sábado

Pontos nos iiiiiiii


Arrefeceu. De repente. Num dia estávamos sob calor escaldante, no outro dia já debaixo de uma tempestade glacial. Foi um pulo de gato. Um salto de pardal. 
De Verão para Outono, uma negaça do sol, uma pirraça da lua. Um gesto que me sonega a estrada ao fim da rua e o norte, a leste de ser tua. 
Lá longe, onde moram os poemas, o tempo veste a roupagem do mar; e vem mostrar-se numa luz de olor e arrepio, num misto de sono e despertar, de calor e de frio. Do longe se faz perto. Mas por mais que se tente prolongar o calendário, ele não estica como se desejaria. E cai o vermelho levemente esborratado em sombras; e o azul projecta-se em choro de metáforas no vento. 

Vem. Dança à chuva de melodias de partida; numa chegada breve, mais fugaz que de fugida; num sopro só de vinho e de alento. 
Vem. Não partas, ainda, triste. Saboreia o sal: a dádiva que banha os rostos quentes em sobressalto. Ainda que abstractamente, mente-me sem dor. Deixa-me com uma nesga de calor. Diz-me que há sol, e luar, e que, apesar das nuvens, há gente nobre e quente, que sabe aquecer um coração dormente. 
Porque arrefeceu. De repente.

quarta-feira

A Casa dos Ratos 3


As fitinhas coloridas iriam dar o nome aos ratinhos. Assim que Bia lhas pusesse ao pescoço os ratinhos já não seriam só ratinhos, mas sim: Verdinho, Amarelinho, Vermelhinho e Azulinho. E isso seria assim que mudassem para a gaiola nova que teriam.

Quem quer admirar os belos ratinhos,
Tão lindos e enfeitadinhos,
Com as suas fitinhas de cores?

Será então que o gato Tonecas,
Se vai perder por eles de amores?

No dia seguinte, quando a Bia acordou, a primeira coisa que fez foi retirar a tampa do cesto e servir aos bebezinhos miolo de pão embebido em leite – o seu biberão – (isto de criar ratos a biberão pode causar alguma confusão), é que os coitadinhos ainda eram de mama. Mas Bia, daqui a pouco, quando fosse comprar-lhes uma gaiola a uma loja de animais, iria trazer-lhes um pacote de comidinha adequada para ratinhos.

Na loja de animais, Bia deslumbrou-se com um mundo de bichinhos e coisinhas para eles. Foi difícil a escolha de uma gaiola, tanta era a oferta: de várias cores, de vários materiais (de vidro, madeira, plástico, metal), vários tamanhos e andares, vários acessórios… ena!
A gaiola que acabou por escolher, depois de se aconselhar com o simpático empregado, é de um material plástico multicolorido, de três andares com três escadinhas; tem duas casinhas, um comedouro e um bebedouro; tem também duas rodinhas de exercício e dois túneis. Será o sonho (ou o pesadelo) dos ratinhos. As escadinhas para trepar, as rodinhas e o túnel servirão para eles se divertirem. Os ratinhos gostam de explorar e o exercício só lhes fará bem.
Comprou algodãozinho de uma fibra adequada para as camas nas casinhas; palhinha de erva aromatizada para espalhar pelo chão e também serradura granulada absorvente para neutralizar os odores; e não podia faltar a comida: uma mistura de grãos de vários cereais, sementes e ração com vitaminas. Disseram-lhe que lhes pode dar também legumes, verduras e frutas; e que deve limpar a gaiola todas as semanas para evitar os maus odores e não atrair formigas, nem os bichinhos apanharem doenças.

Quem quer admirar os belos ratinhos,
Tão lindos e enfeitadinhos,
Numa gaiolinha a brilhar?

Ai! Será agora que o gato Tonecas,
Desistirá de os caçar?

Bia pegou num animalzinho com cuidado para lhe pôr a fitinha ao pescocinho. Esta não podia ficar muito apertada, mas também não muito larga para não cair. Sentiu algum receio de o magoar, mas verificou que o Vermelhinho ficava bem-disposto (e bonito!); e assim também o Verdinho, o Azulinho e o Amarelinho que Bia acomodou no seu novo ninho.