sábado

A casa dos Ratos 2


À falta de melhor, a casa para os ratitos foi um cesto para papéis. Era de plástico, alto, com quase meio metro de altura, rendado do meio para cima – as janelas. Uma cama improvisada com uma camisola velha a forrar o fundo.
O senhor João transferiu-os para lá, um a um, e eles pareceram ficar perdidos, abandonados, ali estendidos naquele colchão sem odor de mãe.
— Coitadinhos, pai, eu trato deles.
Bia aninhou-os bem encostadinhos, procurando que sentissem o quentinho uns dos outros. Foi buscar um pires para onde verteu um bocadito de leite. Ensopou nele uma bolinha de algodão e encostou-a aos focinhitos dos monstrinhos para eles sorverem.
— Pai, venha ver como eles mamam! – gritou ela esfusiante de contentamento.
E, assim observados, tomaram a primeira refeição na nova casa.
Depois, Bia foi buscar um pano de cozinha e tapou com ele a boca do cesto, amarrando-o bem à volta com um cordel, não fosse aparecer por lá o gato Tonecas e fazer deles o seu almoço.

quinta-feira

A Casa dos Ratos 1.1


Ficou quieto e mudo, pensando numa solução. Sabia que podia vir a ser uma estragação naquela casa se os deixasse ficar, mas não se atrevia a matá-los. E se os criasse como animais domésticos? Mas surgiram-lhe algumas dúvidas: seriam domesticáveis? E não seriam novos demais para os criar? E se os ratos forem portadores de doença logo que nascem? Será que haveria alguma vacina para eles? E que alimentação lhes havia de dar?…
Ainda olhou em redor à procura de algo para onde os deslocar, pois ali no trigo é que não os queria! Não vendo nada que jeito tivesse, acabou por levantar a aba da camisola, improvisando-a numa espécie de bolsa, onde os depositou, fechando-a depois, cuidadosamente, de encontro a si.
E rumou a casa. Chegado à cozinha entreabriu a aba da camisola para mostrar à mulher e à filha, ainda com caras de sono:
— Olhem o que eu encontrei! Quatro ratitos…
— Eh, estás doido ou quê?... chega isso para lá!...
— Tão lindinhos, pai, e tão pequenininhos, ainda são de mama.
— Arranjem-me uma caixa, ou algo para os deitar… um ninho fofinho…
— Não deves estar bom da cabeça, isso são animais cheios de doenças que se transmitem aos humanos – protestou a mulher contra aqueles hóspedes que não desejava ter em casa.
— Mas eu vou criar estes ratos como animais domésticos. Levo-os ao veterinário para ele me aconselhar… e vaciná-los.
— Eu acho melhor soltá-los lá fora…
— Isso é que não! Ainda podiam vir fazer muitos estragos.
— Então mata-os, ou dá-os ao gato.
— Estás louca?!
— Então está bem. Se quiseres apanhar uma doença, cria-os. Esta agora… criar ratos!... para quê? – resmungou a mulher virando-lhe as costas.
— Ó pai, acho que eles precisam de leitinho, vou embeber um algodão em leite para eles sugarem.
— Mas primeiro arranja-me lá uma coisa para os pôr…