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09/09/2026

Marcas… de água

A avó foi sempre uma mulher muito religiosa. Com ela aprendi, muito cedo, muita da doutrina que só iria aprender, mais tarde, na catequese. Agora, que já sou mais crescida, começou a falar comigo de mulher para mulher. Eu, ainda um pouco envergonhada pelo que ela me conta e ensina, começo já a sentir-me uma rapariga crescida. Nunca a mãe ousou falar comigo destes assuntos de mulheres. As coisas que ela já me contou! Nem sei se deva reproduzir tudo, pois são coisas de me fazer corar. Se a mãe sabe pode ficar aborrecida, com o génio que tem! Mas a avó diz que eu tenho que saber estas coisas, que são muito importantes para uma mulher. Ela contou-me que há meninas com a minha idade que já são mulheres e que eu também posso ser brevemente. Ser mulher quer dizer que irei ter a menstruação uma vez por mês. Esta é um sangramento que indica que o meu corpo está preparado para poder vir a ter filhos. Por isso, não me convém que eu brinque com os rapazes, porque as mulheres devem ser recatadas, e eles não têm que saber nada disto.
Ela contou-me que, no seu tempo, as meninas não sabiam de nada e eram apanhadas de surpresa quando sangravam pela primeira vez e algumas ficavam aterrorizadas a pensar que iam morrer. Mas com ela foi diferente. Contou-me que foi mulher muito tarde. Tinha quase vinte anos, já namorava até o avô, e menstruação nada. Foi preciso ir para a praia, no Verão, durante quinze dias. Lá, um banheiro dava-lhe banho no mar todos os dias logo pela manhã, que ela até engolia uns pirolitos. Como eu não sabia o que eram pirolitos, ela explicou. O que me lembrou o que um amigo das minhas outras duas primas também há dias me fez.

Estas minhas primas, a Graciete e a Sílvia, são filhas da minha tia Rosária, irmã da minha mãe. Alguns domingos, depois da missa, fico com elas toda a tarde. Num destes domingos fui com elas e os tios à praia. E foi lá que encontraram o tal amigo. Este queria brincar a empurrá-las para dentro das ondas. Elas fugiam e como ele não as apanhava, fui eu que paguei. Pegou em mim ao colo e mergulhou-me numa onda enorme. Como eu não estava a contar, engoli muita daquela água salgada, não só pela boca mas também pelo nariz, que até me engasguei toda. É isso que é engolir um pirolito.

Com os banhos na água do mar, a avó ficou, finalmente, menstruada pela primeira vez. Diz que sangrou tanto que a melhor solução que encontrou foi a de vestir umas ceroulas do pai dela, porque diz que no seu tempo as mulheres não usavam cuecas. Perante a minha cara de espanto, ela pareceu-me um pouco embaraçada, mas lá foi contando que as saias eram compridas e que usavam uns saiotes que, nessas alturas, enrolavam às pernas presos com um alfinete.
Pronto, não me parece que deva entrar em mais pormenores. Mas que ela me tem ensinado muito... isso tem!

(Publicado em livro: Memória Alada, 2011)

01/09/2026

A molha


Os pingos grossos de chuva levantaram o cheiro a terra molhada. 

A manhã acordara suavemente, com ténues raios de sol a espreitar por entre as nuvens que anunciavam a primeira chuva do Outono. Esperá-la tornou-se em ânsia crescente à medida que ela mais se fazia adivinhar.
E ela, então, espreitou ao longe. Observei-a a começar, para lá do arvoredo, a pintar tudo de branco até chegar aqui. 
Primeiro um pingo. Logo outro e outro… e o cheiro a terra molhada a elevar-se com a suavidade e doçura de um chupa-chupa, que apetece saborear devagarinho. 
Chamei-a, “vem chuva, vem!...”, e ela não se fez rogada. Veio lamber o alpendre de um lado ao outro, enquanto eu, com uma vassoura, a ajudava a poli-lo de um brilho molhado apetecível, removendo a sujidade à sua frente. De pés descalços na água morna, cabelo e roupa a escorrer, senti-me a brilhar mais do que o alpendre. Toda eu era riso por dentro e por fora, feliz por poder apalpar o Outono que me beijava. 

Agora, depois de ter ouvido das boas da mãe e de mudar de roupa, olho-o da janela, de cara encostada ao vidro embaciado. O Outono e a chuva podem ser sonhos quentes que molham o rosto e embalam a alma. A mãe, sempre tão azeda e fria, sabe lá alguma coisa disso!

02/08/2026

Cresci


Chegou o Verão e, com ele, as férias grandes. …
Eu gosto do quentinho do Verão. Do cheiro das flores dos pinhais, que a brisa da tarde me faz chegar, quando passo lá perto. E também do canto das cigarras. Só tenho medo duma coisa: das cobras que costumam aparecer nesta altura.
E gosto das idas à praia. Mas este ano preciso de um fato de banho novo, pois o que tenho já é pequeno. Acho que cresci muito desde que comecei este caderno. Já foi há tanto tempo, que as páginas até já estão soltas.
Sim, é verdade: cresci. Quando o comecei, andava na terceira classe e agora já acabei o segundo ano do ciclo… quero dizer, acabei a escola, pois já está decidido que não vou continuar. Os pais pensam que aceitei isso pacificamente, mas eu, embora não tenha feito dramas, sinto alguma revolta dentro de mim, pois não era isso que eu queria. E pior me sinto quando a mãe repete, para quem a quer ouvir, o que os professores disseram que “quem é bom é que sai!”. Mas, um dia, ainda hei-de ganhar coragem e dizer-lhes, bem na cara, que me quebraram as pernas!
Quebraram-me, sim, as pernas e, com elas, os sonhos de vir a ser professora.
Posso dizer que a minha meninice morreu. Cresci.
Ao longo deste tempo fui aqui rabiscando alguns retalhos soltos, como soltas se acham as folhas do caderno, da vida desta infância que agora me foge. De fora ficaram muitas coisas por contar, que se perderam no tempo, e que este se encarregará de, aos poucos, talvez, apagar completamente.
A minha história mais que perfeita acaba aqui.
Agora só quero um fato de banho novo.

06/07/2026

[3] O Moinho das Sapatilhas



- Onde é que estiveste, Maria? Que eu andava aflita à tua procura!
- Estive a dormir… – Desculpei-me.
- Muito dormes tu! Porque é que não dormiste aqui, na cama do Álvaro?
Encolhi os ombros. Ela ficou a pensar que eu tinha ido para minha casa, dormir na minha cama, sem lho comunicar.
A minha tia é uma mulher grande. É por isso que tem uma alma grande, assim do tamanho dos seus braços. A casa dela é ao lado da minha e é um pouco minha também, pois é aqui que passo a maior parte do meu dia.
Na minha casa nunca está ninguém e a minha mãe não tem tempo para mim, e na da minha tia é só ela e eu. O tio faz trabalhos de carpintaria para outras pessoas, sai de manhã e só volta à noite, e o meu primo Álvaro está no Seminário. Por isso, todo o mimo da tia é para mim.
A casa da tia é enorme, com um grande jardim e um terraço por cima da garagem, onde estamos agora.
A tia estende a roupa na corda que está à volta do terraço, enquanto eu perco os olhos ao longe. Os meus olhos vão ficando cheios com toda a maravilhosa paisagem que captam. Conseguem vislumbrar, para lá dos pinhais que se estendem a sul, as velas enfunadas de um velho moinho de vento que, imagino, encerra em si toda a espécie de contos de fadas e histórias mirabolantes de príncipes e princesas.
- Para onde é que estás a olhar tanto?
- Olhe, tia… – aponto com uma réstia de sonho – é o Moinho das Sapatilhas!...

(Publicado em: Memória Alada, 2011, pág. 13)

11/11/2025

Po-esia

Um dia meio pardo, com o sol a espreitar aqui e ali.

A bicicleta do pai chamou-me, luzindo numa nesga de sol que lhe pousou.

Não me fiz rogada, pois para brincar estou sempre pronta.

Aprendi, não há muito, a andar de perna traçada sob o quadro daquelas rodas enormes, e depressa fiquei viciada em pedalar, agora sentada no selim.

Afoita, já sem os pés no chão, vá de enrolar com os pedais, fazendo girar as rodas, para que a bicicleta tomasse balanço e depois, sem esforço, só a guiasse ladeira abaixo levando-me à boleia.

E era como se tivesse asas… poesia para voar.

Sem os pés assentes no chão, no que é o real, tanto pode haver poesia, como só e apenas o pó, da po-esia.

A bicicleta voou pela descida acentuada, como se a estrada fosse céu, mas eu não tinha pára-quedas. 

Sem ser capaz de acompanhar o voo, com medo de não fazer a curva lá em baixo, atirei-me para a barreira do terreno do lado direito e fiquei ali caída para trás, enquanto a bicicleta foi rolando certinha e direitinha, até se espetar contra o portão da casa azul ao fundo.

Quando o chão deixa de ser esse céu de poesia, para passar a ser apenas o pó que nos envolve, também se cai por dentro; ainda que às vezes seja apenas uma paragem mais ou menos pequena, antes de tornar ao voo.

Felizmente, apenas sofri uns arranhões e a bicicleta não se estragou muito; só tive de me esforçar um bocado para lhe endireitar o guiador e depois, ladeira acima, trazê-la de volta, apeada.

28/12/2024

Presépio na Montra e a revisita


Volto ao presépio do tio Zé. O fascínio das suas figuras impeliu-me a revisitá-lo e a observá-lo mais demoradamente.

São figuras pequeninas, de barro pintadinho de cores bonitas, que na sua simplicidade tornam este presépio num lugar mágico, cativante, onde se misturam a criatividade com o belo; e como que a pureza sobressai e vem ao nosso encontro e nos quer falar.

Detive novamente o olhar na figurinha mais intrigante para mim: o Ano Velho com o Ano Novo às costas. Como cheguei a pensar que seria o Pai Natal carregando o Menino Jesus, tenho de o apreciar melhor. Que nos quererá mesmo dizer esta figura no presépio?!...

Que o tempo não termina com o fim do ano, mas continua em tempo Novo, ou renovado?...
Que o tempo de Natal tem o fim do ano e o início de outro pelo meio?...
Que um ano passa o testemunho de Natal ao outro ano?
Que Jesus Menino não é só no Natal, mas se transporta de um ano ao outro?

Sim, para esta figura estar no presépio, terá algo a ver com Jesus...

Ano velho e Ano Novo: dois tempos… figurando num homem velho carregando um Homem Novo! O Tempo que passa e que vem Menino ao nosso mundo… na “plenitude dos tempos”.

Ah, será que quererá significar que no Natal há um ano velho que acaba e um ano Novo que começa?... um antes e um depois? que ali há um marco histórico e sobrenatural? Um tempo velho e um tempo Novo?

Se o nascimento de Jesus é uma boa notícia, uma Boa Nova, será que nos vem dizer para deixarmos para trás o que é velho e começar o Novo?... ou de novo? que o que em nós é velho tem de dar lugar ao novo, ou renovado?...

Tantas interrogações a que uma simples figura nos pode levar!...

Mas acho que sim, que é isso... – uma coisa é certa: não podemos ficar indiferentes ao Natal, que é tempo de nascimento, de nascer sempre a cada ano, outra e outra vez, nascer de Novo, nascer O Novo. O Homem Velho dá lugar ao Homem Novo. Homem Novo que é Jesus, e que tem de ser também cada um de nós que O ama e segue.

O velho tem de dar lugar sempre ao Novo, à novidade – o velho tem de carregar sempre o Novo, como a criança de colo que fomos tem de ser carregada e mantida sempre em nós, pura, perfeita, inocente, humilde e linda.

Pois que se vá o ano velho que em nós se instalou e um Ano Novo connosco viva, em revisita constante de Jesus ao nosso mundo, ao nosso eu.


08/01/2023

Presépio na Montra e A Fuga para o Egipto


Este meu presépio aqui na montra da loja é bem mais pequeno do que o do tio Zé. O dele é enorme! Estende-se pela adega além, em cima de um palanque de tábuas para dar uma altura, que foi revestido até ao chão de papel pardo, retirado de sacos grandes de farinha, enfeitado depois com fitas e bolas coloridas e brilhantes. E o mais importante: tem imensas figurinhas. Perco-me a observá-lo sem nunca me cansar. A cada Natal há sempre mais coisas que o tio vai acrescentando: luzes, água, um ou outro movimento, campainhas que tocam ao ser puxado um cordel que vem pela parede até à porta…
Para além das figuras iguais às que o meu presépio também tem, há outras que me causam alguma estranheza e admiração. Gosto tanto de apreciá-lo e de fazer perguntas! Ó tio, o que é este? Ó tio, e este? Ó tio, e ali aquele?... E o tio com a sua paciência pachorrenta vai-me explicando, como quem está a ensinar catequese – o tio é catequista.
 
Por exemplo, tem um velhinho de barbas brancas com um menino pequenino às costas: diz o tio, que é o Ano Velho que traz o Ano Novo. Tão giro! Nunca tal me passaria pela cabeça: o Ano Velho e o Ano Novo em figura de gente... (e enquadrado no presépio... humm... um homem velho carregando um Homem Novo! Algo a ver com Jesus terá... ainda cheguei a pensar que seria o Pai Natal e o Menino Jesus, que tola, sei lá!...)

Intrigou-me também uma figura de uma senhora que puxa pela mão, como que arrastando, uma criancita que parece ir a chorar. Lá mais atrás uma figura de um militar empunhando uma espada. O tio diz-me que a senhora e a criança vão a fugir dos soldados do Rei Herodes, aquele malvado, que mandou matar todos os inocentes meninos pequenos até aos dois anos de idade, para ver se entre eles apanhava o menino Jesus para o matar. Pois se Jesus é o Rei dos Judeus, pensava ele que vinha usurpar-lhe o seu lugar no trono, não percebendo que o Reino de Jesus é um reino de paz, de amor e de graça de Deus, de vida, de verdade e de justiça; um reino bem diferente dos deste mundo. 

Também detive o olhar, mais além, num burrito que carrega Nossa Senhora com o Menino ao colo, com S. José adiante a pé, segurando o burrinho pela arreata. Conta que vão em fuga a caminho do Egipto, para que Herodes não apanhe e mate o Menino. São José tinha sido avisado num sonho, por um anjo, para que fugissem para o Egipto e por lá permanecessem até que passasse o perigo e lhe fosse transmitido que poderiam regressar.


27/12/2022

Presépio na Montra – Os Reis Magos


Aqui estão, no presépio, Gaspar, Baltasar e Melchior: três Reis Magos, montados nos seus camelos, vindos de longe, dos lados de Oriente. Vêm há vários dias guiados por uma grande luz brilhante de uma nova Estrela, para ver e adorar o Messias Prometido, o Rei de Israel.
 
Para trás já deixaram o castelo do Rei Herodes, a quem foram perguntar se ele sabia onde tinha nascido o Rei que eles vinham visitar, pois que a estrela que os guiava tinha-se encoberto ali perto de Jerusalém e não sabiam para que lado caminhar. Sentindo-se abandonados à sua sorte, não sabendo onde procurar, pensaram que talvez pudesse ser naquele castelo.
 
Mas Herodes não sabia de nada, tendo ficado curioso; então disse-lhes que também queria saber e que lhe viessem dizer quando o encontrassem, pois também gostaria de O visitar. (Mais tarde veio a saber-se que essa sua visita, a acontecer, seria tudo menos amigável). E ali ficou ele, à porta do seu castelo, com cara de poucos amigos!
 
Então os Magos viram de novo a estrela e seguiram-na até à gruta de Belém onde estava Jesus. E ali O adoraram e ofereceram-lhe os seus presentes: ouro, incenso e mirra. 

Depois, sendo avisados em sonhos para não voltarem ao castelo de Herodes, pois as intenções dele não eram boas, escolheram um caminho diferente para voltarem às suas terras.


Há quem diga que haveria ainda outro Rei Mago que ficou para trás no caminho, perdendo-se entre a procura do Menino e a ajudar necessitados, que lhe surgiam ao longo da jornada, com as prendas preciosas que levava consigo como presentes para oferecer ao Rei recém nascido. Sem que conseguisse encontrar os outros Magos e nem o seu olhar alcançasse mais a Estrela de Belém, passaram-se muitos anos até encontrar Jesus, só aquando da Sua crucifixão e morte; aí vindo a saber que O tinha encontrado durante toda a sua vida, nas pessoas a quem tinha amorosa e generosamente ajudado. 

Não sei o seu nome. Mas, quem sabe, esse Mago viesse a inspirar um velhinho de barbas brancas a quem chamam agora Pai-Natal?...
 

12/12/2022

Presépio na Montra – Que Alegria!

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Ora bem: naquela região, perto da gruta que deu guarida a Maria e a José, e onde o Menino Jesus viria a nascer, andavam uns pastores que guardavam os seus rebanhos e por lá pernoitavam, coitados! Se calhar tinham de dormir nalguma gruta que por lá houvesse, ou nalguma cabana improvisada, senão teriam de dormir ao relento e ao frio junto com as ovelhinhas. 

Não sei quantos seriam, mas ainda me restam aqui dois. Vou fazer umas elevações com pedras e cobri-las de musgo para dar o ar de serra, e colocar as duas figuras dos pastores, mais dois cãezinhos que ajudam a guardar os rebanhos, e as ovelhas que me restam e que já só dão quatro a cada pastor: pobres pastores, até no número de ovelhas são quase miseráveis!  Pobres entre os poucos animais, que mal davam para se aquecerem uns aos outros nas noites geladas de invernia!

Então era de noite, mas uma luz bem forte, que eles viram brilhar, fez-lhes ver tudo como se fosse de dia: era um Anjo que lhes vinha anunciar o nascimento de Jesus: 

“Anuncio-vos uma grande alegria: 

… Nasceu-vos um Salvador. 

… Encontrareis o menino envolvido em panos e deitado numa manjedoura.” 

 Depois juntaram-se, àquele Anjo, outros Anjos que cantavam em coro: 

“Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens por Ele amados!” (cf. Lc. 2, 10 – 14) 

Agora é que vai!… só tenho uma figurinha de Anjo, com uma faixa escrita: “Glória a Deus nas Alturas”! Vou pôr o Anjo junto aos pastores e, para já, fica assim. Depois hei-de fazer outros anjos em cartolina e pendurá-los na árvore de Natal, para dar a ideia de que andam a voar e a cantar por ali. Sim, porque era o Filho de Deus que acabava de nascer, e até os Anjos do Céu vieram cantar. Uma alegria contagiante, pois o Messias esperado pelas pessoas, o Salvador, já estava no nosso mundo para trazer a paz tão ansiada! 

Por isso, todas as pessoas do mundo e de todos os tempos foram depois contagiadas por essa alegria. E, daí, podem aparecer muitas figurinhas no presépio: de muitas profissões, regiões e de tempos mais antigos e mais actuais. 

Assim, o presépio é uma maneira muito linda de recordarmos o nascimento de Jesus e do quanto Ele é importante para nós, nos trazendo Esperança num mundo melhor.

(continua)

20/12/2021

Presépio na Montra – continuando

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Mas como são cada vez menos, as figurinhas!... 

Ah, pois... lembro-me de que no ano passado, o meu amigo Zeca me pediu para trocar algumas comigo, das que eu tinha repetidas… mas conseguiu levar-me à certa, deixando-me bem menos das suas do que eu lhe dei das minhas. Das ovelhas levou-me metade do rebanho e, dos músicos, fardados a rigor, ficaram poucos, já nem parece uma banda filarmónica completa… que tonta que eu fui! Bem, é certo que me deu este moinho, parecido com o moinho das sapatilhas, que o meu moleiro não tinha casa; e este poço para a minha lavadeira tirar água e lavar as suas roupas, e mais umas bolas para a árvore de Natal que encontrei agora aqui misturadas com as fitinhas prateadas; por falar nisso, ainda me falta apanhar o pinheiro. É sempre um problema isso, pois, num ano destes que passou, apanhei uma ralhadela do pai por ter cortado um onde não devia, disse que estraguei um pinheirinho novo que estava a crescer e que fazia lá falta. Agora não sei o que faça… se vá procurar algum para cortar – mas eu sei lá onde é que não fará falta?! – ou se não faço árvore de Natal… na verdade, acho que mais importante é o presépio, que representa o nascimento do menino Jesus, e é o que comemoramos no Natal: o nascimento de Jesus. Mas a árvore de Natal, costumava erguê-la por cima da gruta do menino, como que para proteger das investidas da invernia e dar algum aconchego e abrigo àquele local tão inóspito onde teve de nascer o rei dos reis, por não haver lugar para eles nas hospedarias de Belém. É que estavam todas cheias de pessoas vindas de outras regiões, tal como José e Maria que tiveram de vir de Nazaré para darem os seus nomes no recenseamento na cidade onde pertenciam. Tão longe a caminhada a pé, apenas Maria sentada no burrito, pois estava de gravidez avançada e ser-lhe-ia muito penoso vir a pé todo o caminho. Coitadinho do burrito, um bom serviço que prestou a Maria e a Jesus! E, depois, juntamente com a vaquinha que dormia na gruta, ainda aqueceu com o seu bafo o menino depois de ele nascer.


24/05/2018

Se chove...


Chove. Chove se chove!

A andorinha estacionada no fio do telefone espaneja as asas de consolação.
Agora: um relâmpago, seguido de trovão que ecoa céu cinzento além.
A andorinha, porém, continua no mesmo sítio, alegre no seu banho de chuveiro, soltando, de vez em quando, a sua cantilena de satisfação.
Em baixo, dois melros pulam no tapete verde molhado do pasto verde recém-cortado; outra andorinha rasou o muro alto, indo enfiar-se debaixo do telheiro, direita ao ninho acolhedor das suas crias, que lá vivem o seu pequeno mundo o dia inteiro.

Os melros acabam por abandonar o recinto; e a andorinha, não minto, continua no seu duche matinal; ao mesmo tempo que um outro pardal se passeia em pequenos voos rasantes às folhagens verdes das plantas do canteiro do quintal, nelas pousando aqui e ali sem se demorar, beijando pérolas luzentes e macias de água, como quem as quisesse namorar.

A chuva abrandou um pouco, e a andorinha deu por finalizada a sua mais que tarefa refrescante sagrada. Foi e voou pelos ares na parda madrugada, enquanto eu observava pela janela, encantada.

Logo logo, a chuva recomeçou. E a andorinha voltou. Ao mesmo preciso lugar. E dali mirava o mundo ao redor. Era a sua praia. 

Eu é que não me posso quedar mais tempo à janela a mirar, não vá o mundo fugir ou parar. Daqui para a frente, se quiser escrever o que a andorinha fizer, só se me propuser inventar.

E se chove!...

10/12/2017

Presépio na Montra I – Nem que chovesse


O dia tem estado chuvoso. Uma chuva miudinha molha-parvos, que deixa o tempo baço, tipo nevoeiro denso.

Depois do almoço, observei, pela janela, que o fusco do dia estava a querer aliviar, a raiar uma pequena luminosidade. Sim, parecia uma *aberta. Saí à rua para confirmar se não chovia. Era, de facto, uma aberta e tinha de aproveitá-la. Calcei as botas e vesti uma capa impermeável para o caso de a chuva voltar. Peguei numa caixa de papelão e fiz-me ao caminho.

Sabia onde o encontrar. Lá em baixo, para lá da curva da estrada, a seguir à ladeira. E lá estava ele, em manchas verdes, na barreira inclinada. Pousei a caixa de cartão e toquei com as mãos aquele tapete luzidio de musgo fofo e húmido; mas não estava muito encharcado quando arranquei um pedaço grande, com muito cuidado para não se despedaçar. Queria-o o mais inteiro possível, mas sem ser maior que o tamanho da caixa.

Depositei-o no fundo do caixote e arranquei mais até o encher de alto coruto. Não me demorei muito nesta tarefa. O musgo era abundante ali, eu já o sabia.

Carreguei esse volume pela estrada acima, mas tive de parar algumas vezes pelo caminho, pousando-o na berma da estrada molhada, para descansar um pouco. Estava a querer começar a chover de novo, tinha de me despachar. Ainda por cima o fundo da caixa começou a ceder com a humidade e o peso e… caramba!, rompeu-se quando o tentei levantar do chão depois de mais uma paragem. Baixei-o logo, não dando tempo a que o musgo se esgueirasse pelo fundo abaixo. Tinha-lhe pegado pelas bordas do fundo, mas não era capaz de o abraçar todo com as mãos por baixo – ai, esta minha falta de habilidade… O que valeu é que já estava perto de casa. Deixei-o ali e fui a casa, direitinha à oficina do pai, à procura de algo que me desenrascasse. Encontrei uma pequena tábua fina e estreita – minha tábua de salvação – que seria pouco mais comprida que o caixote. Levei-a e enfiei-a por debaixo da caixa. Levantei o peso com algum esforço, agora parecia mais pesada ainda, ou seria do meu cansaço de andar para cima e para baixo, apressada com medo da chuva, que ameaçava. Mas nem que chovesse! Ele não ficaria lá.

Trouxe-o para casa, ainda antes que os pinguinhos miudinhos caíssem outra vez. Agora aqui está ele a postos para poder montar o presépio.
__________
*aberta = pausa na chuva até voltar a chover

28/04/2017

Gaivotas II


"Uma gaivota voava, voava,
Asas de vento,
Coração de mar.
Como ela,
Somos livres,
Somos livres de voar."


O dia entardeceu nublado. Aproximei-me do mar para lhe sentir o fresco. O areal cheio de gaivotas pousadas na areia. 
Dizem que gaivotas em terra significa tempestade no mar. Que quando o mar está agitado, as gaivotas vêm para a terra. Será isso um sinal a avisar que vai haver tempestade no mar?... O povo também diz: Gaivotas pela terra adentro, sinal de mau tempo. Pressentirão elas o mau tempo? Não sei. Eu gosto de as ver, ao longe. São tão bonitas no ar! Quando voam são muito bonitas, e em terra também o são. Junto ao mar têm-me feito companhia, horas a fio, em dias óptimos e mar espectacular. E marcam a distância: se tento aproximar-me, lá vão elas em voo. São bonitas, ao longe. Fascinam-me com a sua beleza. 

Ontem também notei que havia algumas gaivotas onde o mar não é assim tão perto. Andavam à procura de alimento. Uma, que parecia ter uma pata ferida, pulando só na outra pata, ficava para trás. Fiquei com pena. 
Lembrei-me do rifão que também já ouvi: gaivotas por terra, ou fome ou guerra. Seja como for, gosto das gaivotas! São como todos nós, como todos os outros seres vivos empenhados na sua sobrevivência. Gostam de peixe, quando há. Quando não têm, comem o que encontrarem. 


Canto e recanto aquela canção da gaivota. Uma música simples, canção de embalar, que me emociona. No caminho das pedras é promissor - o que quer que venha, será, com certeza, melhor. A ingenuidade, se calhar, assim me o dita. Meus quinze anos – tempo de semear sonhos. 
Fecho os olhos para sentir os sonhos com mais intensidade, e para não sentir mais nada. 

Pois eu gosto das gaivotas! 
Espero que sejam felizes. Como elas, espero ser livre e feliz.

O tempo está bom para semear sonhos…

22/12/2016

Presépio na Montra – introdução


Fui buscar as figurinhas do presépio ao sótão, onde estavam guardadas, desde que o presépio foi desmanchado depois do Natal passado. 
Vou-as tirando do caixote, uma a uma, para cima de uma pequena mesa que está a um canto na loja. São muitas, algumas partidas que tenho de colar. Um fascínio admirá-las, uma alegria voltar a fazer o presépio neste Natal. Contemplo-as à medida que as vou segurando nas mãos e pousando na mesa. Ovelhas e pastores. O pescador; o cavador; a vendedeira de bolos; a lavadeira; o moleiro e o seu burrico carregado de taleigos; uma banda filarmónica, de músicos todos fardados de azul, a tocar os seus instrumentos: de sopro e tambores; o fogueteiro; um padre; um galo; o anjo que anuncia o nascimento do Menino. São José e Maria – Nossa Senhora. Jesus. Jesus – o Menino Jesus tão pequenino – a figura central do Presépio. Mais outra figura do Menino Jesus um pouco maiorzinha, com um bracinho partido (quero ver se o encontro misturado com as restantes ou no fundo da caixa). A vaquinha e o burrinho, que aquecem o Menino. Um moinho; uma casa; um poço; uma ponte; o sapateiro; o ferreiro; a senhora que assa castanhas. Vários bocadinhos partidos, entre eles o bracinho do Menino. O Rei Herodes. Um peixinho encarnado com uma ponta do rabo partida já há muito tempo – sempre o conheci assim; um pato todo branquinho e outro com um chapéu azul na cabeça e laçarote amarelo ao pescoço. Os três Reis Magos: Gaspar, Baltazar e Melchior.

São muitas, embora este ano já sejam menos...

17/03/2016

Considerações a petróleo



Aos domingos, depois da missa, costumo passar por casa da minha tia Rosária, que é pertinho da igreja, e ficar com as minhas primas, Sílvia e Graciete, a ver televisão. Dá sempre o Tarzan àquela hora e eu gosto de assistir. Em minha casa não temos televisão porque não há luz eléctrica na minha aldeia. 

As minhas primas é que têm sorte: assim, com luz eléctrica em casa, não precisam de lavar chaminés de vidro, farruscadas, dos candeeiros a petróleo. Já a mim, é trabalho que me calha quase todos os dias. Às vezes lá se vai uma chaminé… que azar! Escorrega da mão e, trás! era uma vez uma chaminé de vidro! 

A avó Maria é que me ensinou a lavar as chaminés, com muito jeitinho, dentro de um alguidar de zinco com água, usando um trapo e sabão azul e branco, e a secá-las depois com papel de jornal. Dizia que as minhas mãos, porque pequeninas, é que eram boas para fazer esse trabalho. Mandava-me também encher de petróleo os candeeiros : “põe tu, menina, põe tu, que eu não gosto nada desse cheiro.” 

A mim, o cheiro do petróleo nunca me fez diferença, habituei-me a ele desde pequenina, na loja, quando as freguesas o vinham comprar e eu observava o mano António a medi-lo por umas medidas de latão: de um litro, meio litro e um quarto de litro. Agora já sou eu que o avio e não me importo nada. Por baixo da torneira do bidão temos um pequeno tabuleiro em latão, que tem dentro uma gradilha esburacada de chapa onde assentam as medidas. Se a torneira pinga, ou quando se enchem as medidas demasiado e transbordam, não se perde nada, pois o tabuleirinho serve para aparar o petróleo que cai e fica depois retido por baixo da gradilha. 

Mas temos um gato para quem o petróleo não deveria ser coisa que se cheire: esse “rapazinho” gosta de se passear por lá, até desconfio que bebe do tabuleiro quando o petróleo se acumula acima da gradilha. Coitado, é um magricelas que só cheira a petróleo – ganhou, por isso, a alcunha de Petrolino – se se descuidar à lareira é bem capaz de pegar fogo...

14/11/2015

O Sonho Que Me Foi Negado


Tenho corrido atrás de um sonho, sem nunca o conseguir apanhar. Fiz agora uma tentativa: comecei por estudar Matemática por um livro do meu primo Álvaro. 

Estudar foi o sonho que me foi negado; e ler, aquilo que me vai sendo permitido, desde que eu consiga encontar leituras. Depois de esgotadas outras fontes, procurei na casa da tia Mila. Os livros do Álvaro estavam lá quase todos, e a tia tem vindo a emprestar-mos a cada vez que vou a casa dela. Deixo um e levo outro. 

A casa da tia exerceu sempre um grande fascínio sobre mim, desde que me lembro de fugir da minha casa para a dela, ali lado a lado uma com a outra. E, agora, que moro um pouquito mais longe, continua a ser uma enorme atracção: pelo seu enorme jardim que o tio tem bordado a pontos de pedras selvagens, com o esforço das suas mãos e da sua poesia; mas também pelo amor que os tios nunca deixaram de me dedicar. Ali sinto-me tão bem! Sinto-me em casa. Porque nos sentimos em casa quando nos vimos recebidos com afecto e carinho; então o nosso coração não só não se desapega desse lugar, como o busca cada vez com mais frequência. 

E, assim, é como se a casa da tia Mila fosse, agora, a minha biblioteca particular, depois de ler tudo o que havia na minha casa para ler. Primeiro, os romances foram a minha sedução; agora, o livro de Matemática. Sempre gostei muito de Matemática, tanto ou mais que as outras disciplinas. Letras e números ensinam-me a saborear a vida, dão-lhe colorido nos meus dias apagados, cinzentos, vazios do ar quente que me leve a flutuar e planar acima da terra. 

Quem sabe se eu estudar tudo muito bem e for fazendo os exercícios, possa ir aprendendo tudo e, depois, assim que surgir uma oportunidade, fazer um exame… 

Por agora vou estudando. Quando acabar este de Matemática hei-de pegar nos outros todos, um a um, e o futuro a Deus pertence.

27/02/2014

A Amizade


A amizade é parecida com um ninho com passarinhos. 
Depois de feito o ninho, vem a avezinha e põe um ovo, e mais outro, e às vezes mais dois ou três. E depois, a avezinha passa o seu tempo a chocar os ovinhos até eclodirem em nova vida. Depois alimenta as crias até elas criarem penas fortes para o voo. Depois, bem… depois, depois… não pensemos nisso. 

Conheci a Carla. Veio pela mão da Nela que me a apresentou. É de Lisboa, mas veio até à aldeia passar férias em casa da Nela. Ficámos amigas. A Nela tanto mora cá como mora em Lisboa, quero dizer: ela é de cá mas andou sempre na escola em Lisboa, vindo cá bastas vezes, tantas quantas a escola lhe permite. E todas as férias são cá. Somos boas amigas. E a Carla é a sua amiga de lá. Agora também é minha. 

Como eu não tenho ordem de sair, pois tenho que tomar conta da mercearia, são elas que vêm ter comigo. Passamos muito tempo aqui as três. A ouvir rádio – telefonia, como elas dizem – a conversar sobre coisas de lá e de cá, a partilhar jogos e lenga-lengas, a ler revistas e fotonovelas, trocar confidências… isto nos intervalos, quando não tenho fregueses para aviar. Quando estamos juntas parece que o mundo pára. É como a ave que choca os ovos no ninho! Elas como que não saem de cá e eu sinto-me bem assim com elas.

Há dias apareceram-me aqui com um inquérito, rabiscado nas folhas de um caderno, para eu lhes responder. A primeira folha para pôr o nome. Em cada folha seguinte uma pergunta. Já havia várias respostas que outros tinham dado; eu só tive que escrever as minhas. É interessante, lúdico, como se fosse um jogo. As perguntas são variadas, sobre os mais diversos assuntos: Qual é a comida que mais gostas? Qual é o teu clube de futebol favorito? Qual é o teu artista preferido? Tens algum animal doméstico? E outras assim do género. Muitas. Até à última folha. Depois eu também quis fazer um caderno com um inquérito assim para mim. Copiei as perguntas, troquei algumas e ainda acrescentei outras que achei relevantes, para lhes fazer a elas e aos outros meus amigos. Acho que é uma boa maneira de conhecer um pouco melhor os amigos, os seus gostos e preferências. Assim podemos ir vendo quais são as coisas em que coincidimos e aquelas em que somos divergentes. Mas lá por se ter alguns gostos diferentes não quer dizer que se ponha de lado esses amigos, pelo contrário, na diferença é que nos podemos completar uns aos outros e trocar saberes, e assim enriquecer os gostos uns dos outros, partilhando experiências para aprender sempre mais. 

É muito bom quando se tem amigas e amigos. Se não fossem eles o tempo seria muito vazio, como se uma avezinha não tivesse aprendido a voar e se limitasse sempre ao chão. Assim com amigos, ao menos, dá para espanejar um pouco as asas ao sol. Muito embora saibamos que as suas asas também empreenderão outros voos.



06/10/2013

Para lá das Estrelas


Encosto-me, na noite, aos vidros da janela do quarto. As estrelas brilham no céu. Colo-lhes o meu olhar e fixo uma em especial. A minha. É uma estrela no meio das outras estrelas, mas mais solitária. Como eu. Sozinha no meio da multidão.

Quem sabe se a uma qualquer outra janela haverá alguém a olhá-la como eu… aquele por quem o meu coração espera? Suspiro. Como será e onde estará essa alma-gémea que me será um dia? Não sei. Mas espero. Espero, demorando-me num gesto obtuso, que risco no vidro embaciado da janela, a arremedar o silêncio…

Estrelinha, brilha para lá do meu querer e ilumina aquele que atrairás com a tua intensidade a olhar-te; para depois o seu olhar seguir o caminho do teu raio de luz, até chegar aqui. A mim.

Sim, imagino que para lá do meu olhar, poderá haver outro olhar cativo da mesma estrela. Quero imaginar que há. Imagino que há. Como a imaginação tem poder!

A imaginação há-de ser sempre o meu limite… para lá das estrelas.

08/08/2013

Dia de Aniversário


Fiz catorze anos. Fiz e pronto. Passei, assim de um dia para o outro, de treze para catorze sem mais. Acho que isto de fazer anos merecia uma comemoração… mas não: é um episódio banal, que quase nem se dá por isso. 
Não me lembro de alguma vez se importarem assim tanto com os meus aniversários, excepto o meu mano padrinho, que me manda sempre um postal ilustrado de onde estiver. Mandou-me um da Guiné, quando esteve lá em militar, com a fotografia de uma rapariga preta muito bonita — uma bajuda futa-fula — onde me dizia alguns nomes das variadas etnias de lá (para além dos futa-fulas, há os fulas, os manjacos, os balantas e ainda outros). Agora nunca se esquece de me mandar sempre um do Luxemburgo. O deste ano é encantador — tem um bonequinho jardineiro que leva um carrinho de mão com flores dentro e, no cimo, uma frase: “J’ai mon charriot remplit”; é tão lindo que me perco a olhar para ele. 
Também o meu mano António chegou a oferecer-me, num aniversário quando eu era ainda pequena, uma boneca grande, quase tão grande como eu era — mas já a dei às minhas duas sobrinhitas, filhas dele; espero que gostem dela tanto como eu e que a estimem. Mais tarde, noutro aniversário, ofereceu-me dois bonecos que retirou da sua colecção, que ia ganhando nas latas de Toddy, e aos quais ele pintava as roupas de várias cores; pareciam dois marinheiros! Estes, com o tempo e as brincadeiras, acabaram por se estragar, começando a partir-se pelos calcanhares, talvez por eu bater com eles no chão como se os pusesse a andar. 
Desta vez, o dia ficou marcado só mesmo pelo postal, que eu guardei religiosamente junto dos demais.

11/08/2012

Carvão Incandescente


Um ferro de passar roupa na mão. Pesado. Parece que pesa mais do que eu. Quente. Tão quente que me afogueia o rosto. É um ferro em brasa: com brasas vivas lá dentro: um coração de brasas fulgentes a rechear um corpo oco. Um coração de fogo, mas que vai esmorecendo aos poucos e que é preciso avivar: soprar com força de um lado, até saíram fagulhas do outro.

Assento o ferro no descanso de ripas de latão; senão, se o pousar no lençol branco que forra a mesa de passar, corro o risco de ele fazer uma marca crestada triangular. É que a base é macia para poder deslizar na roupa, mas não é para lá se demorar. Tiro a mão da pega de madeira e observo-o: o corpo, escuro e todo rugoso, forma um bico na frente como a quilha de um barco e, por cima, tem uma chaminé na tampa (quase parece um pato com o seu bico aberto); na parte traseira, que é quadrada, tem uma pequena abertura, com uma peça redonda espetada do lado de cima, como se fosse uma porta, que se desliza um pouco para um lado ou para o outro, fechando ou abrindo, mais ou menos, para o ar circular e manter as brasas acesas. E, no cimo da tampa, que se prende ao corpo com uma pequena tranca parecida com uma manivela, está a pega em madeira, para agarrar o ferro sem queimar a mão. Pego-lhe outra vez e sinto-lhe o bafo quente. Por dentro arde esse coração em brasa, em cima de uma grelha de ferro um pouco levantada atrás, junto à abertura, para coar a cinza que se vai formando ao desmaiar do brasido.

A mesa de passar é improvisada numa ponta do balcão da loja, forrada com um cobertor e um lençol branco por cima. Tenho um cesto de verga cheio de roupa apanhada do estendal, para ser passada a ferro. E é atrás do balcão que inicio, com esforço, a tarefa de que a mãe me incumbiu. É a primeira vez que o faço sozinha, sem a mãe por perto. Das outras vezes, a mãe espetava-me o dedo, mais do que me ensinava: “isso não tem nada que saber, não tens visto como eu faço?”. É claro que a tenho observado, mas daí a aprender…
E, com pouca ou nenhuma habilidade, lá estico cada peça de roupa com a mão esquerda, enquanto a mão direita maneja o ferro por ela além, tilintando, à vez, ao pousar na roupa e no descanso. Mas isto de passar, vincar e dobrar a roupa tem a sua ciência. Quando chega a altura de passar umas calças, começo por olhar para elas sem saber como fazer. Dobro-as pelos vincos que já têm, estendo-as, levanto o ferro e tento…

O Henrique chega à loja, para vir aviar o que a mãe lhe mandou, e vê a minha dificuldade.
– Não sabes passar umas calças a ferro? Olha que não é assim que se faz!
Acho que não coro mais do que já estava. Ainda tento emendar, mas sem resultado.
– Deixa cá ver.
É ele que me ensina. Sim, é bem verdade, um rapaz é que me ensina a passar calças a ferro. A mãe dele ensinou-lhe aquilo que a minha não foi capaz de me ensinar. Ele mostra-me e explica-me como se faz: vincar uma perna da calça de cada vez, passar de um lado e depois do outro, dobrando com um certo jeito a outra perna em cima para não estorvar; depois repetir o mesmo na outra; assim não se corre o risco de fazer dois vincos porque não se passam as duas ao mesmo tempo.

É tão bom quando alguém nos acende uma luz, mesmo que seja com carvão incandescente.

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