sexta-feira

Vindimas


Começa a cair o Outono sobre as terras e as gentes. Com ele vêm as vindimas.
Os carros de bois apetrecham-se de tinas e cestos para recolher as uvas vindimadas. No ar, um aroma doce paira juntamente com o sol por cima das nossas cabeças. Até parece que é o sol que é perfumado.

A mãe fez-me uma saia em plástico transparente, com elástico na cintura, para eu vestir por cima da roupa. Assim não me sujo nem me molho se chover. O meu cortar dos cachos para o cesto de verga é intervalado pelo depenicar de bagos saborosíssimos para a boca. Hoje é uma barrigada! A navalha que me coube para cortar os cachos não resulta tão bem como uma tesoura e é perigosa para os meus desastrados dedos, mas não havia uma tesoura para mim e, para o trabalho que eu faço, dá muito bem, foi a resposta que ouvi quando reclamei. Mas é uma aventura e um prazer andar pelo meio das videiras, quase encoberta por elas, e escutar as conversas dos adultos, que até se esquecem dos mais novos por ali à solta.
As mulheres, que andam a dias por dias nas vindimas de uns e de outros, nunca se fartam de tagarelar. Ali se desfiam vidas, próprias e alheias, se descobrem segredos guardados quase a sete chaves, mas, afinal, não tão bem guardados assim. A Manuela foi enganada pelo namorado; a mulher do ti Augusto Silva, já daquela idade, anda grávida outra vez, coitada; a Celeste já está a passar da idade casadoira e agora arranjaram-lhe uma alcofa com um rapaz que ela nem conhecia; a Alzira escreve-se com um rapaz que está no Brasil; o Zé da ti Olinda deixou a Rosalina, um namoro já de há uns anos, e enrabichou-se por uma da banda de além… e por aí afora: a ti Amélia e a cunhada agora não se dão por causa das partilhas do sogro e andam a pôr os homens delas, que são irmãos, um contra o outro…
As vindimas são de uvas e são de gente. E eu fico a pensar em como as vidas dos adultos são tão complicadas, ou como eles próprios as complicam. Nas vindimas cortam-se cachos e corta-se tudo, até os meus dedos. Pois é, cortei-me. Tinha que ser: com esta navalha, a minha distracção a ouvir o que não era para mim, e a minha natural aptidão para os desastres, só podia! O tio, que andava por ali a acarretar os cestos cheios de cachos para a tina no carro de bois, raspou, com a navalha, um bocado de feltro do seu chapéu preto e colou-mo no golpe para não saírem por lá as tais ditas “tripas grossas”, como de costume. Como, por causa disto, já não me dava jeito continuar a vindimar, segui carreiro acima até à adega.

Pela parede da adega trepa uma lagartixa e entra por uma fresta. Lá dentro é fresco. O chão é de terra negra pisada pelos pés, como pisadas pelos pés vão ser as uvas dentro do depósito de cimento quadrado. Ainda está vazio, à espera das uvas que vão chegar mais logo para se transformarem num mosto viscoso e peganhento que depois será vinho. Nos anos passados fui reparando nisso tudo: como as uvas eram pisadas e deixadas a ferver durante dias no depósito, sendo mexidas novamente com os pés, de vez em quando, até o vinho estar pronto a ser retirado para as pipas onde continuava ainda a ferver; como os engaços eram depois espremidos na prensa para fazer mais vinho – o vinho do repiso; e como estes engaços depois de espremidos eram abafados para fazer aguardente na alambiqueira.
Este ano não deverá ser diferente. Está tudo a postos.