quinta-feira

Considerações a petróleo



Aos domingos, depois da missa, costumo passar por casa da minha tia Rosária, que é pertinho da igreja, e ficar com as minhas primas, Sílvia e Graciete, a ver televisão. Dá sempre o Tarzan àquela hora e eu gosto de assistir. Em minha casa não temos televisão porque não há luz eléctrica na minha aldeia. 

As minhas primas é que têm sorte: assim, com luz eléctrica em casa, não precisam de lavar chaminés de vidro, farruscadas, dos candeeiros a petróleo. Já a mim, é trabalho que me calha quase todos os dias. Às vezes lá se vai uma chaminé… que azar! Escorrega da mão e, trás! era uma vez uma chaminé de vidro! 

A avó Maria é que me ensinou a lavar as chaminés, com muito jeitinho, dentro de um alguidar de zinco com água, usando um trapo e sabão azul e branco, e a secá-las depois com papel de jornal. Dizia que as minhas mãos, porque pequeninas, é que eram boas para fazer esse trabalho. Mandava-me também encher de petróleo os candeeiros : “põe tu, menina, põe tu, que eu não gosto nada desse cheiro.” 

A mim, o cheiro do petróleo nunca me fez diferença, habituei-me a ele desde pequenina, na loja, quando as freguesas o vinham comprar e eu observava o mano António a medi-lo por umas medidas de latão: de um litro, meio litro e um quarto de litro. Agora já sou eu que o avio e não me importo nada. Por baixo da torneira do bidão temos um pequeno tabuleiro em latão, que tem dentro uma gradilha esburacada de chapa onde assentam as medidas. Se a torneira pinga, ou quando se enchem as medidas demasiado e transbordam, não se perde nada, pois o tabuleirinho serve para aparar o petróleo que cai e fica depois retido por baixo da gradilha. 

Mas temos um gato para quem o petróleo não deveria ser coisa que se cheire: esse “rapazinho” gosta de se passear por lá, até desconfio que bebe do tabuleiro quando o petróleo se acumula acima da gradilha. Coitado, é um magricelas que só cheira a petróleo – ganhou, por isso, a alcunha de Petrolino – se se descuidar à lareira é bem capaz de pegar fogo...