À falta de melhor, a casa para os ratitos foi um cesto para papéis. Era de plástico, alto, com quase meio metro de altura, rendado do meio para cima – as janelas. Uma cama improvisada com uma camisola velha a forrar o fundo.
Retalhos e Rabiscos
. Um mundo dentro de outro mundo
04/10/2026
A casa dos Ratos 2
À falta de melhor, a casa para os ratitos foi um cesto para papéis. Era de plástico, alto, com quase meio metro de altura, rendado do meio para cima – as janelas. Uma cama improvisada com uma camisola velha a forrar o fundo.
03/10/2026
Pontos nos ii
A vida fervilhava lá fora há muito tempo quando, por fim, dei conta de que eram mais do que horas. Aquilo não era vida. Mandriava, o que me traria os mais diversos aborrecimentos. Não só começava o dia tarde, o que me faria andar atrasada todo o dia, como não iria ter muito tempo para estar contigo. Levantei-me e não resisti a procurar-te. Mas, desilusão, hoje não te tinha. Como era possível que a janela não abrisse? Já não sei o que é melhor: que me sejas veneno ou pedaço de fantasma que me tapa o sol. De uma maneira ou de outra, não passas sem me embotar o cérebro, e não era para isso que te queria.
Porque me manténs refém? Não havia necessidade! Eu gostava de ti, para que querias de mim ainda mais? Maldita ressaca quando me faltas!…
02/10/2026
Passagem
Depois de assim vendarem os olhos à lua, estas monstras começaram a guerrear umas com as outras com um leve rosnar intensificado até à discussão séria, empurrando-se e acotovelando-se, discutindo assanhadamente e deitando fogo pelas ventas como toiros, numa ânsia desenfreada de encontrarem lugar para parir. E o céu explodiu em raiva sobre o bosque de eucaliptos que não tinha culpa de nada.
Carregado de medalhas ao peito e de cigarro na boca, foi apanhado naquela confusão pelo caminho enlameado de regresso ao casebre, que ficava para lá daqueles arvoredos, e resmungaguejava contra aquela bátega que o molhou dos pés à cabeça. Se ele soubesse tinha ficado em casa da irmã. “Eeela beeem qqquuue m’aaaaviiiisô!”
Na noite de raios e coriscos, as árvores tomaram formas humanas de cabeçudos gigantes com narizes pontiagudos e dentes arreganhados, que gargalhavam amedrontando o incauto que atravessava naquela hora.
Quem era esta personagem quase descartável, que ali dançava como uma folha de papel soprada pelo vento? Será que deixaria para sempre as suas pegadas naquela lama do caminho? Porque há pessoas que marcam bem a sua passagem pelo tempo.
(M. Fa. R. - 09.12.2009)
01/10/2026
A Pedinchice
Uma caixa de fósforos e meio litro de petróleo; um quilo de prego de meio solho e de ripa, misturados; um pacote de cloreto e um quarto de quilo de sabão azul; um pacote de massa de meada; meio quilo de açúcar amarelo. Com conta, peso e medida. Os rebuçados quase todos. Sem conta nem medida.
28/09/2026
Marcas… de água
Ela contou-me que, no seu tempo, as meninas não sabiam de nada e eram apanhadas de surpresa quando sangravam pela primeira vez e algumas ficavam aterrorizadas a pensar que iam morrer. Mas com ela foi diferente. Contou-me que foi mulher muito tarde. Tinha quase vinte anos, já namorava até o avô, e menstruação nada. Foi preciso ir para a praia, no Verão, durante quinze dias. Lá, um banheiro dava-lhe banho no mar todos os dias logo pela manhã, que ela até engolia uns pirolitos. Como eu não sabia o que eram pirolitos, ela explicou. O que me lembrou o que um amigo das minhas outras duas primas também há dias me fez.
Estas minhas primas, a Graciete e a Sílvia, são filhas da minha tia Rosária, irmã da minha mãe. Alguns domingos, depois da missa, fico com elas toda a tarde. Num destes domingos fui com elas e os tios à praia. E foi lá que encontraram o tal amigo. Este queria brincar a empurrá-las para dentro das ondas. Elas fugiam e como ele não as apanhava, fui eu que paguei. Pegou em mim ao colo e mergulhou-me numa onda enorme. Como eu não estava a contar, engoli muita daquela água salgada, não só pela boca mas também pelo nariz, que até me engasguei toda. É isso que é engolir um pirolito.
Com os banhos na água do mar, a avó ficou, finalmente, menstruada pela primeira vez. Diz que sangrou tanto que a melhor solução que encontrou foi a de vestir umas ceroulas do pai dela, porque diz que no seu tempo as mulheres não usavam cuecas. Perante a minha cara de espanto, ela pareceu-me um pouco embaraçada, mas lá foi contando que as saias eram compridas e que usavam uns saiotes que, nessas alturas, enrolavam às pernas presos com um alfinete.
Pronto, não me parece que deva entrar em mais pormenores. Mas que ela me tem ensinado muito... isso tem!
10/09/2026
[2] Outras Gotas
A IPSS local tomou conhecimento das aparentes necessidades do José, através de um dos directores, que atentou na situação e levou o problema à reunião de direcção. A direcção deliberou avaliar a situação e estudar as possibilidades de resolução. Talvez conseguir-lhe um subsídio eventual para as obras do telhado e trazê-lo para o Centro de Dia onde tomaria as refeições e o banho.
Dois dos directores ficaram responsáveis pelo caso e, no dia seguinte, falaram com a Assistente Social da Instituição.
Seria preciso, primeiro, conhecer a fundo a situação e dar apoio perceptivo ao José, ou seja, ajudá-lo a perceber e a avaliar o seu problema, a dar-lhe significado e a estabelecer objectivos realistas e, só depois, dar-lhe o apoio instrumental: ajudá-lo a resolver o problema através da prestação concreta de bens e serviços. O problema é, primeiramente, do José, ele é que tem de querer resolvê-lo, se conseguir perceber que tem um problema e que o quer resolver.
Combinaram fazer uma visita ao José, ficando incumbido de o abordar, para conseguir agendar a visita ao domicílio, o director que trouxe o problema à discussão, o qual teria mais hipóteses de ser bem sucedido, uma vez que tem alguma confiança com ele.
Passados dois dias a visita estava marcada. O José disse que sim, que podiam ir lá falar com ele quando quisessem. Seria então no dia seguinte.
Continua
06/09/2026
Subir o Caminho VII
As pedras... Por vezes as pedras que nos surgem no caminho são ásperas e pesadas, impossíveis de remover. Pedregulhos e penedos soltos que têm de ser contornados para encontrarmos um caminho mais macio e sereno. Caminho que se vai fazendo ao caminhar, a cada passada.
Quando a vida flui e caminhamos naturalmente pelos nossos pés, livres e sacudidos, sem dores musculares ou nas articulações, desimpedidos de muletas ou bengalas, torna-se mais fácil a caminhada, mas não isenta de tropeços ou atrasos. Há sempre que prestar atenção às pedras do caminho. Elas estão por lá. Podem espreitar onde não esperamos. Até num caminho já tantas vezes trilhado, podemos ser surpreendidos, apanhados desprevenidos por um grande calhau ou pedranceira, rolados do alto, estatelados ao comprido, sem eira nem beira. Há que contornar, ultrapassar, e seguir.
A Vida é o que é; e as pedras sempre serão o que são. É isso que temos que interiorizar, porque não podemos mudar isso. Nada a fazer senão aceitar, por muito que nos custe e atrapalhe o nosso caminho. Desviemo-nos, portanto, dos pedregulhos. Não deixemos que nos importunem, e prossigamos a caminhada sem que nos embaracem os passos.
Pedras no caminho sempre as houve. Há que aprender com o passado para caminhar no agora, rumo ao futuro idealizado. Mas quem aprende?...
Há montes e vales, riachos de água fresca, desertos, oásis... e tantas mais coisas que fazem parte do caminho. Da subida.
Há também as asas do vento e o embalo do sentimento, para ir saboreando algum pequeno voo.
Mas uma certeza nos deve guiar: não caminhamos sozinhos. E isso nos deve animar.
“Eu caminho,
sem ver o caminho
Eu caminho por sendas de paz.
Mas eu sei que há alguém
que me ajuda no caminho.
Mas eu sei que há alguém
e com Ele irei caminhar.”
(Sendas de Paz)
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