Retalhos e Rabiscos
. Um mundo dentro de outro mundo
27/02/2026
[1] Gotas
21/02/2026
Flores, Cerejas e Pedras
Mas ninguém mas quer comprar
São tão baratas, tão lindas
Mais lindas não pode achar."
Sim, porque depois da Profissão de Fé, vai haver outra festa, em que todos vamos participar com umas pequenas peças de teatro, danças e canções.
Está a aproximar-se o dia e os ensaios andam a chatear-me. Não são propriamente os ensaios que me chateiam, apesar de eu já saber a minha canção de cor e salteado e ter de ensaiar ainda mais com os dois seminaristas que vão acompanhar-me à viola. Não, não é isso que mais me chateia.
Nos dias dos ensaios vou directamente da escola para lá de autocarro; mas na volta para casa é uma estafa a pé durante meia hora... bem, algumas vezes ainda é mais, muito mais, quando, pelo caminho, vamos apanhar cerejas tão vermelhinhas, àquelas cerejeiras carregadinhas delas, que só de olhar fica-se com água na boca. O pior é quando a dona lá vai dar connosco... ai, ai, já mais do que uma vez... isso é que foi fugir! Isso é que é aventura! Mas eu acho que não fazemos mal nenhum. Roubar para comer não é pecado, dizem-me as colegas. A avó dizia-me que pecado era estragar, mas para matar a fome não; mas que nunca fosse às uvas, porque essas davam trabalho e despesa a tratar com sulfato e enxofre; isso era pecado porque dava prejuízo. Pecado é, portanto, prejudicar alguém. Então, ir às cerejas, não faz mal. Acho que não, pois se não as comermos nós, comem-nas os pardais... elas são tantas e tão pequenas que os donos não são capazes de dar vencimento a apanhar tanta coisa...
Mas o que me chateia, mesmo, mesmo, é quando somos corridas à pedrada pelo grupo dos rapazes. Eu não sei o que se passa naquelas cabeças chochas para nos atirarem pedras, ou porque será que são assim tão maus. O que é certo é que todas as miúdas têm medo deles. Tentamos sempre manter a distância. Mas se ficamos para trás fazem-nos uma espera... se vamos à frente acabam por nos alcançar...
Por isso é que estou desejosa de que acabem os ensaios.
E também que chegue o dia de eu cantar as flores.
"Meu senhor comprai as flores
Que ventura só vos dão
E à floreira que as cultiva
Dão-lhe vida, gosto e pão."
02/02/2026
Sombras I
01/02/2026
Arrepiar Caminho I
Valha-me Nossa Senhora,
Mãe de Deus de Nazaré!
A vaca mansa dá leite,
a braba dá quando quer.
A mansa dá sossegada,
a braba levanta o pé.
Já fui barco, fui navio,
mas hoje sou escaler.
Já fui menino, fui homem,
só me falta ser mulher.
Valha-me Nossa Senhora,
Mãe de Deus de Nazaré!
(Ariano Suassuna, Auto da Compadecida)
08/01/2026
Arrepiar Caminho II
Escuto mas não sei
Se o que ouço é silêncio
Ou deus
Escuto sem saber se estou ouvindo
O ressoar das planícies do vazio
Ou a consciência atenta
Que nos confins do universo
Me decifra e fita
Apenas sei que caminho como quem
É olhado amado e conhecido
E por isso em cada gesto ponho
Solenidade e risco
(Sophia de Mello Breyner Andresen)
Este caminho é cheio de metáforas.
11/11/2025
Po-esia
Um dia meio pardo, com o sol a espreitar aqui e ali.
A bicicleta do pai chamou-me, luzindo numa nesga de sol que lhe pousou.
Não me fiz rogada, pois para brincar estou sempre pronta.
Aprendi, não há muito, a andar de perna traçada sob o quadro
daquelas rodas enormes, e depressa fiquei viciada em pedalar, agora sentada
no selim.
Afoita, já sem os pés no chão, vá de enrolar com os pedais,
fazendo girar as rodas, para que a bicicleta tomasse balanço e depois, sem
esforço, só a guiasse ladeira abaixo levando-me à boleia.
E era como se tivesse asas… poesia para voar.
Sem os pés assentes no chão, no que é o real, tanto pode haver poesia, como só e apenas o pó, da po-esia.
A bicicleta voou pela descida acentuada, como se a estrada fosse céu, mas eu não tinha pára-quedas.
Sem ser capaz de acompanhar o voo, com
medo de não fazer a curva lá em baixo, atirei-me para a barreira do terreno do
lado direito e fiquei ali caída para trás, enquanto a bicicleta foi rolando
certinha e direitinha, até se espetar contra o portão da casa azul ao fundo.
Quando o chão deixa de ser esse céu de poesia, para passar a
ser apenas o pó que nos envolve, também se cai por dentro; ainda que às vezes
seja apenas uma paragem mais ou menos pequena, antes de tornar ao voo.
Felizmente, apenas sofri uns arranhões e a bicicleta não se estragou muito; só tive de me esforçar um bocado para lhe endireitar o guiador e depois, ladeira acima, trazê-la de volta, apeada.
29/10/2025
Regresso ao mundo II
O mundo tinha parado e José Miguel, de olhos fechados, saboreava com sofreguidão aquela embriaguez dos sentidos que se apoderara dele, enquanto o seu peito arfava de comoção.
Não conseguindo aguentar, foi deslizando a sua mão pelo braço nu da sua amada, num bailado de arrebatadora paixão.
Sentia-se um pecador, mas o desejo foi mais forte. Pousou os seus lábios naqueles que o chamavam com um misto de veludo e seda, primeiro com toda a suavidade, depois, sentindo-os entreabrirem-se, fundiram-se neles numa entrega inevitável e plena de êxtase.
O beijo quente e apaixonado fez-lhe reviver alvoroços perdidos no fundo de um baú. Mas aquilo parecia-lhe uma violação. “Perdão, meu amor…”, foram as palavras que lhe afloraram à mente. E afastou-se. Afastou-se sem se poder saciar naquela boca, que tantas vezes tinha povoado os delírios das suas noites. Afastou-se sentindo um arrepio profundo a inundá-lo, até lhe deixar as mãos trémulas e a cabeça à roda. E, de repente nauseado, antes de ter tempo de procurar onde se sentar, notou que o chão lhe fugia…
As emoções tinham sido muitas e demasiado fortes nos últimos dias, e aquela vertigem, que lhe tirou momentaneamente os sentidos e o atirou ao chão, era o resultado disso.
“Luísa… oh, Luísa… tanto te esperei!...”
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