quinta-feira

Esforça o corpo, liberta a mente


Que bem se está à sombrinha, na espreguiçadeira, debaixo do telheiro, ao som do espanta-espíritos a tinir movido pela aragem. O reflexo da água do tanque nas telhas a fazer ondas. O zumbido dos moscardos aqui na sombra; o pio de um pássaro lá em cima no azul do dia, talvez milhafre; borboletas brancas bailam voando para lá do muro… 
Há lírios roxos pela borda da parede da adega além; é quaresma. Primeiro Mistério Doloroso: A agonia de Jesus no horto; Pai Nosso, que estais nos céus… – e a história daquele que foi mandado rezar o Pai-nosso todo, até ao fim, sem que o pensamento lhe fugisse para mais nada, sob o prometido de “se fores capaz dou-te uma junta de bois”, e ele a meio da reza pergunta se os bois viriam também com a canga! Perdeu. E eu também me perdi. Perco-me sempre que rezo. O pensamento vagueia. Tantas vezes me fogem os pensamentos, que tenho de repetir as ave-marias e um ou outro mistério que já não sei se foi ou não rezado. 

Calço as sapatilhas e faço-me ao caminho, antes que seja mordida por algum moscardo.