sábado

Carvão Incandescente


Um ferro de passar roupa na mão. Pesado. Parece que pesa mais do que eu. Quente. Tão quente que me afogueia o rosto. É um ferro em brasa: com brasas vivas lá dentro: um coração de brasas fulgentes a rechear um corpo oco. Um coração de fogo, mas que vai esmorecendo aos poucos e que é preciso avivar: soprar com força de um lado, até saíram fagulhas do outro.

Assento o ferro no descanso de ripas de latão; senão, se o pousar no lençol branco que forra a mesa de passar, corro o risco de ele fazer uma marca crestada triangular. É que a base é macia para poder deslizar na roupa, mas não é para lá se demorar. Tiro a mão da pega de madeira e observo-o: o corpo, escuro e todo rugoso, forma um bico na frente como a quilha de um barco e, por cima, tem uma chaminé na tampa (quase parece um pato com o seu bico aberto); na parte traseira, que é quadrada, tem uma pequena abertura, com uma peça redonda espetada do lado de cima, como se fosse uma porta, que se desliza um pouco para um lado ou para o outro, fechando ou abrindo, mais ou menos, para o ar circular e manter as brasas acesas. E, no cimo da tampa, que se prende ao corpo com uma pequena tranca parecida com uma manivela, está a pega em madeira, para agarrar o ferro sem queimar a mão. Pego-lhe outra vez e sinto-lhe o bafo quente. Por dentro arde esse coração em brasa, em cima de uma grelha de ferro um pouco levantada atrás, junto à abertura, para coar a cinza que se vai formando ao desmaiar do brasido.

A mesa de passar é improvisada numa ponta do balcão da loja, forrada com um cobertor e um lençol branco por cima. Tenho um cesto de verga cheio de roupa apanhada do estendal, para ser passada a ferro. E é atrás do balcão que inicio, com esforço, a tarefa de que a mãe me incumbiu. É a primeira vez que o faço sozinha, sem a mãe por perto. Das outras vezes, a mãe espetava-me o dedo, mais do que me ensinava: “isso não tem nada que saber, não tens visto como eu faço?”. É claro que a tenho observado, mas daí a aprender…
E, com pouca ou nenhuma habilidade, lá estico cada peça de roupa com a mão esquerda, enquanto a mão direita maneja o ferro por ela além, tilintando, à vez, ao pousar na roupa e no descanso. Mas isto de passar, vincar e dobrar a roupa tem a sua ciência. Quando chega a altura de passar umas calças, começo por olhar para elas sem saber como fazer. Dobro-as pelos vincos que já têm, estendo-as, levanto o ferro e tento…

O Henrique chega à loja, para vir aviar o que a mãe lhe mandou, e vê a minha dificuldade.
– Não sabes passar umas calças a ferro? Olha que não é assim que se faz!
Acho que não coro mais do que já estava. Ainda tento emendar, mas sem resultado.
– Deixa cá ver.
É ele que me ensina. Sim, é bem verdade, um rapaz é que me ensina a passar calças a ferro. A mãe dele ensinou-lhe aquilo que a minha não foi capaz de me ensinar. Ele mostra-me e explica-me como se faz: vincar uma perna da calça de cada vez, passar de um lado e depois do outro, dobrando com um certo jeito a outra perna em cima para não estorvar; depois repetir o mesmo na outra; assim não se corre o risco de fazer dois vincos porque não se passam as duas ao mesmo tempo.

É tão bom quando alguém nos acende uma luz, mesmo que seja com carvão incandescente.

13 comentários:

Ailime disse...

Olá amiga Fá,
Quando leio os seus textos emociono-me sempre.
A sua escrita como já tenho dito é de uma limpidez e veracidade enormes que me penetra a alma e me faz recuar no tempo.
E algumas recordações de má memória me envolvem e é como sentisse ainda o peso de expressões como as que citou e que ainda hoje me inibem de efetuar algumas tarefas como desejaria. O que se sofria naqueles tempos!
(E nem sempre aparecia assim um rapaz simpático proto a ensinar)!
Beijinhos e muito obrigada por trazer estes temas tão interessantes.

Petrus Monte Real disse...

Fa,

Que bela escrita, com tanta poesia.
A narração transportou-me até à infância!
Lembro-me do ferro que a minha avó e tias usavam. O ritual de esvaziar as cinzas e, de novo, encher o ferro de brasas, é inesquecível; guardo na memória o "milagre" que o instrumento operava nos lençóis, tornando-os tão lisos e macios!
Gostei muito.
Bom fim de semana
Abraço

Carla Fernanda disse...

Olá Foa um texto muito bem feito. Com clarez, fluência e ritmo. E uma luz é uma luz querida. Que esteja sempre acesa...
Trago para vc um sorrido e um abraço dobrado
:D :D
\0/ \0/

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Passa lá para o almoço do dia dos pais...kkk
Beijos!!

Isa Lisboa disse...

Fa, que saudades que tinha destes rabiscos!
Pois é, passar calças a ferro tem a sua ciência...!
E por vezes, a ciência é difícil mesmo! E nessas alturas é bom que nos acendam uma luz, que haja pessoas com coração assim, fulgente como o do ferro de passar, mas que não precisa de ser avivado!
Beijos

ALUISIO CAVALCANTE JR disse...

Querida amiga

Quando as palavras
encontram sentimentos
que fazem com que elas
encontrem seus sentidos,
nossa vida se enfeita
com as cores da esperança.

Obrigado por sua amizade.

Aluísio Cavalcante Jr.

O Árabe disse...

Lá se foi o Tonecas... mas está ótimo o texto, amiga! :) Boa semana.

Vanuza Pantaleão disse...

É verdade, Fa!
Toda ajuda, por menor que seja, sempre é bem vinda.
Seu post acende boas luzes!
Beijos!

Sonhadora (RosaMaria) disse...

Minha querida

Voltei no tempo de quando passava a ferro com esses ferros de brasas, e como era difícil (também não sabia)e fiz muitos vincos a mais nas calças dos meus irmãos.
Um texto muito belo como sempre.

Um beijinho com carinho
Sonhadora

Ana Tapadas disse...

Também cheguei a passar com u ferro destes na aldeia onde vivia a minha avó...
Fa, como eu tenho ali roupa que trouxe...ai, nem a beleza do teu relato...

Beijinho

Dulce Morais disse...

Bonito, sentido, soberbo!

. intemporal . disse...

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. entre.ferros.que.des.ferro . onde o verão se atarda ainda que seja cedo . para nós . sempre cedo .

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. deixo um beijo e um convite .

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. há uma festa que espera por Si no . intemporal .

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ONG ALERTA disse...

Emocionante, beijo Lisette.

Nilson Barcelli disse...

Acho que passar a ferro, para além de não ser fácil, é um trabalho bastante penoso.
A luz, por vezes vem de onde não se espera...
Fá, querida amiga, tem uma boa semana.
Beijo.