sábado

O Sonho Que Me Foi Negado


Tenho corrido atrás de um sonho, sem nunca o conseguir apanhar. Fiz agora uma tentativa: comecei por estudar Matemática por um livro do meu primo Álvaro. 

Estudar foi o sonho que me foi negado; e ler, aquilo que me vai sendo permitido desde que eu consiga arranjar as leituras. Depois de esgotadas outras fontes, procurei na casa da tia Mila. Os livros do Álvaro estavam lá quase todos, e a tia tem vindo a emprestar-mos a cada vez que vou a casa dela. Deixo um e levo outro. 

A casa da tia exerceu sempre um grande fascínio sobre mim, desde que me lembro de fugir da minha casa para a dela, ali lado a lado uma com a outra. E, agora, que moro um pouquito mais longe, continua a ser uma enorme atracção: pelo seu enorme jardim que o tio tem bordado a pontos de pedras selvagens, com o esforço das suas mãos e da sua poesia; mas também pelo amor que os tios nunca deixaram de me dedicar. Ali sinto-me tão bem! Sinto-me em casa. Porque nos sentimos em casa quando nos vimos recebidos com afecto e carinho; então o nosso coração não só não se desapega desse lugar, como o busca cada vez com mais frequência. 

E, assim, é como se a casa da tia Mila fosse, agora, a minha biblioteca particular, depois de ler tudo o que havia na minha casa para ler. Primeiro, os romances foram a minha sedução; agora, o livro de Matemática. Sempre gostei muito de Matemática, tanto ou mais que as outras disciplinas. Letras e números ensinam-me a saborear a vida, dão-lhe colorido nos meus dias apagados, cinzentos, vazios do ar quente que me leve a flutuar e planar acima da terra. 

Quem sabe se eu estudar tudo muito bem e for fazendo os exercícios, possa ir aprendendo tudo e, depois, assim que surgir uma oportunidade, fazer um exame… 

Por agora vou estudando. Quando acabar este de Matemática hei-de pegar nos outros todos, um a um, e o futuro a Deus pertence.

O Desembaraço


De molhos de garrafões de plástico vazios nas mãos, aproximo-me da fonte para os encher de água. Sabe bem assentar os pés, descalçados os chinelos, no pequeno lastro alagado. No tempo do calor é fresquinha a água desta nascente que jorra continuamente em bica desembaraçada; como desembaraçadas são as duas mãos idosas que ali esfregam a roupa ensaboada na pedra. 
Dou as boas-tardes e peço licença para encher os garrafões, se não for incomodar. 
– Sirva-se à vontade! 
– Obrigada! Sabe bem estar aqui com os pés fresquinhos… – digo para meter conversa. 
– Pois é. Agora é mais fresquinha e no Inverno é mais morninha… 
Vou enchendo vasilha a vasilha, enquanto ela vai esfregando e molhando a roupa devagar na bacia com água, virando-se de lado para mim. 
 – Só há quem a venha aqui estorvar… – digo, pensando que posso estar a demorar, e ela precisará de se servir da bica da água. 
– Não estorva nada. A gente nunca estorva ninguém. 
– Se calhar andamos mas é por cá a estorvar-nos uns aos outros… 
– Não senhora! A gente não estorva nada. Antigamente tinham seis e sete e oito ou nove filhos e não se estorvavam uns aos outros… agora são menos, não há razão para se estorvar ninguém. 
– É bem verdade. Agora é só um, ou dois… quando é!... 
– E tudo se criava. Você se calhar não sabe… não era do seu tempo, mas, e quando se partia uma sardinha em dois ou três só com um bocadito de broa?… agora é só lambarices… e coisas caras. 
– Realmente… ainda dizem que agora os tempos são maus… e que não dá para se viver… as pessoas habituam-se ao que é bom, ao conforto, e já ninguém quer passar com pouco e fraco. 
– Ah, mas olhe, acolá em cima há uma rapariga, você não deve conhecer, que não é de cá… bem, quem mora ali são os pais, ela agora já não mora cá, que já está casada; quero dizer, casou e separou-se e voltou a casar ou a juntar-se… 
– Pois… agora já não se estranha isso… 
– É assim!... Pois essa rapariga trabalha, ou trabalhou, num talho. E contava ela que vinha a carne para o talho e ia-se vendendo para uns e para outros… e passava-se uma semana e nunca se vendia toda… e a carne que ficava começava a ganhar bichos, daqueles com um rabito, você não sabe?... têm um rabito… uns bichos com um rabito… e depois passavam aquela carne por uma máquina e bichos e tudo, moíam aquilo tudo… para… 
– Para fazer hambúrgueres?... 
– Isso. E sei lá mais o quê… olhe, depois era tudo vendidinho!... 
Sorri levemente, num misto de assentimento e incredulidade, acabando de encher os garrafões e acabando a conversa por ali mesmo com um adeus. 
E a água a jorrar sempre certinha e desembaraçada ficou; como certinhas e desembaraçadas as palavras de quem com mestria as ditou.

Subir O Caminho V


Empreendo a caminhada, como de outras vezes, deixando que o Snoopy corra à minha frente. 

Vou munida de silêncio, entrecortado pelos sons dos meus passos e dos meus pensamentos que, aos poucos, se vão quase quedando orantes, mas sem bem se quedarem. A dezena, entre os dedos, quer cumprir a sua missão e vai rolando de Ave-maria em Ave-maria, mas, às tantas, dou-me por perdida nas contas quando me distraio para fazer uma foto de qualquer coisa que me chamou a atenção. Depois sigo, sem bem saber já os mistérios passados. 

Também, o meu camarada de passeio se distancia da minha visão por eu ter parado um pouco. Sou obrigada a chamá-lo para que não avance, sei lá por onde, e me deixe só. Prendo-o e levo-o agora pela trela, com receio de que me fuja. O malandreco já me pregou assim algumas partidas, e agora tenho de ser mais cuidadosa. 

A tarde é soalheira, mas o ar é gélido; o caminho é de pedras esburacadas, meio enterradas; nuns sítios, carreiro; noutros, em escada. Uma pequenina ponte em laje de pedra sobre uma vala; nalguns lados encontro lama; noutros, erva verde rasteira nunca pisada. 

Subir o caminho, por entre penhascos e alecrins, até à capela, é música para o meu olhar; harmonia para os meus passos.