quarta-feira

Arrepiar Caminho IV


O receio faz ganhar coragem. É hora de voltar atrás. Há que voltar para trás enquanto se pode. Vamos voltar. Para trás é agora o caminho. Dou meia volta e começo a marchar em ritmo acelerado, mas sem correria, para não tropeçar. Já se faz tarde, mas ainda tenho tempo. 

Está ali o outro caminho que não escolhi há pouco, e se o experimentasse agora? Não. Não é tempo de uma experiência em cima de outra; vou pelo caminho mais seguro, aquele que conheço, o que me trouxe até aqui; será que ainda saberei voltar por ele? Decerto que sim, ainda consigo reconhecer os arbustos da beira do caminho e os trilhos dos tractores. Mistérios luminosos.


Em tal dia, 
Muitas noites depois da solidão, 
Morreram os meus olhos.

E as minhas mãos perderam 
O gosto abundante das uvas. 
Os meus lábios o ritmo do mar. 
Os meus ouvidos a suave brandura 
Que tece a tua voz.

Entretanto, por estes dias, 
Pararam o tempo e as ondas. 

E a criação inteira ficou 

Quieta 
À minha espera. 
(Zé Maria Brito Sj)


Vai descendo o crepúsculo sobre a minha marcha; abro mais os olhos e não olho para trás. O caminho vai-se abrindo à minha frente, é agora estrada de areia lavada pela chuva, escorrida pela brisa. Desço depois o empedrado da curva da estrada. O cão distraiu-se com alguma coisa, talvez um rato ou um coelho, e ficou para trás; dou-lhe dois assobios mas não espero por ele. Ele acabará por vir ter comigo. Sinto calor, por causa do passo apressado, mas não estou cansada. A roupa cola-se-me ao corpo e eu sinto-me bem, apesar de agitada, sei que fiz a escolha certa. Lá para trás deixei a curva da estrada. Não chegarei com sol, mas não me faltará luz.

Depois da descida volto à esquerda e caminho agora em terreno a direito. Chego à pequena subida, solto mais outro assobio e continuo. Dali a um bocado ouço ofegar atrás de mim – aí vem ele, cansado da correria. Passou-me à frente devagar, chamo-o e mando-o parar e ele obedece; ponho-lhe a trela para não nos perdermos um do outro, agora que é quase lusco-fusco. E ali está, à nossa frente, o asfalto debaixo do poste de iluminação. Terceiro Mistério Luminoso – Jesus anuncia o Reino de Deus e convida à conversão.

Arrepiar Caminho III


Continuo a caminhada, sem sentir os pés no chão. O cão vai farejando e marcando o seu território aqui e ali. Nova encruzilhada: e agora para onde virar? Esquerda ou direita? Direita é o mais provável. Siga! Sempre a andar. Vai dar à estrada larga, de certeza! Certeza? Nenhuma. Mas não quero voltar para trás, sinto-me bem nesta aventura. Aperto ainda mais o passo e vou sentindo o corpo molhado. É boa a sensação do suor a escorrer corpo abaixo. 

O caminho começa a estreitar. Agora é já só um carreiro; não faz mal, eu quero seguir por aqui. Ou não. Não sei. Já não sei. Não seria melhor voltar para trás? Talvez experimentar aquele da esquerda que deixei ali na esquina deste caminho… será que ainda irei a tempo? Não. Vou por aqui mesmo, a estrada pode ser mesmo ali em baixo, a seguir ao descampado onde cortaram as árvores. Vou por aqui. Mesmo sem caminho? É que já não há caminho. Acabou. Páro no meio do matagal. Talvez seguindo pelo meio do mato, por aí abaixo, consiga encontrar outro caminho. É tarde para voltar atrás. E agora? Atalho pelo desconhecido à frente – talvez que lá chegue de dia; ou volto para trás, pelo caminho que conheço, e que me levará à estrada, mesmo que na noite? Não gosto de voltar atrás. Estou no cimo do monte. À minha frente há claridade, não há árvores a esconder o ar do dia, apesar de o sol ter declinado. É tarde. Deve haver caminho lá. E se não houver? E se me perco? Não posso tomar um rumo que me poderá levar a perder. Mas voltar atrás é dar parte de fraca. Não. Voltar atrás é ser forte. Sinto receio. Há alturas em que se tem que arrepiar caminho. E é preciso, tantas vezes, força para isso.