sexta-feira

Subir O Caminho I


Tornei a pisar o chão. No dia seguinte e no outro, e no outro. Caminhos diversos, dura a caminhada. Deambulo à procura de Tudo e parece que não há por aqui nada. 

Estes caminhos são juncados de cardos. Talvez, para mim, “vasos de alabastro com bálsamo de nardo” (cf. Mc. 14, 3). 

Percorro trilhos dos outros lados, na busca do ponto que no primeiro dia abandonei. Talvez que houvesse uma convergência; talvez um sinal, talvez uma saliência que se pudesse pular, talvez uma frágil ponte, talvez um carreiro, talvez um sulco já antes trilhado… mas nada. Não encontro nada, nada disso.


– Onde estás, Deus?



E… onde é que Tu não estás?!


Às vezes temos que descer para voltar a subir 
Descer ao fundo dos nossos erros 
Descer ao abismo dos nossos medos 
Descer às questões pertinentes que 
(inconscientemente) fingimos não existir. 
Descer e aterrar na nossa impotência perante tudo e todos. 

Com medo ou sem ele 

A descida leva-nos por trilhos desérticos, 
a uma sensação de vazio, de solidão, 
quase deixando de fazer sentido 
o sentido que damos à vida. 
(Dulce Gomes)

sábado

Arrepiar Caminho VI


Continuamos a subida e chegamos à estrada principal.
Quinto Mistério Luminoso – Jesus institui a Sagrada Eucaristia. 

Estamos mesmo a chegar a casa e sinto fome, mas preciso, antes, de me lavar. Sinto-me pegajosa do suor que me lambe. É noite. 
Entro ao portão e desatrelo o meu companheiro de jornada. Ele vem cheio de sede; dou-lhe água. 
Três Ave-marias em honra da pureza de Nossa Senhora. Ave Maria, cheia de Graça… 
Tomo um duche rápido, morninho, e fico bem. 
Depois sento-me à mesa e pego no pão. 
Salvé Rainha, Mãe de Misericórdia… 

Quantas metáforas tem o caminho! Vivê-las, vivi-as eu, sem saber bem reconhecê-las – nunca fui muito boa a destrinçar metáforas; achá-las, ache-as quem lê. 


Saímos de casa para voltar a casa, mas a uma casa que já nada tem a ver com a primeira. Porquê? Estamos diferentes por dentro e, por isso, todo o mundo se alterou. 
(João Delicado, Ver para além do olhar)


quinta-feira

Arrepiar Caminho V


Seguimos agora estrada abaixo, por entre os eucaliptais. Daqui a pouco estaremos em casa. Depois de mais uma encruzilhada, dobramos a curva à direita e há aí um milheiral, que fica do lado direito, cheio de espantalhos a luzir. 
– Lembras-te, Snoopy, da primeira vez que os viste, quando ainda eras adolescente? Eriçaste o pêlo e ladraste a um. Agora já não te metem medo. Até costumas banhar-te sempre no ribeiro a seu lado quando aqui passas, no tempo em que ele leva água. Agora está seco.
Secou há umas semanas. 

Quarto mistério luminoso – A transfiguração de Jesus no monte Tabor. 

Passamos o milheiral e avançamos ladeira íngreme acima. E cá vou subindo, de dezena entre os dedos, meditando nos Mistérios de Nosso Senhor. 

Quem quer passar além do Bojador, tem que passar além da dor. 
(Fernando Pessoa, Mensagem)

Nisto aparece-nos de frente o dono do milheiral. 
– Então, a esta hora? És muito afoita. Eu vou para baixo agora e vou com medo! 
– Medo? Não há que ter medo. Quem anda com Deus não pode ter medo, porque anda bem acompanhado. 
– Tens razão. Eu levo aqui uma arma: um pau. Mas Deus é a melhor arma. 
– Então mas aonde é que vai a esta hora? 
– Vou pôr o rádio a tocar no meio do milheiral, para espantar os javalis. 
– Ah, vai dar-lhes música de baile! Boa ideia. Pode ser que eles assim aprendam a dançar – digo num sorriso. 
Fazemos as despedidas e cada qual segue o seu caminho. 
Oh, que caminho cheio de metáforas!