domingo

Para lá das Estrelas


Encosto-me, na noite, aos vidros da janela do quarto. As estrelas brilham no céu. Colo-lhes o meu olhar e fixo uma em especial. A minha. É uma estrela no meio das outras estrelas, mas mais solitária. Como eu. Sozinha no meio da multidão.

Quem sabe se a uma qualquer outra janela haverá alguém a olhá-la como eu… aquele por quem o meu coração espera? Suspiro. Como será e onde estará essa alma-gémea que me será um dia? Não sei. Mas espero. Espero, demorando-me num gesto obtuso, que risco no vidro embaciado da janela, a arremedar o silêncio…

Estrelinha, brilha para lá do meu querer e ilumina aquele que atrairás com a tua intensidade a olhar-te; para depois o seu olhar seguir o caminho do teu raio de luz, até chegar aqui. A mim.

Sim, imagino que para lá do meu olhar, poderá haver outro olhar cativo da mesma estrela. Quero imaginar que há. Imagino que há. Como a imaginação tem poder!

A imaginação há-de ser sempre o meu limite… para lá das estrelas.

quinta-feira

Dia de Aniversário


Fiz catorze anos. Fiz e pronto. Passei, assim de um dia para o outro, de treze para catorze sem mais. Acho que isto de fazer anos merecia uma comemoração… mas não: é um episódio banal, que quase nem se dá por isso. 
Não me lembro de alguma vez se importarem assim tanto com os meus aniversários, excepto o meu mano padrinho, que me manda sempre um postal ilustrado de onde estiver. Mandou-me um da Guiné, quando esteve lá em militar, com a fotografia de uma rapariga preta muito bonita — uma bajuda futa-fula — onde me dizia alguns nomes das variadas etnias de lá (para além dos futa-fulas, há os fulas, os manjacos, os balantas e ainda outros). Agora nunca se esquece de me mandar sempre um do Luxemburgo. O deste ano é encantador — tem um bonequinho jardineiro que leva um carrinho de mão com flores dentro e, no cimo, uma frase: “J’ai mon charriot remplit”; é tão lindo que me perco a olhar para ele. 
Também o meu mano António chegou a oferecer-me, num aniversário quando eu era ainda pequena, uma boneca grande, quase tão grande como eu era — mas já a dei às minhas duas sobrinhitas, filhas dele; espero que gostem dela tanto como eu e que a estimem. Mais tarde, noutro aniversário, ofereceu-me dois bonecos que retirou da sua colecção, que ia ganhando nas latas de Toddy, e aos quais ele pintava as roupas de várias cores; pareciam dois marinheiros! Estes, com o tempo e as brincadeiras, acabaram por se estragar, começando a partir-se pelos calcanhares, talvez por eu bater com eles no chão como se os pusesse a andar. 
Desta vez, o dia ficou marcado só mesmo pelo postal, que eu guardei religiosamente junto dos demais.

segunda-feira

A casa dos ratos - intermezzo (7.1)


Deitou-se ao pé da gaiola dos ratinhos, como quem estivesse à sombra, como se ela fosse um porto de abrigo que o protegesse de raios abrasadores e de outros incómodos tais quais pragas rogadas, assombramentos ou pavores.

Mergulhou numa nostalgia letárgica e assim se deixou estar tempos infindos, sem sequer se lhe ouvir um ronrom. Parecia que o seu mundo tinha parado ali. Estava cansado. Cansado de correr atrás de quimeras, e os ventos sempre contrários. Pobre bichano, como até a um gato a vida pode fazer negaças!

Inspirou fundo e soltou depois o ar num suspiro soluçado. Agora não queria nada, mais nada, nada mesmo. Só um vazio sossegado. Enroscou-se mais, escondendo a cabeça debaixo das patas dianteiras, e deixou-se ficar, sem desejo algum.

Não tardou muito que o arrulhar de uma rola lhe viesse perturbar o inconsciente. Ah, as rolas! Meninas bonitas, as malditas, sempre com os seus rucrruu rucrruu a chamá-lo! E ele a começar com água a crescer-lhe na boca. E o rucrruu rucrruu a aproximar-se, e ele, pata ante pata, cada vez mais perto… um pulito sorrateiro e zumba! A mordida no pescoço foi certeira e fatal. Abraçado a ela, sorveu o sabor meio salgado que lhe escorria por entre os dentes, cuspiu as penas, fungou… acordou. Soube-lhe bem. O sonho viera dizer-lhe que tinha que voltar à caçada, porque gato que é gato não fica assim apático e desanimado.

Agora já podia dormir o seu sono solto, de olho naquela fresta da gaiola.

sábado

A Casa dos Ratos - (en)fim


Toda a quadrilha tem um chefe. E eles eram quatro – adiantou-se o vermelhinho: “Eu sou o chefe! Vamos lá, que se faz tarde!” 
E aí vão o Vermelhinho, o Azulinho, o Verdinho e o Amarelinho numa desfilada apressada em fila pelo carreiro, no desfiladeiro do túnel a desembocar numa fresta, alargada pelo Tonecas de tanto por lá remexer. E uma luz lá ao fundo brilhava para eles, que já a estavam a ver. Mas são os olhos do Gato que brilham tanto no escuro na ânsia de os comer. Um sobressalto. Um salto. Um “Alto!... Para trás!... que anda por cá o rapaz!”
Tiveram de recuar e esperar por melhor oportunidade. 
O Tonecas percebera que tinham tentado fugir. Ficou alerta, mas à futrica. Desejava-os há tanto tempo que temia que lhe escapassem sem lhes conseguir tocar. Disfarçou, fechou um olho e abriu outro, espreitou pelo buraco, esperou, esperou, esperou, eles haviam de vir. Fingiu um sono profundo, adormeceu e acordou e… é agora! Deu um salto estendendo as mãos e… quase. Caramba, tinham passado rapidamente debaixo dos seus bigodes, caladinhos como só ratos, que só viu o rabo do último. Correu, esbracejou, procurou, fungou, miou, qual quê? Agora?! Muito tarde e a má hora! Já deviam ter-se alojado nalgum canto bem escondido. Ah, como lhe tinham apetecido, como lhe apeteciam ainda, que nóia! Cabisbaixo e atordoado retirou-se, já nada havia a fazer, melhor seria agora esquecer. 

E então os belos ratinhos, bem aperaltados com os lacinhos, pela calada da noite, encheram as prateleiras da despensa e da cozinha com as suas vidas agitadas. Corriam por elas afora e adentro, escondendo-se nos recantos dos biscoitos, do açúcar, das massas, do arroz, das panelas e dos testos delas; tombavam frascos, tilintavam copos, lambuzavam pratos, roíam guardanapos, toalhas, outros panos e papéis… faziam, cada qual, o seu papel numa trama de cordel: marcavam o seu lugar, deixando a sua marca num rasto de rataria; chiavam, num riso fino, gozando com o gato e os ex-donos, agora que a vida lhes sorria; mordiam, aqui e além, neste e naquele cartucho, provando isto e aquilo, comendo do que queriam e estragando outro tanto; pintavam a manta e o manto de preto e outras cores, sem pejo nem outras dores; café, açúcar, bolachas – é tudo nosso!; fosse doce ou salgado, cru ou cozinhado, frito, cozido ou grelhado, pouco ou muito – o que é que importa?! –, até ao nascer do dia. Que depois é outro dia. E é para dormir, bem escondidos, sem companhia do gato, que à noite a festa continua. 
E assim foi depois, nos outros dias – ou melhor, noites – na cozinha e para lá: na sala, nos quartos; era fazer o ninho no forno do fogão, e mais outro no sofá da sala… e outro atrás das orelhas do Tonecas – que esse, coitado… nunca mais os viu acordado, só em sonhos quando estava deitado, ou antes, em pesadelos a escaparem-lhe ao lado. 
Assim, sim: que rica vida, enquanto essa durar não vão querer outra. 

E estragação dos diachos naquela casa se fez, tudo a monte e à vez: retraçado, estraçalhado; escaganitado e esmijaçado como resina ou pez. Ora bem – ou ora mal –, tudo tudo ratado. 

Quando se protegem os ratos, eles acabam por tomar conta da casa. 

E viveram felizes e contentes numa casa toda deles. 
Sape gato!


A Casa dos Ratos 7


O Tonecas andava de trombas, como se fosse mau. 
Tinha-se fascinado com os rituais de acasalamento do par de andorinhas empoleiradas no estendal do telheiro, mas já estava a ficar farto. Eram cantorias para um lado, cantorias para o outro, pulinhos daqui para ali, dali para aqui, mais um pequeno voo para acolá, e depois mais outro para acolí, só visto! E, então, as melodias eram cada vez mais elaboradas, e ele não gostava nada de se ver como “segundo violino”, ainda por cima desafinado. Se era para andar nessas vidas, melhor seria não aprender a voar. Ná, ele não tinha jeito para isso. Gostava de ser o dono da situação: de lançar os seus longos miados, naquelas noites de luar de Inverno, em cata de alguma fêmea das redondezas; e ao sol da Primavera queria era caçar. Pássaros de telhado, pardais e ratinhos dos campos, ratinhos do celeiro… ratinhos! ah, os seus ratinhos da gaiola… como se esquecera deles?! Aquelas andorinhas tinham-no tirado do sério. 
Avançou por cima do telhado, lançando um último olhar, como um adeus, àquelas esganiçadas aves, que tanto o tinham feito sofrer, e desceu pelo poste que segurava o telheiro.

quarta-feira

A Casa dos Ratos 6


Os ratinhos cresceram. E começaram a olhar com maior insistência para o lado de fora. Algumas vezes mordiam as grades com uma certa esperança de as conseguirem desfazer. Mas os seus dentinhos não eram tão fortes assim que roessem aquele material, só faziam barulho naquelas malditas grades. E chiavam uns com os outros, mas eram chiados finos, quase gritos mudos a que os ouvidos dos donos não davam importância. Estes pensavam que eles se andavam a divertir, quando o que eles faziam era ralhar e lutar uns com os outros de tão descontentes que se achavam. É que, por vezes, até se acabava a comida, pois a dona ainda não se apercebera bem de que eles tinham crescido rapidamente e que precisavam de maior dose de alimento. Isso era um inferno. E sonhavam alto com outra vida lá fora. Os olhos daquele gato-guarda não andavam por perto havia alguns dias, talvez ele se tivesse cansado de os espreitar ou tivesse tirado uns dias de férias. Quem sabe, seria uma boa altura para pôr em prática um plano de fuga… mas eles ainda não tinham arranjado um plano. Agora começavam a perceber que estava mais do que na hora de pensarem a sério nisso.

A Casa dos Ratos 5


Elas chegaram, alegres e cheias de graça. Distraiu-se, o gatarrão, dos afazeres a que se tinha apostado. Vigiar os ratinhos cansava, e agora aquela música era-lhe familiar e querida, embora os seus ouvidos, treinados, não a ouvissem há muito. Ali estavam, naquela parte dos seus sonhos, as melodias de que mais gostava – os belos trinados das andorinhas. Tinha-lhes sentido a falta durante o Inverno, muito embora os ratinhos lhe tivessem vindo aplacar um pouco o vazio dessa perda. Só um pouco mesmo, porque ainda não lhes conseguira deitar as garras, o que o andava a deixar ansioso. 

Agora ali estavam elas a gozar o sol, encavalitadas nos fios telefónicos que sobrevoavam o pátio até à parede da casa. Trepou avidamente o poste de suporte da alpendorada até ao telhado, para as fitar mais de perto. Eram duas, e as canções que cantavam enfeitiçaram-no como cantos de sereias. Ah, maviosos tons! Que maravilhosa cor e aroma delicioso que o sol lhe vinha trazer! Bendito sol, bendito céu azul onde moravam os seus sonhos. Um dia ainda haveria de voar como elas…


segunda-feira

“Deus queira que cheguem à minha idade…”


Noventa e seis anos bem medidos. Com genica, como só ela.
É a genica que a vai mantendo sempre activa. Semeou favas bem cedo, como de costume todos os anos (diz que cavar faz bem: “é para fazer ginástica aos ossos”), e vai observando as faveiras a crescer de dia para dia, enquanto espera, com alguma ansiedade, que brotem as favas.

Manda. Continua sempre a mandar: em tudo e em todos. “Vocês, hoje em dia, nem sabem que vivem no mundo!... é só lambarices: chicolates e diogurtes… e para quê?... andam sempre doentes e a tomar remédio, quanto mais mimosos são, pior! Eu cá não tomo nada!!!... mas também ninguém passa o que eu passei!…: quem é que andava, hoje, acarvada no campo a mondar arroz… para trazer meia dúzia de tostões?!... e chegava-se ao meio dia, e comer umas batatitas azedas!...; hoje, os novos, é só competadores e não fazem mais nada que é só falar com aquilo nas orelhas… passam a vida nisto. Sabem lá o que é a vida?!”
Se a contrariam, ou lhe tentam dizer que a vida de hoje também tem sacrifícios… “Vocês podem dizer o que quiserem que eu não oiço nada… daqui a pouco estou que nem vejo nem oiço!” Mas ainda vê, não muito bem, mas vê (e lê, e escreve com letra bonita, se estiver de feição: “E eu cá nunca usei óculos!”) e ouve… o que lhe convém. “Olhem, Deus queira que vocês cheguem à minha idade e estejam como eu estou!”

Tem Apoio Domiciliário por parte da IPSS local, mas quando chega o dia da limpeza da habitação tem já os tapetes e passadeiras todos fora e o balde prontinho com água e detergente para as “alimpadeiras” lavarem o chão.
– Ó senhora Maria, então não quer ir para o Centro de Dia?
– Para lá fazer o quê? Não tenho paciência para estar lá sentada sem fazer nada, como elas lá estão, bem mais novas do que eu, e que ainda podiam tão bem trabalhar, mas o corpo não lhe apetece!
Em tempos, quando o marido vivia, ia com ele para lá todos os dias, para lhe fazer companhia, e porque no Verão iam alguns dias à praia, e a praia era do melhor que lhe podiam oferecer. Mas eram mais os dias em que se aborrecia e, depois do almoço, deixava lá o marido e desatava a pé para casa. “Aquilo não é vida para mim”.
– E depois, quem é que tratava das galinhas da minha filha? Se não fosse eu, deixavam-nas morrer todas com fome!

 No ano passado, as primeiras favas foram dela.
– Já cozi e comi uma pratada de favas que me regalei!
– Então, e comeu as favas com quê?
– Com quê?!... olha, com quê!!... com azeite!!!


(Envelhecimento activo - história da vida real)