sábado

A Casa dos Ratos - (en)fim


Toda a quadrilha tem um chefe. E eles eram quatro – adiantou-se o vermelhinho: “Eu sou o chefe! Vamos lá, que se faz tarde!” 
E aí vão o Vermelhinho, o Azulinho, o Verdinho e o Amarelinho numa desfilada apressada em fila pelo carreiro, no desfiladeiro do túnel a desembocar numa fresta, alargada pelo Tonecas de tanto por lá remexer. E uma luz lá ao fundo brilhava para eles, que já a estavam a ver. Mas são os olhos do Gato que brilham tanto no escuro na ânsia de os comer. Um sobressalto. Um salto. Um “Alto!... Para trás!... que anda por cá o rapaz!”
Tiveram de recuar e esperar por melhor oportunidade. 
O Tonecas percebera que tinham tentado fugir. Ficou alerta, mas à futrica. Desejava-os há tanto tempo que temia que lhe escapassem sem lhes conseguir tocar. Disfarçou, fechou um olho e abriu outro, espreitou pelo buraco, esperou, esperou, esperou, eles haviam de vir. Fingiu um sono profundo, adormeceu e acordou e… é agora! Deu um salto estendendo as mãos e… quase. Caramba, tinham passado rapidamente debaixo dos seus bigodes, caladinhos como só ratos, que só viu o rabo do último. Correu, esbracejou, procurou, fungou, miou, qual quê? Agora?! Muito tarde e a má hora! Já deviam ter-se alojado nalgum canto bem escondido. Ah, como lhe tinham apetecido, como lhe apeteciam ainda, que nóia! Cabisbaixo e atordoado retirou-se, já nada havia a fazer, melhor seria agora esquecer. 

E então os belos ratinhos, bem aperaltados com os lacinhos, pela calada da noite, encheram as prateleiras da despensa e da cozinha com as suas vidas agitadas. Corriam por elas afora e adentro, escondendo-se nos recantos dos biscoitos, do açúcar, das massas, do arroz, das panelas e dos testos delas; tombavam frascos, tilintavam copos, lambuzavam pratos, roíam guardanapos, toalhas, outros panos e papéis… faziam, cada qual, o seu papel numa trama de cordel: marcavam o seu lugar, deixando a sua marca num rasto de rataria; chiavam, num riso fino, gozando com o gato e os ex-donos, agora que a vida lhes sorria; mordiam, aqui e além, neste e naquele cartucho, provando isto e aquilo, comendo do que queriam e estragando outro tanto; pintavam a manta e o manto de preto e outras cores, sem pejo nem outras dores; café, açúcar, bolachas – é tudo nosso!; fosse doce ou salgado, cru ou cozinhado, frito, cozido ou grelhado, pouco ou muito – o que é que importa?! –, até ao nascer do dia. Que depois é outro dia. E é para dormir, bem escondidos, sem companhia do gato, que à noite a festa continua. 
E assim foi depois, nos outros dias – ou melhor, noites – na cozinha e para lá: na sala, nos quartos; era fazer o ninho no forno do fogão, e mais outro no sofá da sala… e outro atrás das orelhas do Tonecas – que esse, coitado… nunca mais os viu acordado, só em sonhos quando estava deitado, ou antes, em pesadelos a escaparem-lhe ao lado. 
Assim, sim: que rica vida, enquanto essa durar não vão querer outra. 

E estragação dos diachos naquela casa se fez, tudo a monte e à vez: retraçado, estraçalhado; escaganitado e esmijaçado como resina ou pez. Ora bem – ou ora mal –, tudo tudo ratado. 

Quando se protegem os ratos, eles acabam por tomar conta da casa. 

E viveram felizes e contentes numa casa toda deles. 
Sape gato!