quarta-feira

A Casa dos Ratos 4


Os ratinhos na sua gaiola
Vão brincando e vão sonhando
Que um dia, não sabem quando
Mas um dia, qualquer dia
Hão-de roer e roer
Ou esticar, ou encolher
Mesmo a muito doer
E passar
De dentro para o outro lado
Debaixo dos bigodes do gato
Que os vigia deitado
Dolente e anafado
À espera de os caçar.
Desengane-se o gatarrão
Que não. Bem pode esperar sentado.

Da prisão à liberdade
Há grades com frestas estreitas
Que os separam do mundo

Aqui têm o que comer
Túneis por onde correr
Camas fofas e quentinhas
E enfeites ao pescoço
E lá fora o perigo espreita
Mas isto de se ser rato
Tem muito que se lhe diga…

Não é com fitas e laços
Nem com uma qualquer espiga
Numa gaiola bonita
Que se prende um ratinho.
A ânsia de aventura
Da frescura da noite ao luar
De liberdade e tontura
A roer o seu belo manjar
Será sempre o que perdura
Para lá de qualquer fechadura
Que teime em o agarrar.


A todos: um feliz e santo Natal e um Novo Ano pleno da verdadeira Liberdade!

segunda-feira

O Gato Tonecas


Nome: Gato Tonecas

Sexo: Masculino

Idade: 3 anos

Aspecto físico: Grande e feio, de grandes malhas pretas e algumas brancas, com pêlos sensores brancos nas costas espetados por entre as malhas pretas; céu-da-boca preto; olhos amarelos; bigodes grandes e fartos. Faz lembrar o Gato Malhado da Andorinha Sinhá.

Qualidades: Caçador de sonhos; educado: não sobe à mesa nem aos armários, dá uma volta pela cozinha e pelo resto da casa se alguma porta interior estiver aberta e, se não vir ninguém, volta a sair; atento e observador.

Defeitos: Também caçador de pássaros; mandrião: estende-se ao sol no alpendre, ou enrosca-se na sua cama improvisada lá num canto; é curioso e guloso.

Medos: Tem medo da dona.

Passatempos: Gosta de saltar de telhado em telhado, deambular pelos quintais e, quando lá lhe parece, às vezes passados dias, é que regressa para casa trepando o muro alto do pátio.

Minha Laranja Amarga e Doce


Enterrou a unha do polegar na casca da laranja e puxou. Não resistiu a enfiar o pedacinho amarelo-alaranjado na boca e cortar com os dentes aquela parte branca, de dentro da casca, que gostava de saborear. Era leve e adocicada, em contraste com os salpicos amarelos, oleosos e acres, que saltaram da parte de fora e se lhe entranharam nos dedos, e lhe chegaram ao nariz num aroma esborratado de acidez e remédio. Lembrava-lhe aqueles xaropes que a mãe lhe dava em criança quando estava constipado e com tosse. 
Outra unhada na laranja e outra pequena casca prontinha a abocanhar. Num instante, a laranja ficou descascada e toda a parte branca da casca comida. Parecia que tinha passado por ali um bichinho guloso que devorara aquilo tudo, mas não… ou sim. Sim, um bichinho de mãos amarelas e gordurosas e com uma espécie de massa esbranquiçada debaixo das suas unhas: o rasto do que ali acontecera, não podia negar. Tinha-lhe apetecido lavar logo as mãos ao tirar a primeira casca, mas veio-lhe a recordação dos seus tempos inocentes da infância e contivera-se. Passando a língua nos dentes, notou que lhe soubera mesmo bem voltar a ser criança a fazer travessuras. 
A laranja era agora uma bola madurinha e doce a pingar sumo pegajoso para as mãos. Como lhe crescia água na boca! Separou-a em duas metades. Depois, abriu gomo a gomo, que dispôs à roda num pratinho. E ficou a sorrir sozinho: estava já a imaginar o filhito a começar a fazer as caretas azedas àquela iguaria, mas depois a pedir sempre mais, como de costume.

quinta-feira

A molha


Os pingos grossos de chuva levantaram o cheiro a terra molhada. 

A manhã acordara suavemente, com ténues raios de sol a espreitar por entre as nuvens que anunciavam a primeira chuva do Outono. Esperá-la tornou-se em ânsia crescente à medida que ela mais se fazia adivinhar.
E ela, então, espreitou ao longe. Observei-a a começar, para lá do arvoredo, a pintar tudo de branco até chegar aqui. 
Primeiro um pingo. Logo outro e outro… e o cheiro a terra molhada a elevar-se com a suavidade e doçura de um chupa-chupa, que apetece saborear devagarinho. 
Chamei-a, “vem chuva, vem!...”, e ela não se fez rogada. Veio lamber o alpendre de um lado ao outro, enquanto eu, com uma vassoura, a ajudava a poli-lo de um brilho molhado apetecível, removendo a sujidade à sua frente. De pés descalços na água morna, cabelo e roupa a escorrer, senti-me a brilhar mais do que o alpendre. Toda eu era riso por dentro e por fora, feliz por poder apalpar o Outono que me beijava. 

Agora, depois de ter ouvido das boas da mãe e de mudar de roupa, olho-o da janela, de cara encostada ao vidro embaciado. O Outono e a chuva podem ser sonhos quentes que molham o rosto e embalam a alma. A mãe, sempre tão azeda e fria, sabe lá alguma coisa disso!

sábado

Pontos nos iiiiiiii


Arrefeceu. De repente. Num dia estávamos sob calor escaldante, no outro dia já debaixo de uma tempestade glacial. Foi um pulo de gato. Um salto de pardal. 
De Verão para Outono, uma negaça do sol, uma pirraça da lua. Um gesto que me sonega a estrada ao fim da rua e o norte, a leste de ser tua. 
Lá longe, onde moram os poemas, o tempo veste a roupagem do mar; e vem mostrar-se numa luz de olor e arrepio, num misto de sono e despertar, de calor e de frio. Do longe se faz perto. Mas por mais que se tente prolongar o calendário, ele não estica como se desejaria. E cai o vermelho levemente esborratado em sombras; e o azul projecta-se em choro de metáforas no vento. 

Vem. Dança à chuva de melodias de partida; numa chegada breve, mais fugaz que de fugida; num sopro só de vinho e de alento. 
Vem. Não partas, ainda, triste. Saboreia o sal: a dádiva que banha os rostos quentes em sobressalto. Ainda que abstractamente, mente-me sem dor. Deixa-me com uma nesga de calor. Diz-me que há sol, e luar, e que, apesar das nuvens, há gente nobre e quente, que sabe aquecer um coração dormente. 
Porque arrefeceu. De repente.

quarta-feira

A Casa dos Ratos 3


As fitinhas coloridas iriam dar o nome aos ratinhos. Assim que Bia lhas pusesse ao pescoço os ratinhos já não seriam só ratinhos, mas sim: Verdinho, Amarelinho, Vermelhinho e Azulinho. E isso seria assim que mudassem para a gaiola nova que teriam.

Quem quer admirar os belos ratinhos,
Tão lindos e enfeitadinhos,
Com as suas fitinhas de cores?

Será então que o gato Tonecas,
Se vai perder por eles de amores?

No dia seguinte, quando a Bia acordou, a primeira coisa que fez foi retirar a tampa do cesto e servir aos bebezinhos miolo de pão embebido em leite – o seu biberão – (isto de criar ratos a biberão pode causar alguma confusão), é que os coitadinhos ainda eram de mama. Mas Bia, daqui a pouco, quando fosse comprar-lhes uma gaiola a uma loja de animais, iria trazer-lhes um pacote de comidinha adequada para ratinhos.

Na loja de animais, Bia deslumbrou-se com um mundo de bichinhos e coisinhas para eles. Foi difícil a escolha de uma gaiola, tanta era a oferta: de várias cores, de vários materiais (de vidro, madeira, plástico, metal), vários tamanhos e andares, vários acessórios… ena!
A gaiola que acabou por escolher, depois de se aconselhar com o simpático empregado, é de um material plástico multicolorido, de três andares com três escadinhas; tem duas casinhas, um comedouro e um bebedouro; tem também duas rodinhas de exercício e dois túneis. Será o sonho (ou o pesadelo) dos ratinhos. As escadinhas para trepar, as rodinhas e o túnel servirão para eles se divertirem. Os ratinhos gostam de explorar e o exercício só lhes fará bem.
Comprou algodãozinho de uma fibra adequada para as camas nas casinhas; palhinha de erva aromatizada para espalhar pelo chão e também serradura granulada absorvente para neutralizar os odores; e não podia faltar a comida: uma mistura de grãos de vários cereais, sementes e ração com vitaminas. Disseram-lhe que lhes pode dar também legumes, verduras e frutas; e que deve limpar a gaiola todas as semanas para evitar os maus odores e não atrair formigas, nem os bichinhos apanharem doenças.

Quem quer admirar os belos ratinhos,
Tão lindos e enfeitadinhos,
Numa gaiolinha a brilhar?

Ai! Será agora que o gato Tonecas,
Desistirá de os caçar?

Bia pegou num animalzinho com cuidado para lhe pôr a fitinha ao pescocinho. Esta não podia ficar muito apertada, mas também não muito larga para não cair. Sentiu algum receio de o magoar, mas verificou que o Vermelhinho ficava bem-disposto (e bonito!); e assim também o Verdinho, o Azulinho e o Amarelinho que Bia acomodou no seu novo ninho.

sábado

Carvão Incandescente


Um ferro de passar roupa na mão. Pesado. Parece que pesa mais do que eu. Quente. Tão quente que me afogueia o rosto. É um ferro em brasa: com brasas vivas lá dentro: um coração de brasas fulgentes a rechear um corpo oco. Um coração de fogo, mas que vai esmorecendo aos poucos e que é preciso avivar: soprar com força de um lado, até saíram fagulhas do outro.

Assento o ferro no descanso de ripas de latão; senão, se o pousar no lençol branco que forra a mesa de passar, corro o risco de ele fazer uma marca crestada triangular. É que a base é macia para poder deslizar na roupa, mas não é para lá se demorar. Tiro a mão da pega de madeira e observo-o: o corpo, escuro e todo rugoso, forma um bico na frente como a quilha de um barco e, por cima, tem uma chaminé na tampa (quase parece um pato com o seu bico aberto); na parte traseira, que é quadrada, tem uma pequena abertura, com uma peça redonda espetada do lado de cima, como se fosse uma porta, que se desliza um pouco para um lado ou para o outro, fechando ou abrindo, mais ou menos, para o ar circular e manter as brasas acesas. E, no cimo da tampa, que se prende ao corpo com uma pequena tranca parecida com uma manivela, está a pega em madeira, para agarrar o ferro sem queimar a mão. Pego-lhe outra vez e sinto-lhe o bafo quente. Por dentro arde esse coração em brasa, em cima de uma grelha de ferro um pouco levantada atrás, junto à abertura, para coar a cinza que se vai formando ao desmaiar do brasido.

A mesa de passar é improvisada numa ponta do balcão da loja, forrada com um cobertor e um lençol branco por cima. Tenho um cesto de verga cheio de roupa apanhada do estendal, para ser passada a ferro. E é atrás do balcão que inicio, com esforço, a tarefa de que a mãe me incumbiu. É a primeira vez que o faço sozinha, sem a mãe por perto. Das outras vezes, a mãe espetava-me o dedo, mais do que me ensinava: “isso não tem nada que saber, não tens visto como eu faço?”. É claro que a tenho observado, mas daí a aprender…
E, com pouca ou nenhuma habilidade, lá estico cada peça de roupa com a mão esquerda, enquanto a mão direita maneja o ferro por ela além, tilintando, à vez, ao pousar na roupa e no descanso. Mas isto de passar, vincar e dobrar a roupa tem a sua ciência. Quando chega a altura de passar umas calças, começo por olhar para elas sem saber como fazer. Dobro-as pelos vincos que já têm, estendo-as, levanto o ferro e tento…

O Henrique chega à loja, para vir aviar o que a mãe lhe mandou, e vê a minha dificuldade.
– Não sabes passar umas calças a ferro? Olha que não é assim que se faz!
Acho que não coro mais do que já estava. Ainda tento emendar, mas sem resultado.
– Deixa cá ver.
É ele que me ensina. Sim, é bem verdade, um rapaz é que me ensina a passar calças a ferro. A mãe dele ensinou-lhe aquilo que a minha não foi capaz de me ensinar. Ele mostra-me e explica-me como se faz: vincar uma perna da calça de cada vez, passar de um lado e depois do outro, dobrando com um certo jeito a outra perna em cima para não estorvar; depois repetir o mesmo na outra; assim não se corre o risco de fazer dois vincos porque não se passam as duas ao mesmo tempo.

É tão bom quando alguém nos acende uma luz, mesmo que seja com carvão incandescente.

A Casa dos Ratos 2.2


O gato Tonecas, caçador de pássaros e de sonhos, espreitou, espreitou, mexeu e remexeu no cesto, subiu-lhe para cima, aflito por desencantar de lá a ninhada, até que o tombou.
A dona, na cozinha, ouviu e acorreu em socorro dos indefesos.
— Malandro! Isso não se faz aos meninos, seu atrevido!
— Miau… miau!... – como quem diz “não sou culpado”, ficou ali a observar a dona a compor aquela cena tão estranha.
Frustradas as intenções do bichano, que não teve outro remédio que não o de conformar-se (conformar-se não, que ele era lá rapaz para se conformar!... eles não haviam de perder pela demora!), Bia aconchegou os ratinhos no seu ninho, vedando bem o cesto, ao mesmo tempo que repreendia o Tonecas, passando-lhe, depois, a mão pelo pêlo:
— Não se mexe aqui, ouviste? Uns bichinhos tão lindos e o menino com apetites? Ai, ai, ai!...
O Tonecas fingiu-se obediente e, amuado, ficou por ali como que a tomar conta deles. De vez em quando parecia lançar-lhes uns olhares de irmão mais velho, mas longe de se enamorar pelos ratinhos, estudava alguma forma de os meter para o bucho.

Enquanto isso, a dona foi procurar, na sua caixinha de costura, umas fitas fininhas de cores, que tinha comprado há uns tempos para uns trabalhos que não chegou a fazer. Vinham mesmo a calhar: verde, amarelo, vermelho e azul. Também havia uma fita branca e outra cor-de-rosa, mas rejeitou essas cores por lhe parecerem muito femininas… e não sabia ainda se entre os seus bebés havia meninas. Amanhã iria comprar uma gaiola apropriada para eles e enfeitá-los-ia, cada qual com o seu lacinho de seda colorida ao pescoço, para ficarem janotas. Ah, eles haviam de ficar medonhamente lindos com os seus lacinhos coloridos!
Esperava que, assim, o Tonecas os visse com outros olhos, que, afinal, eram coisa fina, intocável, e tirasse deles o sentido como petisco.

quinta-feira

A Casa dos Ratos 2.1


O gato Tonecas era um gatarrão feio, de bigodes grandes e fartos. Lembrava o Gato Malhado da Andorinha Sinhá. Saltava de telhado em telhado, deambulava pelos quintais e, quando lá lhe parecia, às vezes passados dias, regressava para casa trepando o muro alto do pátio.

Do alto do seu trono observava o seu reino antes de se dispor a descer. Algumas vezes percorria o muro até ao telhado da alpendorada, pela frente da cozinha e da adega, à caça dos pássaros que por lá poisavam. Quando descia, esgueirava-se pelo alpendre, rente à parede, para dentro da cozinha se a porta não estivesse bem fechada, ou sorrateiramente pela janela se entreaberta. Encontrava sempre maneira de entrar; em último caso dava a volta à casa e entrava pela gateira, rente ao chão, no portão da garagem; com alguma sorte a porta de dentro, que dava acesso à casa, haveria de estar só encostada!

Mas era educado: não subia à mesa nem aos armários. Dava uma volta pela cozinha e pelo resto da casa, se alguma porta interior estivesse aberta e, se não visse ninguém, voltava a sair e estendia-se ao sol no alpendre, ou enroscava-se na sua cama improvisada lá num canto.

Naquele dia não entrou em casa. Encontrou no alpendre algo que lhe despertou a atenção. Espreitou, por umas frestas, para dentro daquele cesto de papéis bem vedado por cima. Lá de dentro vinha um odor que lhe abriu o apetite… miau!...

sábado

Procurando Entender a Mãe


A vida para a mãe é tão simples: resume-se ao trabalho na terra: “É da terra que vem tudo”.

Ela diz que a sua vida foi sempre essa enquanto era rapariga: “andar acarvada no campo a mondar arroz… e comer umas batatitas azedas!...”
– “Ninguém passa o que eu passei!”
Trabalhar de sol a sol; sair de casa ainda de noite e, no regresso, dormir a andar pelo caminho e passar à porta de casa sem dar conta, até as colegas a despertarem: “Ó Maria, aonde é que tu vais? Olha que a tua casa já ficou lá para trás!...”
– “Ninguém passa o que eu passei…”
É verdade que ninguém passa o que os outros passam. Cada pessoa tem que viver a sua própria vida. Não há duas vidas iguais. Mas o que a mãe quer dizer é que teve uma vida dura, passou tormentos.
– “Quem é que hoje passava o que eu passei?!”
Ela diz que, naquele tempo, não havia dinheiro; e que a mãe dela a mandava ir vender figos para “arranjar algum dinheirito”. E lá ia ela, com uma cesta à cabeça, até à praia – “Ó minha senhora, quer figos?” – “e p’ra quê?... p’ra arranjar cinco escuditos… e vinha todo o caminho a contar a moeditas”.
– “Tu sabes lá o que é a vida!... hoje em dia nem sabem que vivem no mundo!”
Por isso, a mãe vive intensamente a sua vida ao ar livre da natureza; porque não sabe viver de outra maneira; e porque não quer viver de outra maneira.
Eu sei que a vida dela, em solteira, não foi sempre assim como diz. A tia disse-me que a mãe até foi uma privilegiada, porque foi aprender a costura, coisa a que as irmãs, as duas mais novas do que ela, não tiveram acesso; e, depois, ficava em casa a costurar enquanto elas iam para a lavoura.
Mas foi aquilo que ela conta o que mais a marcou. Penso que a mãe agora quer vingar-se disso. Hoje, se persiste nesse tipo de trabalho, o faz mais por uma necessidade de liberdade, e também por uma certa necessidade de independência económica. Ela não quer precisar do pai para as suas coisas. Gosta de ir ao mercado e vender fruta, hortaliças, criação, ovos… e poder, no fim, contar o dinheiro, mas agora já não para dar à sua mãe, mas para a sua carteira.

É isso a vida para ela. Então, tenta moldar-me à sua imagem e semelhança.

A casa dos Ratos 2


À falta de melhor, a casa para os ratitos foi um cesto para papéis. Era de plástico, alto, com quase meio metro de altura, rendado do meio para cima – as janelas. Uma cama improvisada com uma camisola velha a forrar o fundo.
O senhor João transferiu-os para lá, um a um, e eles pareceram ficar perdidos, abandonados, ali estendidos naquele colchão sem odor de mãe.
— Coitadinhos, pai, eu trato deles.
Bia aninhou-os bem encostadinhos, procurando que sentissem o quentinho uns dos outros. Foi buscar um pires para onde verteu um bocadito de leite. Ensopou nele uma bolinha de algodão e encostou-a aos focinhitos dos monstrinhos para eles sorverem.
— Pai, venha ver como eles mamam! – gritou ela esfusiante de contentamento.
E, assim observados, tomaram a primeira refeição na nova casa.
Depois, Bia foi buscar um pano de cozinha e tapou com ele a boca do cesto, amarrando-o bem à volta com um cordel, não fosse aparecer por lá o gato Tonecas e fazer deles o seu almoço.

quinta-feira

A Casa dos Ratos 1.1


Ficou quieto e mudo, pensando numa solução. Sabia que podia vir a ser uma estragação naquela casa se os deixasse ficar, mas não se atrevia a matá-los. E se os criasse como animais domésticos? Mas surgiram-lhe algumas dúvidas: seriam domesticáveis? E não seriam novos demais para os criar? E se os ratos forem portadores de doença logo que nascem? Será que haveria alguma vacina para eles? E que alimentação lhes havia de dar?…
Ainda olhou em redor à procura de algo para onde os deslocar, pois ali no trigo é que não os queria! Não vendo nada que jeito tivesse, acabou por levantar a aba da camisola, improvisando-a numa espécie de bolsa, onde os depositou, fechando-a depois, cuidadosamente, de encontro a si.
E rumou a casa. Chegado à cozinha entreabriu a aba da camisola para mostrar à mulher e à filha, ainda com caras de sono:
— Olhem o que eu encontrei! Quatro ratitos…
— Eh, estás doido ou quê?... chega isso para lá!...
— Tão lindinhos, pai, e tão pequenininhos, ainda são de mama.
— Arranjem-me uma caixa, ou algo para os deitar… um ninho fofinho…
— Não deves estar bom da cabeça, isso são animais cheios de doenças que se transmitem aos humanos – protestou a mulher contra aqueles hóspedes que não desejava ter em casa.
— Mas eu vou criar estes ratos como animais domésticos. Levo-os ao veterinário para ele me aconselhar… e vaciná-los.
— Eu acho melhor soltá-los lá fora…
— Isso é que não! Ainda podiam vir fazer muitos estragos.
— Então mata-os, ou dá-os ao gato.
— Estás louca?!
— Então está bem. Se quiseres apanhar uma doença, cria-os. Esta agora… criar ratos!... para quê? – resmungou a mulher virando-lhe as costas.
— Ó pai, acho que eles precisam de leitinho, vou embeber um algodão em leite para eles sugarem.
— Mas primeiro arranja-me lá uma coisa para os pôr…

sexta-feira

A Casa dos Ratos 1


Um dia, pela manhãzinha, o senhor João encontrou uma ninhada de ratinhos, dentro de um saco de trigo.

A adega estava escura e silenciosa quando o senhor João entrou. Em casa ainda todos dormiam. Como o sono o tinha abandonado, pensara então que era melhor levantar-se e ir fazer umas arrumações no celeiro, pela fresca. O celeiro ficava por cima da adega, ao lado da cozinha. Subiu, com cautela, as escadas escuras, de madeira velha a ranger sob os seus passos, sem acender a luz, até ao celeiro, onde o sol começava a querer espreitar por uma janelinha fosca de pó e de teias de aranha. “Isto tem que levar uma grande limpeza”, acenou com a cabeça, em gesto de assentimento aos seus próprios pensamentos.
— Olá!... – desconfiou ele assim que pôs os olhos numa das tampas do comprido cadeirado dos cereais – alguém deixou isto mal fechado... por certo já entrou rataria.
Mal começou a levantar a tampa... e lá estavam eles! Saltou um, depois outro, de dentro do saco de trigo de boca desatada. E, enroladinhos uns nos outros, aninhados no quentinho do ninho em cima do trigo, quatro filhotes pequenininhos que ainda não abriam olho. Puxou instintiva e rapidamente as abas ao saco do trigo, fechando-o com ambas as mãos... E agora?... Que iria fazer, agora, com estes hóspedes cinzentos, horrendos roedores vira-latas?

segunda-feira

O último abraço


De cada vez que relembrava o último abraço, antes de lhe ter fugido, Luísa revivia toda a emoção desse momento. Aliás, a emoção era cada vez maior à medida que o tempo passava e as saudades apertavam. Revia a fofura do corpo de José Miguel colado ao seu; sentia os braços que a envolviam sem nada suspeitarem; o pescoço quentinho onde mergulhara a cara e deixara marcas de baton dos beijos desajeitados, sofridos, mas disfarçados; as costas que afagara de encontro a si num último adeus.
Na altura, sabia que a separação iria doer, no entanto, pensava que o tempo acabaria por curar tudo. Mas não. O tempo trazia a saudade, essa mágoa violenta que a oprimia, sufocava, deprimia. Doía-lhe o peito muitas das noites. Uma opressão constante, mesmo durante o sono, que lhe causava pesadelos. Eram as mãos do José Miguel que vinham para lhe arrancar o coração enquanto ela dormia. E ela debatia-se entre deixar que ele lho tirasse e morrer de amor, ou morrer na mesma de amor sem lho entregar.
Quando acordava, a dor era não só aperto no peito, mas, umas vezes, latejava-lhe no pescoço e corria-lhe ao ouvido esquerdo, outras vezes estendia-se ao braço do mesmo lado, e outras irradiava-lhe para as costas. Era como se tivesse sido erigida uma muralha fortificada ao redor do coração, para o impedir de sair ou alguém de entrar. Então, acendia a luz e suspirava fundo repetidas vezes, para ver se a dor passava. Tentava não pensar nele, mas quanto mais força fazia para o afastar do pensamento, mais ele se lhe intrometia. E voltava o último abraço, com toda a carga emocional e ainda mais alguma. E desejava outro abraço, um próximo abraço que os reconciliasse. Virava-se de bruços como se se deitasse sobre ele, imaginava-se a abraçá-lo de novo. E adormecia nesse abraço. A sussurrar-lhe amor e a pedir-lhe perdão.

Ovelha Tresmalhada


A manhã, que, como de costume, começara a ferver ainda mal o sol acordara, quase parou quando ele entrou e se dirigiu a uma mesa vaga, bem a meio da pastelaria.

Rogério não tinha pressa. Habitualmente pedia uma bica e uma nata, ao balcão, que engolia apressado, mas hoje não era dia de aulas.

Enquanto esperava que o viessem atender, pensou que devia ter mais dias assim: tranquilos, depois de noites completas, dormidas como se deve, sem a azáfama dos trabalhos para entregar, que lhe roubavam todas as horas de descanso. Engenharia Informática estava a ser mais difícil do que pensara, mas havia de dar conta daquilo.

Os pais tinham ficado emigrados em França, onde nascera e crescera, e ele procurava-se por cá, sozinho, num país que queria que viesse a ser o seu, depois de ouvir tantas histórias que os pais sempre lhe contaram. Se eles, quando eram da sua idade, não tivessem fugido da aldeia, do país, se não se tivessem aventurado a um mundo largo e desconhecido, talvez ele hoje não passasse de um guardador de rebanhos, igual ao que o pai estava destinado a ser… ou talvez nem tivesse nascido…

Mas lá na freguesia ainda haviam de ouvir falar do filho do Chico da Silva e da Alzira Pereira.

terça-feira

Os Pés pelas Mãos


Agulhas e linhas; pano branco e bastidor; riscos cheios a cordão…
A cheio vai passar a ser, assim, o meu mundo.
Comecei a aprender a bordar a máquina. Agora vivo para isso. As terças e as quintas são para ir aprender, os restantes dias da semana são para praticar.
O primeiro dia foi muito monótono: um bastidor todo a ponto de cordão até aprender a dar o balanço… que ainda não dou bem. Enquanto não se dá o balanço certo, é um meter os pés pelas mãos, linhas rebentadas, agulhas partidas…
Isto de colorir desenhos com linha, à máquina de costura, tem que se lhe diga. Temos de tirar o calcador à máquina e cobrir-lhe os dentes com uma pequena peça, para que o pano corra livre, esticado no bastidor. São as mãos que lhe dão o jeito para que a agulha leve a linha ao bordado, mas são os pés que tocam o pedal, para fazer a agulha com a linha andar para baixo e para cima, a bordar. Ora isto, no princípio, não se coordena muito bem. As mãos e os pés não se entendem, ou melhor, os pés querem ir atrás das mãos, mas não devem. Os pés não podem ir atrás das mãos, senão a agulha anda ao contrário e a linha parte-se. Os pés têm de ganhar ritmo, embalo para a frente, sabendo quando avançar, abrandar e parar, enquanto as mãos voam livres. Os pés tocam a máquina; as mãos pintam poesia.
É aí que está o meter os pés pelas mãos, enquanto cada qual não souber fazer, coordenadamente, a sua parte. Partem-se linhas e agulhas; borda-se ao lado do risco; sai o desenho todo deformado. Mas eu vou aprendendo.
Aos poucos, hei-de aprender a bordar na perfeição.

quinta-feira

Frio


De súbito sentiu frio.
Um gelo fino começou a apoderar-se-lhe das mãos. Um nevoeiro branco, denso, semelhante a escuridão, a inundar-lhe os pensamentos. E um tornado na alma, uma ânsia no coração, um degredo, um medo, uma solidão… e uma coragem vadia, que ora o tocava, ora lhe fugia.

Uma procelosa história de amor tinha-lhe batido uma vez à porta e ele deixara-a entrar, sem reservas. Mas ela tão depressa como entrara assim saíra, não sem antes fazer a porta em pedaços, como se fora um disparo de canhão. E agora o frio entrava. Entrava tudo, porque não havia porta para o proteger.
Mas não se lamentava de ter amado, de amar ainda, mesmo que um amor sofrido. O que o constrangia era não conseguir sair para fora de si, atravessar os destroços mal arrumados e sempre revolvidos, ao encontro da verdade que tinha medo de desvendar.
E assim se enredava numa malfadada dor, que o não abandonaria enquanto permanecesse cobardemente sentado, à espera nem sabia de quê. Que ela viesse até si? Isso seria brilhar o sol no céu da sua noite. Um milagre improvável. Mas ele podia ir até ela, já descobrira onde morava… e, sem que ela o suspeitasse, já a tocava ao longe com o olhar, já a suspirava em cada beijo imaginado, já a sintonizava dia após dia em cada poro da sua pele. Sim, podia ir até ela. Não se sentia era nesse direito. Mentia: o que tinha era medo. Medo. Medo… Medo!
E sentiu mais frio…