segunda-feira

O Gato Tonecas


Nome: Gato Tonecas

Sexo: Masculino

Idade: 3 anos

Aspecto físico: Grande e feio, de grandes malhas pretas e algumas brancas, com pêlos sensores brancos nas costas espetados por entre as malhas pretas; céu-da-boca preto; olhos amarelos; bigodes grandes e fartos. Faz lembrar o Gato Malhado da Andorinha Sinhá.

Qualidades: Caçador de sonhos; educado: não sobe à mesa nem aos armários, dá uma volta pela cozinha e pelo resto da casa se alguma porta interior estiver aberta e, se não vir ninguém, volta a sair; atento e observador.

Defeitos: Também caçador de pássaros; mandrião: estende-se ao sol no alpendre, ou enrosca-se na sua cama improvisada lá num canto; é curioso e guloso.

Medos: Tem medo da dona.

Passatempos: Gosta de saltar de telhado em telhado, deambular pelos quintais e, quando lá lhe parece, às vezes passados dias, é que regressa para casa trepando o muro alto do pátio.

Minha Laranja Amarga e Doce


Enterrou a unha do polegar na casca da laranja e puxou. Não resistiu a enfiar o pedacinho amarelo-alaranjado na boca e cortar com os dentes aquela parte branca, de dentro da casca, que gostava de saborear. Era leve e adocicada, em contraste com os salpicos amarelos, oleosos e acres, que saltaram da parte de fora e se lhe entranharam nos dedos, e lhe chegaram ao nariz num aroma esborratado de acidez e remédio. Lembrava-lhe aqueles xaropes que a mãe lhe dava em criança quando estava constipado e com tosse. 
Outra unhada na laranja e outra pequena casca prontinha a abocanhar. Num instante, a laranja ficou descascada e toda a parte branca da casca comida. Parecia que tinha passado por ali um bichinho guloso que devorara aquilo tudo, mas não… ou sim. Sim, um bichinho de mãos amarelas e gordurosas e com uma espécie de massa esbranquiçada debaixo das suas unhas: o rasto do que ali acontecera, não podia negar. Tinha-lhe apetecido lavar logo as mãos ao tirar a primeira casca, mas veio-lhe a recordação dos seus tempos inocentes da infância e contivera-se. Passando a língua nos dentes, notou que lhe soubera mesmo bem voltar a ser criança a fazer travessuras. 
A laranja era agora uma bola madurinha e doce a pingar sumo pegajoso para as mãos. Como lhe crescia água na boca! Separou-a em duas metades. Depois, abriu gomo a gomo, que dispôs à roda num pratinho. E ficou a sorrir sozinho: estava já a imaginar o filhito a começar a fazer as caretas azedas àquela iguaria, mas depois a pedir sempre mais, como de costume.