terça-feira

A Pedinchice


Uma caixa de fósforos e meio litro de petróleo; um quilo de prego de meio solho e de ripa, misturados; um pacote de cloreto e um quarto de quilo de sabão azul; um pacote de massa de meada; meio quilo de açúcar amarelo. Com conta, peso e medida. Os rebuçados quase todos. Sem conta nem medida.
Foi assim uma tarde inteira atrás do balcão da loja. E uma enorme ralhadela furiosa do pai.
Aos poucos, o pai tem vindo a confiar-me a loja. Desde pequena fui aprendendo e ajudando e, agora, para além de aviar os fregueses, anoto as faltas de mercadoria e faço as encomendas aos vendedores quando o pai não está, confiro a mercadoria que os viajantes vêm entregar e arrumo-a nas prateleiras; e, ainda, tenho ao meu encargo o registo das facturas das compras no livro.
Esta tarde, o pai teve que sair e eu fiquei sozinha a tarde toda, como algumas outras vezes. Até me desenrasquei bem… só com os rebuçados é que correu mal.
- O frasco dos rebuçados está quase vazio porquê?
- Vendi-os…
- E onde é que está o dinheiro? – perguntou o pai, de gaveta aberta, depois de conferir as vendas que eu tinha anotado.
Fui apanhada. E tive que dizer toda a verdade, que era só uma: tinha-os dado à Nelita, à São e à Fernanda.
A voz do pai ecoou pela loja inteira e, decerto, pela rua além. Eu encolhi-me com medo de que a trovoada trouxesse chuva, mas a nuvem negra passou ao lado e escapei desta. Não escaparei de uma próxima, deixou o pai prometido. Mas não acontecerá mais, também deixei prometido eu.
Desta vez, estas minhas amigas conseguiram levar-me à certa quando me vieram chamar para jogar à macaca com elas. Como eu lhes disse que não podia sair, encostaram-se ao balcão a dizerem que então tinha que lhes dar rebuçados para as compensar; e voltaram mais vezes, com falinhas mansas, a pedir  sempre mais. Mas não voltarei a cair noutra, porque agora vejo como fui palerma ao deixar-me levar na pedinchice delas e no que elas me diziam.
Afinal, se elas gostassem de mim, como eu gosto delas e, ainda para mais, sendo duas delas mais velhas do que eu, não teriam ousado abusar da minha bondade e fraqueza, agindo daquela maneira, só pensando nelas e nada em mim.

16 comentários:

Vanuza Pantaleão disse...

Legal, amiga!
Só assim vamos aprendendo a separar o joio do trigo. Quem é amigo...é amigo!

Obs.: Não sei o que é "rebuçado".Coisas do Português de Portugal e Português do Brasil. Vou pesquisar.
Beijinhos, Fa!

tecas disse...

Querida Fa, ri ao ler o seu lindo texto...rs. Revi-me há muitos anos atrás. Aconteceu-me o mesmo,só que não tinha uma mercearia. Deram-me de prenda de anos uma nota de 20 escudos, e, as minhas amigas desafiaram-me a comprar rebuçados. Feita palerma fui. Ficaram com todos, não sobrou nenhum para mim.Quem parte e reparte e não fica com a melhor parte... assim fui eu. Aprendi a lição. Amigas, não se comportam assim.
Adorei.
Bjito em seu coração e uma flor.

Ailime disse...

Amiga Fá,
Gosto de a ler, porque como já tenho afirmado gosto do seu jeito.
Para lá das ilações que possamos tirar os seus textos são de tal forma belos e escritos de uma forma tão real e envolvente que não raras vezes me fazem transportar a tempos e locais do passado.
Muito bom recordar e viajar no tempo, apesar dos ralhetes, das amigas marotas…:))
Bem-haja.
Beijinhos,
Ailime

© Piedade Araújo Sol disse...

deve ter sido realidade.

que texto tão bonito.

parabéns1

beij

aguarela disse...

Fá!
Que delícia de texto!Até recuei alguns anos atrás
Tenho aqui ao pé de casa uma mercearia,e ao ler esta tua história,lembrei-me das minhas também!
Pois como dizes,se elas gostassem de ti,como tu delas não abusariam da tua bondade.Infelizmente é o que acontece sempre.Ainda hoje,e creio que para sempre.
A pessoa bondosa nunca desconfia da má intenção da outra pessoa.
Às vezes,por ser bondosa,de alma lisa,corre o risco de passar por bacoca.É assim!
Obrigada pelo excelente texto,que penso que foi verídico.
E é com um sorriso que te deixo este atamancado comentário.
Tem um excelente dia,amiga !Cheio de risos e sorrisos. ;-)

Filoxera disse...

Lições da vida...
Beijos.

Lilá(s) disse...

Um lindo texto e tão real! algo equivalente parece ter acontecido na nossa vida de crianças...
Bjs

Nilson Barcelli disse...

Mas poderia ter sido bem pior... se elas te pedissem bolachas, chocolates, etc., etc...
Este tipo de lojas, mercearias, dantes chamavam-se "vendas"e até vendiam comprimidos para as dores de cabeça...
Gostei de ler o teu magnífico texto.
Beijos, menorzinha...

antonio ganhão disse...

Na contabilidade da vida existem muitas gavetas que se presumiam cheias.

gota de vidro disse...

Só assim por vezes conhecemos os verdadeiros amigos.É por vezes dificil aceitar, mas é a realidade e vamos podendo caminhar e a conhecer o melhor rumo.

Bom texto

UM excelente domingo

Beijinho da gota

O Árabe disse...

... e lá se foram os rebuçados! :) Boa semana, amiga.

helia disse...

Um texto muito interessante , que me fez recuar aos meus tempos de infância , em que adorava ir à mercearia do meu pai buscar rebuçados e chocolates !Bons e saudosos tempos!

Olinda Melo disse...

Um texto lindíssimo, querida Fa, portador de uma grande lição.

bjo

Olinda

。♥ Smareis ♥。 disse...

Que belo, gostei muito. Me fez voltar a minha infância em alguns detalhes.Ótima semana, bjs no coração!
Smareis

mixtu disse...

jajaja
os miudos são levados...
pedinchoes...
e levam sempre a deles avante...
nada de fazer igual numa próxima... senão "lá vem molho"

abrazo serrano

retrato disse...

tão verdade!
é nestas alturas que temos de assumir/admitir que reconhecer um Amigo... é quando deixamos de dar.

bj...nho