sábado

Procurando Entender a Mãe


A vida para a mãe é tão simples: resume-se ao trabalho na terra: “É da terra que vem tudo”.

Ela diz que a sua vida foi sempre essa enquanto era rapariga: “andar acarvada no campo a mondar arroz… e comer umas batatitas azedas!...”
– “Ninguém passa o que eu passei!”
Trabalhar de sol a sol; sair de casa ainda de noite e, no regresso, dormir a andar pelo caminho e passar à porta de casa sem dar conta, até as colegas a despertarem: “Ó Maria, aonde é que tu vais? Olha que a tua casa já ficou lá para trás!...”
– “Ninguém passa o que eu passei…”
É verdade que ninguém passa o que os outros passam. Cada pessoa tem que viver a sua própria vida. Não há duas vidas iguais. Mas o que a mãe quer dizer é que teve uma vida dura, passou tormentos.
– “Quem é que hoje passava o que eu passei?!”
Ela diz que, naquele tempo, não havia dinheiro; e que a mãe dela a mandava ir vender figos para “arranjar algum dinheirito”. E lá ia ela, com uma cesta à cabeça, até à praia – “Ó minha senhora, quer figos?” – “e p’ra quê?... p’ra arranjar cinco escuditos… e vinha todo o caminho a contar a moeditas”.
– “Tu sabes lá o que é a vida!... hoje em dia nem sabem que vivem no mundo!”
Por isso, a mãe vive intensamente a sua vida ao ar livre da natureza; porque não sabe viver de outra maneira; e porque não quer viver de outra maneira.
Eu sei que a vida dela, em solteira, não foi sempre assim como diz. A tia disse-me que a mãe até foi uma privilegiada, porque foi aprender a costura, coisa a que as irmãs, as duas mais novas do que ela, não tiveram acesso; e, depois, ficava em casa a costurar enquanto elas iam para a lavoura.
Mas foi aquilo que ela conta o que mais a marcou. Penso que a mãe agora quer vingar-se disso. Hoje, se persiste nesse tipo de trabalho, o faz mais por uma necessidade de liberdade, e também por uma certa necessidade de independência económica. Ela não quer precisar do pai para as suas coisas. Gosta de ir ao mercado e vender fruta, hortaliças, criação, ovos… e poder, no fim, contar o dinheiro, mas agora já não para dar à sua mãe, mas para a sua carteira.

É isso a vida para ela. Então, tenta moldar-me à sua imagem e semelhança.

18 comentários:

mfc disse...

A nossa vida é e será sempre a nossa vida!
Aquela que por um lado custa mais...e que por outro também nos faz sorrir(de quando em vez!).

Ailime disse...

Amiga Fá,
Como gosto de a ler e recordar tanto do que se passava na aldeia onde nasci.
Emociono-me sempre.
A sua escrita é de tal forma precisa que é como se estivesse a ver e a sentir o que me ficou de melhor daqueles tempos.
O convívio com natureza e a família (os meus avós) de quem tenho tantas saudades.
Lindo.
Bem-haja.
Um beijinho e excelente fim-de-semana-
Ailime

Isa Lisboa disse...

São memórias que também já ouvi contar.Trazem sempre um quê de dor, um quê de nostalgia...

. intemporal . disse...

.

.

. da terra onde nascemos . da terra onde morreremos . de que terra seremos .

.

.

. aceitarmos o que nos é dado a viver . será talvez o ponto de partida . o qual deixará marcas . alguma irreversíveis . mas o per.curso . esse . o per.curso é nosso .

.

.

. esteja ou não destinado .

.

.

. um beijo meu .

.

.

O Árabe disse...

Sabe? Passei boa parte da minha vida no interior, e confesso: tenho a mais profunda admiração pela boa gente do campo! Belo texto, amiga; boa semana.

Evanir disse...

Uma amiga muito especial
hoje marca a postagem do meu blog.
Um ser divino que em pouco tempo conquistou corações nesse mundo virtual.
O meu foi quase um dos primeiros a ficar apaixonado pelo carisma ,
e grandeza de seu coração.
Convido você a deixar seu carinho e fazer parte dessa preciosa amizade.
Espero em Deus ter saúde o suficiente para conhece-la pessoalmete
em 2012.
Vou ficar agradecida com sua doce presença.
Uma linda e abençoada semana.
Beijos ternos e carinhosos.
Evanir.
Hoje muita coisa mudou nesse mundo ,mais realmente é muito sofrimento sua postagem é uma verdade de vidas muito parecida uma com a outra ,
mais é como vc disse não existe vidas iguais.

Carla Fernanda disse...

Respeitar e incentivar o sonho dos filhos, abrir possibilidades é o que todas as mãse deveriam fazer...mas... nem todas têm essa sabedoria...

Beijos e bom dia!!

Lilá(s) disse...

Dantes a vida era sem duvida difícil mas, não quer dizer que as pessoas não tivessem os seus momentos felizes.
Bjs

poetaeusou . . . disse...

*
adorei,
,
entender a Mãe,
é . . .
entender a vida !
,
entendidas conchinhas,
deixo-te
*

ONG ALERTA disse...

Ninguém deve moldar a vida de ninguém cada um faz a sua história, beijo Lisette.

© Piedade Araújo Sol disse...

outros tempos
outras vidas

beij

Cadinho RoCo disse...

A vida é uma sucessão de acontecimentos individuais, intransferíveis e imprescindíveis.
Cadinho RoCo

Nilson Barcelli disse...

Os tempos eram mesmo difíceis para quase toda a gente.
Mas esses tempos parece que os querem impor de novo...
Beijo, querida amiga.

Smareis disse...

Adorei a postagem,

O campos me fascina, e sei como é dificil essa vida pra muita gente.Mas com tudo isso ainda tem suas maravilhas.

Beijos!

BlueShell disse...

Saberemos, nós, realmente, o que é a vida?

....


"Viver é a coisa mais rara do mundo - a maioria das pessoas apenas existe."Autor - Wilde , Oscar

Vanuza Pantaleão disse...

Tempo para parar e pensar!
Que bom te reencontrar, Fa!
Beijinhos...

Jota Effe Esse disse...

Lindo texto, Fá Menor, trazendo-nos a nostalgia da infância. Meu beijo.

Sonhadora disse...

Minha querida

E como eram dificíes esses tempos de miséria...anda tanta gente esquecida deles.

Um beijinho com carinho
Sonhadora