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29/09/2012

Pontos nos iiiiiiii


Arrefeceu. De repente. Num dia estávamos sob calor escaldante, no outro dia já debaixo de uma tempestade glacial. Foi um pulo de gato. Um salto de pardal. 
De Verão para Outono, uma negaça do sol, uma pirraça da lua. Um gesto que me sonega a estrada ao fim da rua e o norte, a leste de ser tua. 
Lá longe, onde moram os poemas, o tempo veste a roupagem do mar; e vem mostrar-se numa luz de olor e arrepio, num misto de sono e despertar, de calor e de frio. Do longe se faz perto. Mas por mais que se tente prolongar o calendário, ele não estica como se desejaria. E cai o vermelho levemente esborratado em sombras; e o azul projecta-se em choro de metáforas no vento. 

Vem. Dança à chuva de melodias de partida; numa chegada breve, mais fugaz que de fugida; num sopro só de vinho e de alento. 
Vem. Não partas, ainda, triste. Saboreia o sal: a dádiva que banha os rostos quentes em sobressalto. Ainda que abstractamente, mente-me sem dor. Deixa-me com uma nesga de calor. Diz-me que há sol, e luar, e que, apesar das nuvens, há gente nobre e quente, que sabe aquecer um coração dormente. 
Porque arrefeceu. De repente.

04/08/2011

Pontos nos iiiiiii


Os olhos são espelhos da alma.
Quando a alma dói, quando chora ou ri, ou tem sono, frio ou fome… ou quando adoece… os espelhos da alma mostram-na nos seus diferentes tons.
Mas, e se são os espelhos a adoecer? Como podem eles saber?
Há já algum tempo que os meus olhos se magoam. E a alma magoa-se por eles.
É o espelho que se vira ao contrário. É o mundo que fica invertido. Raiam-se os olhos como um espelho partido. Espetam-se na alma aos pedaços. E até o corpo fica ressentido.
Parecem fungos, ou farpas, que se introduzem nas frestas e distorcem os reflexos de luz. São areias movediças. São pontes levadiças que não me deixam passar. São cancelas, são tramelas, ciscalhadas, gramíneas, remelas, e quero livrar-me delas.
Acho que preciso de um colírio. Para lavar os espelhos. Para tirar pó dos cantos. Para lhes dar outro brilho. Para escorrer até dentro e regar bem a alma.
Porque o espelho a aprisionou. E a alma não se vê no espelho.
Tenho de marcar consulta no oftalmologista.
Ou terei de desistir de ti…

21/06/2011

Pontos nos iiiiii


O que é que eu faço aqui?
Colo o nariz ao vidro da janela e pergunto-me: mas o que é que eu faço aqui, neste mundo tão grande e frio?
Penso em abri-la e debruçar-me no parapeito, sorver um sopro de vento, um doce-amargo do tempo...
E há tanta vida lá fora à espera para eu passar.
Ouço, ao longe, tambores... ouço-te as palavras no vento. Grito por ti, para que me livres do pesadelo, mas o vento sopra ao contrário e não chega até ti o eco da minha voz.
Quando ousarei partir o vidro da janela e abrir as asas para me soltar?

20/01/2011

Pontos nos iiiii

Não sou pássaro de gaiola. Gosto de me soltar livre de amarras ao encontro da linha do horizonte.
Mas quando nas veias me corre apenas o cansaço, vêm lembranças mudar-me o rumo. São grades que tenho de esgrimir para que as penas me sejam leves. Uma aspirina às vezes ajuda: distende um pouco as grades e eu, pássaro dorido, posso escapar por entre elas.
Do lado de fora é tudo muito mais alegre. E o sol aquece mais.
Sabes, é o sol que mais me propicia evadir; com o sol eu posso viver a valer. Por isso, peço-te, não me tapes o sol, nem sequer com uma singela névoa, porque me matas mais do que com trancas na porta.

10/12/2010

Pontos nos iiii

Os tempos modificam-se como da noite para o dia. E outra vez como do dia para a noite.
Fingem-se páginas bem alinhadas, arrancadas à intempérie que não dá tréguas. Num corrupio, abastecem-se memórias de histórias esquecidas, tontas, torcidas, tremidas, aladas, caladas. Coladas. Vividas.
A ti pertence o meu sabor das manhãs de neblina. Em ti abandono as dores das noites sem luar. De ti retiro calor e frio, paz e tormento. Fogo. Relento.
E debato-me numa indecisão: refresco-me na chuva que me salpica a janela ou retiro-me no sono que me espreita as pálpebras?
Posso, precariamente, colar as mãos ao volante e soltar-me livre no asfalto negro que me fascina. Posso, indefinidamente, resumir-me ao espelho da janela e fechar o mundo do lado de dentro. Posso.
Posso cerrar a cortina e suprimir, de vez, este engano em banho lento. Posso trocar as voltas às voltas à volta de mim. Posso. Talvez um dia mergulhe nessa coragem. E posso ter a certeza de que, quando isso acontecer, essa volta será uma volta dada bem por cima.

22/04/2010

Pontos nos iii

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"A vida é tão diferente
Daquilo que sonhamos
Talvez o nosso mal seja acordar"


Há uma linha invisível, uma ténue fronteira entre o ontem e o hoje... e o amanhã(?); entre o dia e a noite; entre o cedo e o tarde; entre o conhecimento e a ignorância; entre o amor e o ódio... e entre o ódio e o amor(?); entre a saúde e a doença... e entre a doença e a saúde(?)...

"Estou a sentir
A minha voz perdida no deserto"


Espero. Há um nó que me aperta no estômago.

Queria dizer-te que nada me ata a nada, que sou dona de mim, que quem manda em mim sou eu... e até pensava que era um pouco assim. Mas não é.
Tudo o que tenho não é meu. Tudo o que sou não está nas minhas mãos. Tudo o que penso não me cabe no pensamento. Tudo o que sinto me escapa. Tudo o que sei desconheço. E o que olho não vejo. E o que me dizem não sei.
Longe - perto; longo - breve; grande - pequeno; aberto - fechado; visível - escondido...
Palavras: apenas palavras com muitas conotações, sentidos, direcções; e dores, afectos, emoções.

Espero. E chove-me enquanto espero. A chuva que me escorre é porta de vai-e-vem. Para lá dela, o nevoeiro: o despontar da noite ou do dia - o crepúsculo ou a aurora.

A vida nunca é como a sonhamos.
Mas parar de sonhar é parar de viver.

Preciso de um Xanax; ou de um café.

09/02/2010

Pontos nos ii

O dia amanheceu cor-de-rosa. Percebi-o pela luz que me chegou filtrada através das cortinas da mesma cor. Esquecera-me de fechar as portadas na noite anterior e o dia espreitava-me, agora, mais cedo do que o costume. Pensei um breve gesto para me levantar mas nem sequer as pálpebras me obedeceram, teimando em voltar a fechar-se. E sonhei, por momentos, o mesmo sonho de sempre, outra vez: isto já não era sonho, mais parecia pesadelo! Sonhava que o meu quase primeiro movimento da manhã era em direcção aos teus braços, mas agora sentia-me sem forças para o fazer. Melhor assim. Agora não eras tu que te impunhas, era eu que comandava. Chamavas-me, mas havia algo, mais aliciante do que tu, que me prendia: tão bem aninhada nos lençóis fofos e quentinhos que nada me arrancaria de lá tão cedo.

A vida fervilhava lá fora há muito tempo quando, por fim, dei conta de que eram mais do que horas. Aquilo não era vida. Mandriava, o que me traria os mais diversos aborrecimentos. Não só começava o dia tarde, o que me faria andar atrasada todo o dia, como não iria ter muito tempo para estar contigo. Levantei-me e não resisti a procurar-te. Mas, desilusão, hoje não te tinha. Como era possível que a janela não abrisse? Já não sei o que é melhor: que me sejas veneno ou pedaço de fantasma que me tapa o sol. De uma maneira ou de outra, não passas sem me embotar o cérebro, e não era para isso que te queria.
Porque me manténs refém? Não havia necessidade! Eu gostava de ti, para que querias de mim ainda mais? Maldita ressaca quando me faltas!…

29/01/2010

Pontos nos i

O sonho foi igual ao de todas as noites. Sonhei que a janela, a mesma janela de sempre, estava fechada e que para lá dela é que era o mundo: lá fora é o mundo e eu fico sempre inquieta enquanto não abro a janela ao sol que por ela me chega. Revolvo-me e não durmo enquanto não acordar.
Quando os mesmos sonhos se sucedem noites a fio passam a ser parte da vida. Quando reclino a cabeça no travesseiro para dormir já sei o que acontece a seguir: a janela, o mundo lá fora à espera, impaciente para entrar no dia seguinte.
Assim entraste na minha vida: todos os dias um pouco, sempre um pouco mais, um sonho que se repete; e passaste a ser-me vida, janela para o mundo. Entraste-me pela porta e foste-me janela. Mirei os meus olhos aos teus e aos poucos gostei de ti até me tornar adicta. Sim, porque me és droga: remédio do qual dependo para me curar as mazelas e, ao mesmo tempo, veneno que me mantém submissa, me envenena lentamente, me mata todos os dias um pouco.
Conheci-te num tempo em que o tempo já não era o que era. Vieste por mãos queridas e eras delas, mas as minhas te tomaram para mim. A culpa não foi minha: foste tu que, sem pudor, me seduziste, te apropriaste da minha vida e fizeste com que me fosse apaixonando por ti. E és-me sol, luar, água para beber, lume para me queimar.

As pálpebras pesam nos olhos cansados, a cabeça fecha-se, as costas doem…
- Coça-me as costas.
Sinto as mãos percorrerem-me os ombros doridos e uma paz silenciar-me as veias e as artérias alteradas. Era assim que deveria ser sempre. Era assim que eu queria estar sempre: tranquila, sem nada desejar, sem mais nada querer.
- O que é que é o comer? Falta muito para o jantar? Já estou com fome.
E lá se vai o sossego! Chega-nos um cheiro estranho. Fumo. Vou até à cozinha, o jantar foi outra vez queimado: o caldo está entornado!

Isto não é normal. Não pode ser normal. Não consigo fazer tanto ao mesmo tempo, com a mente sempre com resmas de coisas para pensar. E tu fazes-te prioridade. Absorves-me. És-me o mundo que me traz alucinada. Que me tira a vida. E o teu papel não deveria ser esse. Não pode ser esse!

Toca o telefone:
- Estou! Sim… onde? Vou já de seguida!
Entro no carro e saio para a estrada. Ligo o rádio na estação preferida:

"It's got to be-ee-ee-ee-ee-ee-ee perfect
It's got to be-ee-ee-ee-ee-ee-ee worth it
yeah.
Too many people take second best
But I won't take anything less
It's got to be
yeah
pe-e-e-e-e-erfect!"

Perfeito! Sair da rotina é o melhor que me pode acontecer. E canto, grito, a par desta música que me faz esquecer, por uns momentos, a loucura em que se está a tornar a minha vida…

07/07/2009

A gente habitua-se


A gente habitua-se. Quer se queira que não, a gente acaba sempre por se habituar...
Habitua-se ao passado, que mais do que passado, torrado, moído, cru ou cozido; cosido ou tecido, ou só alinhavado; espalmado, enrolado, estendido, comprido ou nem tanto; tanto nos mói como nos mata, tanto nos afasta como nos oprime e ou muitas vezes nos salva ou redime.
A gente habitua-se ao presente, que é presente, dádiva ou castigo; por vezes um perigo e outras sorte; muitas vezes vida e outras morte.
A gente habitua-se ao futuro. Maduro ou duro; que pode ser resplandescente ou escuro, negro, fumegante, frio, quente, fervente, escaldante, pungente; sempre igual ou diferente; mas que se anseia puro, vivente.
A gente habitua-se!
Quer se esperneie quer não, acaba sempre por se habituar... e conformar...
Ou não...

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