sábado

Subir O Caminho IV


E eis a fonte. Coberta de heras, revestida de musgos. O lastro quase repleto de agriões. Será que ainda tem água dentro, ou terá secado ou escoado toda pelas frestas? O que estará por detrás das janelas de olhar furtivo? Água? Ou apenas fantasias de outras eventualidades?

Um mundo abandonado, escorrido; leito de prantos, de confidências, calores, alvores e… também maledicências. Era uma bacia à cabeça com um alguidar emborcado em cima da roupa suja e, às vezes, também um cântaro debaixo do braço: assim se fazia o caminho, pelo calor ou de madrugada, para que a barrela voltasse bem asseada. Na pia roupa molhada, na pedra a roupa esfregada e batida, depois passada e torcida, pronta a ser estendida para secar no estendal… Aqui se lavaram roupas e outras vidas; se branquearam linhos e outras tendas; se despejaram sujidades e se debateram contendas; aqui chegaram panos com nódoas e foram corados ao sol; farrapos foram rasgados por não terem mais lavagem; braços e pernas se molharam, mas nem sempre se banharam; bocas entraram mudas mas não partiram caladas; por aqui passaram gentes desassombradas e outras que se viram marcadas por ferrões e ferroadas de moscardos e de vespas, mas também de palavras proferidas sem dó nem piedade: as mulheres quando se juntam “cai o Carmo e a Trindade”. Uma fonte de água pura, fresquinha para beber, onde tantas vezes vim encher o barrilito de barro; e nem essa água, apetecida e leve, lavou bocas encardidas, que só se sabiam bem entretidas a falar na vida alheia. Que fonte esta, sempre tão cheia e agora tão vazia!… 

Será que ainda tem água dentro, será que a nascente ainda não secou? Espreito a uma janela: nada, está seca; espreito a outra: esta está cheia. Experimento abrir a torneira que lhe fica abaixo: ainda não enferrujou muito e escorre. O Snoopy aproveita para beber. Eu não me aventuro a tanto. Ainda há água!, ao menos para o Snoopy. Porque “até os cachorrinhos comem das migalhas que caem da mesa dos seus donos.” (Mt. 15, 27) 


Como Pedro, também Te digo: 
Salva-me, Senhor! 
Tenho medo de andar sozinho 
Mas, creio que és Salvador. 

Nas águas da minha vida 

Agitadas pelo vento 
Eu não posso navegar 
Se não estiver atento.

Tu vens sempre ao meu encontro 
Eu é que não te reconheço 
Mas quando Tu te revelas 
Humilde, Te agradeço.

Sou um homem pecador 
Mesmo assim Tu me salvas 
Das quedas de que sou autor 
És sempre Tu que me levantas.

Nos meus medos e receios 
Para Ti, Senhor, me volto 
Nas minhas dúvidas e anseios 
Diante de Ti me prostro.

E quando Te reconheço 

Nada me pode abalar 
Só em teu braço seguro 
Eu me posso ancorar. 
(Pe. José António Carneiro)

10 comentários:

Nilson Barcelli disse...

A máquina de lavar a roupa acabou com toda a poesia das lavadeiras. E já ninguém põe a roupa a corar...
Mais um excelente texto. Como sempre, aliás.
Tem uma boa semana, querida amiga Fá.
Beijo.

O Árabe disse...

E esta é uma verdade, Fa: sempre existirá água a correr (ainda que seja apenas um fio), para aqueles que buscam o manancial do Universo. Belo texto, amiga; boa semana.

SOL da Esteva disse...

Espantosa descrição duma verdade, remota no tempo, actual no sentido.
Gostei deste "ruminar" do passado.

Beijos


SOL

Smareis disse...

Mais um excelente texto que me fez pensar.
Vou fazer uma pausa no meu blog por alguns dias, só voltando em Janeiro...
Desejo que você tenha um Natal com alegria, felicidade, e que as esperanças se concretizem.
Feliz Natal e um Ano Novo repleto de realizações!
São os meus sinceros votos para você e toda a sua família.
Grande abraço !

O Árabe disse...

Espero a tua volta; precisamos continuar a subir o caminho. Boa semana!

Fá menor disse...

«Há caminhos na floresta que não conduzem a nenhuma parte. Que valor é que têm? Dão-nos a possibilidade de passear, de estar ali naquele momento com o peso do nosso corpo, com a nossa situação. A vida espiritual é precisamente a redescoberta disso, a cada momento.»
http://www.snpcultura.org/meditacoes_advento_3.html

Nilson Barcelli disse...

Um Natal Muito Feliz, para ti e para a tua família.
Um beijo, querida amiga Fá.

Berço do Mundo disse...

Querida Fá, a famigerada falta de tempo tem-me deixado longe da blogosfera. Constato que perdi vários posts. Voltarei para os ler. Hoje passei apenas para lhe desejar o mais doce dos Natais, com toda a família reunida.
E porque Natal é também tempo de agradecer, aproveito para dizer "obrigada" pela sua amável presença n'O Berço ao longo do ano.
Beijinhos
Ruthia d'O Berço do Mundo

O Árabe disse...

Feliz Ano Novo, Fa! Que 2015 traga tudo de bom para você e os seus; que possamos continuar a subir o caminho! :) Boa semana.

Maria Luiza disse...

O que dizer, Fá de um texto tão lindo, uma poeisa tão marcante? Benditas sejas! Um feliz, abençoado e próspero 2015! Meu forte abraço!