã foram longas.
Aquece. Está quente. Cada vez mais quente. Tão quente de uma luz de fogo que doira.
Espigas de milho, loiras, reluzem na eira ao calor do sol.
À medida que estas haviam sido despidas das camisas, logo cestos as tinham aparado para, depois de cheios, serem levadas para a eira e estendidas ao sol a corarem como oiro.
Era uma montanha enorme, que custou a vencer.
Os milheiros tinham sido cortados da terra com foicinhos, um a um, dias antes. Também me calhou a mim, para aprender, mas os canoilos eram grossos e a minha habilidade não era nenhuma. Cortei-me num dedo. A mãe disse que saíam por lá as tripas grossas. E “vai-te embora, vai-te embora… que não sabes fazer nada.”
Não percebi isso das “tripas grossas”, assim como há muitas outras coisas que não percebo, e depois riem-se de mim por eu não perceber, mas também ninguém me explica nada, e uma pessoa não nasce ensinada. E não é verdade que eu não saiba fazer nada, chateia-me que me digam isso, é só que há trabalhos a que não estou habituada. Mas a mãe tem a mania de me comparar com as outras raparigas que têm à volta da minha idade, que começaram a trabalhar ainda crianças e que, por isso, trabalham como “gente grande”, como ela diz, e que eu não presto para nada. Eu não lhe levo a mal de ela me dizer que não presto para nada, porque penso que percebo o que ela quer dizer: que sou muito miúda e franzina e assim não tenho força nenhuma. É que ela nunca teve jeito para as palavras.
Enrolei um lenço no dedo, por causa do sangue que escorria, e fui para casa, mas isso já passou e hoje já deu para ajudar a descamisar o milho.
Foi o ti Joaquim Fernandes que trouxe todo o milho na palha, em várias carradas de carro de bois, para o troço da oliveira ao pé da adega da nossa antiga casa. É aí que está a eira. Ontem à noite juntou-se um grande grupo à volta da montanha de milheiros e deram-lhe um grande avanço, à luz da lua e do petromax. Hoje começámos cedo. A tia e a madrinha vieram ajudar-nos, à mãe e a mim, e acabámos com o que faltava. O pai tinha-me arranjado, de um pau de moita, um bico para descamisar as espigas, e eu desenrasquei-me muito bem.
Agora cheira a espigas de milho acabadas de desfolhar. Um cheirinho tão bom e doce, que o sol espalha por aí além.

22 comentários:

AC disse...

Lembro-me vagamente de uma ou outra desfolhada, e da tagarelice bem humorada que proporcionava. Para os pequenos era sempre motivo para mostrarem que já ajudavam, e o milho-rei animava sempre as hostes de uma forma peculiar...
Gostei de lhe sentir o aroma nas palavras.

Beijo :)

Maria Luiza disse...

Que beleza seu escrito. No final já não entendi, mas entendi que vc foi à uma colheita de milho e por ser franzininha, miudinha, não conseguia fazer algo e após ter o dedo cortado, você foi para casa. No dia seguinte vieram parentes para ajudar a ...não sei.... rsrsrs!Mas eu amo ler essas coisas, pois me força o cérebro!
Fá, que o seu final de semana seja muito bacana, mesmo!. Bjbj!

Evanir disse...

Nem somando todas as minhas dúvidas e incertezas
não deixarei de seguir sempre em frente.
Não é duvidas que trago no meu coração,
mais uma convicção de que vencerei todos os obstaculos
que hoje paresse não ter fim.
Nossas dúvidas são traidoras e nos fazem
perder o que temos de melhor em nós a fé
,,bem maior que temos em nossas vidas.
E isso não vou perder nunca.
Hoje só quero deixar muito amor e carinho
pois você mereçe tudo de bom
nessa vida.
Estarei aqui sempre que Deus me permitir
você tem contribuido para que
a cada dia me sinta mais forte.
Creio posso viver melhor
e muito mais feliz com seu carinho.
Deus abençoe seu final de semana beijos no coração,Evanir.
Muita paz no coração.
~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~
Se queremos progredir, não devemos repetir a história,
mas fazer uma história nova.(Mahatma Ghandhi)

antonio ganhão disse...

Doces memórias, de oiro..

Carla Fernanda disse...

Lindas....lembranças....ternas....
eternas....doce....muito doce...
Beijos doces!!
Carla

anad disse...

Vou para a Índiaaaaaaaaaaaaaaaaaa no dia 29 e só volto a 15 de Setembro.
Beijinhos
Anad

Lilá(s) disse...

Nunca tive a oportunidade de ver ou participar numa desfolhada! que maravilhosa a tua descrição!
Bjs

Evanir disse...

Calma tudo tem geito
nessa vida.
Não faz sentido perder o juiso
se hontem nada deu certo.
Se você tem fé ..Tem Amor
mais nada vai bem contigo.
Alguma coisa ainda te falta
consulte no fundo do seu coração
algo que sem perceber você deixou de lado.
Deus sabe quanto agradeço por ser sua amiga.
Um abençoado final de Domingo.
Bjs no coração,Evanir.
Eu Amo..Amar Você

O Árabe disse...

Gosto muito desses teus textos, amiga; para mim, têm realmente o cheiro e o sabor do campo. De uma vida simples e pura, que perdemos um pouco mais a cada dia! Boa semana, fica bem.

。♥ Smareis ♥。 disse...

Que lindo texto amiga. Sinto cheiro de terra molhada, perfumes das flores, e um lindo lindo caminhos trilhando nas montanhas. É assim que sinto quando leio seus textos.Deixo um beijo grande e desejo de um ótimo de semana. Abraço!
Smareis

Álvaro Lins disse...

E as espigas de milho não causam alergia:)?!
Bjo

ALUISIO CAVALCANTE JR disse...

Querida amiga

Quando as palavras
nos transportam
ao lugar de que nos falam,
elas se tornam preciosas...

Viver é sentir os sonhos
com o coração.

Carla Fernanda disse...

Passando para te deixar um bom dia!
Carla

Petrus Monte Real disse...

Amiga Fa,

Senti-me transportado até à infância.
Descrição perfeita duma vivência que parece actual!
A espiga vermelha era uma espécie de tesouro guardado para quem mais "descascava" -sic.

Mais uma bela página solta (mas
ligada a outras com que recentemente nos tens contemplado!)

Bom fim de semana

Tenho um desafio para ti
no 'a partir da lua'. Compreendo se não puderes aceitar.

Beijinho

Fa menor disse...

E que alergia, Álvaro Lins, que alergia... aquela palha de milho arranha que se farta!!!

___

Petrus,
pode ser que eu aceite, mas no 'Partilhas em Fa menor'... (sem compromisso).

___

Obrigada a todos pelas vossas palavras.

Isabel Maria Rosa Furtado Cabral Gomes da Costa disse...

E caminhando, vamos transpondo os obstáculos com que deparamos e contornando os escolhos do caminho.
Um beijo.

Multiolhares disse...

lembrei-me quando era pequenina pois a minha mãe tambem me dizia "olhaque daí saem as tripasgrossas pois as pequeninas não cabem lá" era mesmo estranho ...
beijinhos ternos

Ailime disse...

Amiga Fá,
Senti-me transportada para muitos anos atrás e fico a recordar os cheiros e a lembrar as pessoas que nesse tempo me envolviam com tanto carinho apesar de ser muito desajeitada :))
Explêndido texto.
Beijinhos,
Ailime

Olinda Melo disse...

Olá, Fa

Este texto leva-nos ao encontro de coisas vividas, de cheiros e sabores, especialmente, de maçarocas assadinhas na brasa com grãos ainda de leite...Acho que não é este o caso no que vem descrito, mas assaltou-me logo esta saudade.

Beijos

Olinda

O Árabe disse...

Aguardo o novo post; boa semana, entre as douradas espigas. :)

Nilson Barcelli disse...

Ah que saudades este texto me causou...
Para as desfolhadas, eu levava sempre no bolso uma espiga vermelha, para o caso de aparecer alguma moçoila bonita... mesmo daquelas que até cortavam os dedos e a quem as tripas ameaçavam sair pela ferida...
Beijos, querida amiga.

Fa menor disse...

Nilson, isso era batota...
:))
Bjos



_
Obrigada, a todos!
Bjos