segunda-feira

Subir O Caminho III


Tenho de ir em busca da fonte perdida. Este pensamento traz nova estrelinha que me ilumina, nova brisa que me sopra, nova bússola que me aponta o norte. Já outra vez a força se aproxima de mansinho e a energia quer começar a vir ao de cima. 

Já sei aonde irei! Hoje vou adentrar pela folhagem mais verde, onde as aves fazem os ninhos; onde há minas de águas puras e as rãs cantam em redor; onde brotam resquícios de quimeras, memórias de antigas Primaveras; onde a magia se alimenta de olhar as folhas ao vento. 

Levanto-me, tomo o pequeno-almoço e vou. 

Vou – ainda que pelo meio de canaviais e de silvas a ladear o carreiro atapetado de ervas. A vida é uma perpétua busca, rasgada de interrogações e de improvisos. 

Vou. Furo os silvados a arranharem-me os braços, encho as calças de carrapiços de tantas ervas bravas – quem anda no meio de abrolhos acaba com espetos nos pés – mas sigo em frente, pois muito embora a passagem esteja diferente – como tudo se deteriora e altera num instante! –, tenho a certeza de que dantes era por aqui o caminho, e sei também que “quem busca encontra” (Mt. 7, 8)

E mesmo pelo meio dos espinhos, sem sequer bem saber o que irei encontrar, a alma diz-me para ter fé. Terceiro Mistério Doloroso – a coroação de espinhos. 

Levo pela trela o meu companheiro de sempre. Não o solto, não vá ele correr atrás de algum coelho e se perca na paisagem que desconhece. Já outras vezes, por outras paragens, correu esbaforido à descoberta e depois já não deu mais comigo, só foi ter a casa mais tarde. Para mais, disseram-me que algures por aí foram montados laços para caçar javalis… não vá ele cair nalgum. Assim, ainda que lhe custe, e também a mim, pois puxa daqui, repuxa dali com uma força tal – já certa vez se enrolou a mim e me fez cair, até magoei dois dedos da mão –, que tenho que ir sempre a refreá-lo e a ralhar-lhe: “Snoopy, ao lado!”, “Snoopy, espera!”, “Snoopy, devagar!”…, o que não me permite vagar tranquilamente. 

E é nisto que, depois de uma cortina de canas mais cerrada, os olhos me mostram uma espécie de enseada. A fonte? É além. Além, logo abaixo da pequena escada de pedra gasta, que está parcialmente encoberta por uma barreira de silvas e ervas daninhas que se pegam à roupa. 

Senhor, 
É maravilhoso o perfume das flores, 
mas também as ervas daninhas têm a sua fragância. 
Cada um tem o seu lugar para crescer e desabrochar. 
E isso é belo...
Senhor, 
introduz-me no teu coração 
como se fosse uma semente. 
(Angela Toigo, Um rato fala com Deus)

8 comentários:

Vanuza Pantaleão disse...

A gente se arranha, mas vai. O caminho nós mesmos fazemos, quanto às feridas...um dia cicatrizam.
Adorei, Fa!
Semana lindaaaaa!!!

Smareis disse...

Com fé e confiança a subida sempre é mais fácil, e nenhum arranhões e nem carrapichos consegue deter.

Gostei muito de ler essa parte, no final essa prece, muito linda.
Deixo um beijo!

Nilson Barcelli disse...

Os teus caminhos não são fáceis, mas com vontade e determinação chegarás ao destino.
Tem um bom fim de semana, querida amiga Fá.
Beijo.

Existe Sempre Um Lugar disse...

Boa tarde, em cada caminho que se percorre, o inesperado pode acontecer, com força e muita motivação,
ultrapassa-se cada obstáculo a caminho da felicidade desejada.
AG

O Árabe disse...

De todo o belo texto, Fa, permita-me destacar esta grande verdade: "a vida é uma eterna busca, rasgada de interrogações e de improvisos". Boa semana, amiga!

Ana Tapadas disse...

Caminho necessário para sermos aquilo que somos!
Belo texto e poema de Angela Toigo.

Beijo

SOL da Esteva disse...

Os Caminhos são para serem trilhados com determinação e confiança. Quem disser que os caminhos são planos e lisos, certamente não está na vida com sentido de Missão e com responsabilidade de ser Divino.
Amei o teu Texto. Dá para Reflectir.


Beijos


SOL

Nita Oliveira disse...

Vim e gostei muito de tudo. Voltarei, pois já estou a seguir.

Com determinação, ultrapassam-se todos os obstáculos.

Beijo.
Nita