25/09/2022

Subir o Caminho VI

Sento-me por momentos numa pedra na encosta a meio da ladeira íngreme, ofegante de cansaço; à minha volta, fragrâncias húmidas de terra e de musgos. As pedras, castanhas de terra, gemem pequenos fios frescos prateados. Por baixo de uma pedra espreita um pequeno lagarto, ou lagartixa – nem sempre sei bem distingui-los; e por entre outras, pequeninas flores. Até no meio das pedras, Deus faz brotar as mais belas flores. Para que se aprenda a sorrir e se esqueçam, ainda que por momentos, as dores. Para além da meta que se pretenda alcançar, é preciso saborear os bons momentos do caminho.

Ergo-me, depois de inspirar o pequeno descanso. No meio do caminho a pedra ficou.
A pedra. E as outras pedras.

As pedras, que são tão essenciais aos alicerces! – sem alicerces somos construção frágil, que em qualquer altura está sujeita a ser levada pela menor ventania.

Pedras que tanto fazem parte do caminho! Continuam no meu trilho a querer morder-me os pés na subida.
Temos que saber aproveitar as pedras em nosso favor, e contornar as que são obstáculos... é o que faço, é o que tento sempre fazer!
A vida está longe de ser planície, embora também as tenha. Mas de montanhas e planícies se conjuga o verbo viver.
A vida, como os ramos de uma árvore, entrelaça-se nela própria e vai seguindo rumo à claridade. Uns ramos vão chegando ao fim do seu percurso, enquanto outros brotam e vicejam.
Por vezes os troncos de algumas árvores são castigados com pedras – pedregulhos – lá colocadas ao seu redor rente ao chão. Para quê? Talvez para que aprofundem as raízes à procura do melhor sustento e venham depois a produzir muitos e saborosos frutos – ouvi dizer.

E vou subindo. De vez em quando resvala-me, por baixo dos pés, uma ou outra pedrita que depois rola por ali abaixo, atrás de mim. Não faz mal. Eu prossigo a marcha. Subo. Por vezes como quem trepa. Tenho de subir. Nem que as mãos tenham que ir ao chão aqui ou ali, quando preciso for, para segurar, amparar, para que não me surpreenda alguma queda, mais ou menos aparatosa, e esfole os joelhos, ou a alma.
É dura a subida; mas sei que depois de subir, ainda terei de descer para voltar para casa. Eu sempre pensei que descer era mais fácil – “para baixo todos os santos ajudam”, não é? – Não, não é, afinal. Disseram-me que descer custa mais. Algumas vezes terei de descer de costas, escorregar sentada, com todo o cuidado, não vá cair ao desamparo, e o vazio venha a ser o ganho da jornada.

E andamos toda uma vida com algum vazio por preencher, a esfarrapar-nos contra esquinas de pedras agrestes que nos cerceiam. Quando, por fim, nos libertamos, tantas vezes ficamos mudos e quedos sem conseguir absorver a realidade.


«Quando as pedras frias
caem brancas e torcidas
sobre as palavras imperiais,
mordendo-lhes as raízes
como se fossem o contrário do que são,
fecham-nos a alma e ficamos sem saber
se as asas se quebram ou
se ficamos de pé à espera das próximas pedras.»
(José Maria Brito Sj)

12/09/2022

A rede

Há uma rede de arame enleado, pregada em estacaria por cima do muro; caída a certo passo, em certo tempo derrubada, e a par e passo pisada. É uma vedação que nada veda: nem vento, nem maresia, nem tempo, calor ou invernia; nem vegetação, pássaro, insecto, luz da noite ou do dia; ninguém. 

O tempo vem empurrado pelo marulhar ao encontro da praia e parece ir, dolente, levitar nas asas das gaivotas que não param de dançar, suspensas, lá em cima, num céu acinzentado, meio doente, meio enfarruscado. 

A rede delimita o olhar de um ao outro lado – fora e dentro, só olhar. De fora, atrás, o mar; do outro lado, lá dentro, o tempo custa a passar. De fora, os olhos só vêem a espera, pesada, a arder. 

Por um pouco de tempo, o olhar esqueceu-se de se envolver, semicerrou-se, cansado de pestanejar; e o tempo suspendeu-se, amarelo, na ponta de uma estaca onde a rede se queda, senhora de si, empertigada, enviesada, salpicada da maresia demorada…
 
Dali a outro pouco tempo, do nada, bateu o sol ao atrever-se a espreitar. Um ar de graça que, quer se queira ou não queira, de qualquer maneira, passa. Portanto, sol de pouca dura (e ai, a fome… que ninguém a atura!). 

Mas o tempo é para comer e estar. Porque, do lado de dentro da rede, há outra rede que faz o tempo tardar.

11/09/2022

Subir O Caminho V


Empreendo a caminhada, como de outras vezes, deixando que o Snoopy corra à minha frente. 

Vou munida de silêncio, entrecortado pelos sons dos meus passos e dos meus pensamentos que, aos poucos, se vão quase quedando orantes, mas sem bem se quedarem. A dezena, entre os dedos, quer cumprir a sua missão e vai rolando de Ave-maria em Ave-maria, mas, às tantas, dou-me por perdida nas contas quando me distraio para fazer uma foto de qualquer coisa que me chamou a atenção. Depois sigo, sem bem saber já os mistérios passados. 

Também, o meu camarada de passeio se distancia da minha visão por eu ter parado um pouco. Sou obrigada a chamá-lo para que não avance, sei lá por onde, e me deixe só. Prendo-o e levo-o agora pela trela, com receio de que me fuja. O malandreco já me pregou assim algumas partidas, e agora tenho de ser mais cuidadosa. 

A tarde é soalheira, mas o ar é gélido; o caminho é de pedras esburacadas, meio enterradas; nuns sítios, carreiro; noutros, em escada. Uma pequenina ponte em laje de pedra sobre uma vala; nalguns lados encontro lama; noutros, erva verde rasteira nunca pisada. 

Subir o caminho, por entre penhascos e alecrins, até à capela, é música para o meu olhar; harmonia para os meus passos.


10/09/2022

Tempestade Vendaval


Sobravam tempos a ameaçar. Céus nublados e semblantes. Desconsertos, sem concertos nem sinfonias. Danças em dó maior.

E chegou, viu e quis vencer.
Em cegueira que se apodera das fragilidades, e destrói em segundos o que levou anos a mal erguer.
Ela desce e rodopia, roda e pia, pia e roda. Enrosca-se e enrola. Rola, rebola, revolve e revolta, às voltas, às soltas, sem tento nem portento que lhe trave e freio; sem meio de remir o que largou ou o devir.

Tempestade vendaval desengonçada atravessa a praça e as ruas; as vielas mais escondidas; os jardins e as florestas; as aldeias preguiçosas e cidades buliçosas, desde o casebre mais tosco até ao palácio real; castiçais e candelabros são apagados num fôlego, sem dó nem piedade de plebeu ou divindade.

Tempestade furacão, fura gente, fura almas, desalmada, descompensada, destrambelhada, sem coração nem entranhas, que causa dores tamanhas, torturas, tonturas e desgostos; salta em rostos pregões aos quatro ventos, arrastando-se pela lama, destelhando até à cama, rodopiando à lareira, soprando pela boca faúlhas de fogueira. Invertebrada sai pelos mundos de qualquer jeito e maneira, sem jeito nem maneira, de soltura e caganeira. Garganeira.


Mas creio firmemente num só Deus que nos governa e vela; quando nos atravancam uma porta, Ele escancara-nos uma janela.

22/08/2022

Subir O Caminho IV


E eis a fonte. Coberta de heras, revestida de musgos. O lastro quase repleto de agriões. Será que ainda tem água dentro, ou terá secado ou escoado toda pelas frestas? O que estará por detrás das janelas de olhar furtivo? Água? Ou apenas fantasias de outras eventualidades?

Um mundo abandonado, escorrido; leito de prantos, de confidências, calores, alvores e… também maledicências. Era uma bacia à cabeça com um alguidar emborcado em cima da roupa suja e, às vezes, também um cântaro debaixo do braço: assim se fazia o caminho, pelo calor ou de madrugada, para que a barrela voltasse bem asseada. Na pia roupa molhada, na pedra a roupa esfregada e batida, depois passada e torcida, pronta a ser estendida para secar no estendal… Aqui se lavaram roupas e outras vidas; se branquearam linhos e outras tendas; se despejaram sujidades e se debateram contendas; aqui chegaram panos com nódoas e foram corados ao sol; farrapos foram rasgados por não terem mais lavagem; braços e pernas se molharam, mas nem sempre se banharam; bocas entraram mudas mas não partiram caladas; por aqui passaram gentes desassombradas e outras que se viram marcadas por ferrões e ferroadas de moscardos e de vespas, mas também de palavras proferidas sem dó nem piedade: as mulheres quando se juntam “cai o Carmo e a Trindade”. Uma fonte de água pura, fresquinha para beber, onde tantas vezes vim encher o barrilito de barro; e nem essa água, apetecida e leve, lavou bocas encardidas, que só se sabiam bem entretidas a falar na vida alheia. Que fonte esta, sempre tão cheia e agora tão vazia!… 

Será que ainda tem água dentro, será que a nascente ainda não secou? Espreito a uma janela: nada, está seca; espreito a outra: esta está cheia. Experimento abrir a torneira que lhe fica abaixo: ainda não enferrujou muito e escorre. O Snoopy aproveita para beber. Eu não me aventuro a tanto. Ainda há água!, ao menos para o Snoopy. Porque “até os cachorrinhos comem das migalhas que caem da mesa dos seus donos.” (Mt. 15, 27) 


Como Pedro, também Te digo: 
Salva-me, Senhor! 
Tenho medo de andar sozinho 
Mas, creio que és Salvador. 

Nas águas da minha vida 

Agitadas pelo vento 
Eu não posso navegar 
Se não estiver atento.

Tu vens sempre ao meu encontro 
Eu é que não te reconheço 
Mas quando Tu te revelas 
Humilde, Te agradeço.

Sou um homem pecador 
Mesmo assim Tu me salvas 
Das quedas de que sou autor 
És sempre Tu que me levantas.

Nos meus medos e receios 
Para Ti, Senhor, me volto 
Nas minhas dúvidas e anseios 
Diante de Ti me prostro.

E quando Te reconheço 

Nada me pode abalar 
Só em teu braço seguro 
Eu me posso ancorar. 
(Pe. José António Carneiro)

20/08/2022

Subir O Caminho III


Tenho de ir em busca da fonte perdida. Este pensamento traz nova estrelinha que me ilumina, nova brisa que me sopra, nova bússola que me aponta o norte. Já outra vez a força se aproxima de mansinho e a energia quer começar a vir ao de cima. 

Já sei aonde irei! Hoje vou adentrar pela folhagem mais verde, onde as aves fazem os ninhos; onde há minas de águas puras e as rãs cantam em redor; onde brotam resquícios de quimeras, memórias de antigas Primaveras; onde a magia se alimenta de olhar as folhas ao vento. 

Levanto-me, tomo o pequeno-almoço e vou. 

Vou – ainda que pelo meio de canaviais e de silvas a ladear o carreiro atapetado de ervas. A vida é uma perpétua busca, rasgada de interrogações e de improvisos. 

Vou. Furo os silvados a arranharem-me os braços, encho as calças de carrapiços de tantas ervas bravas – quem anda no meio de abrolhos acaba com espetos nos pés – mas sigo em frente, pois muito embora a passagem esteja diferente – como tudo se deteriora e altera num instante! –, tenho a certeza de que dantes era por aqui o caminho, e sei também que “quem busca encontra” (Mt. 7, 8)

E mesmo pelo meio dos espinhos, sem sequer bem saber o que irei encontrar, a alma diz-me para ter fé. Terceiro Mistério Doloroso – a coroação de espinhos. 

Levo pela trela o meu companheiro de sempre. Não o solto, não vá ele correr atrás de algum coelho e se perca na paisagem que desconhece. Já outras vezes, por outras paragens, correu esbaforido à descoberta e depois já não deu mais comigo, só foi ter a casa mais tarde. Para mais, disseram-me que algures por aí foram montados laços para caçar javalis… não vá ele cair nalgum. Assim, ainda que lhe custe, e também a mim, pois puxa daqui, repuxa dali com uma força tal – já certa vez se enrolou a mim e me fez cair, até magoei dois dedos da mão –, que tenho que ir sempre a refreá-lo e a ralhar-lhe: “Snoopy, ao lado!”, “Snoopy, espera!”, “Snoopy, devagar!”…, o que não me permite vagar tranquilamente. 

E é nisto que, depois de uma cortina de canas mais cerrada, os olhos me mostram uma espécie de enseada. A fonte? É além. Além, logo abaixo da pequena escada de pedra gasta, que está parcialmente encoberta por uma barreira de silvas e ervas daninhas que se pegam à roupa. 


Senhor, 
É maravilhoso o perfume das flores, 
mas também as ervas daninhas têm a sua fragância. 
Cada um tem o seu lugar para crescer e desabrochar. 
E isso é belo...
Senhor, 
introduz-me no teu coração 
como se fosse uma semente. 
(Angela Toigo, Um rato fala com Deus)

15/07/2022

Subir o Caminho II


Acordo cansada. Com o coração a querer saltar-me para fora do peito. Há dois dias que ando cansada. Um cansaço em estado crescente a escrever-me no corpo rimas de todas as coisas e de coisíssima nenhuma. Sinto-me quase apática, quase sem qualquer vontade. Como se se tivesse levantado, à minha volta, uma nuvem de pó desta cruzada. O que quererá o corpo falar-me? Há, por vezes, palavras tão difíceis de se deixarem agarrar… e entender. 

Quem me dera uma chuva miudinha que me refrescasse a fronte latejante, que orvalhasse o pó do caminho. Que bom seria sentir o cheiro a terra molhada, para que esta penitência fosse menos custosa, um pouco menos pesada, menos severa; mais airosa, mais suave… mais lavada. 

É assim, no meu amargo soluço, que a madrugada me encontra, começando a espreitar-me, avidamente, por debaixo da porta. Primeiro, uma nesga de claridade, depois um céu aberto. E entra no quarto uma sinfonia de luz, recortada a chilreio da passarada. Percebo que as estrelas lá fora, no céu, já se despediram da noite, e está agora o dia a ser torneado pelo sol. E o meu corpo a pedir mais repouso, sem se atrever a levantar! 

O dia ergue-se e enche toda a casa, pássaro louco a esvoaçar esbaforido numa madrugada de Verão, sacudindo as asas e agitando tudo com elas. A manhã a esticar as penas, a espanejar as asas ao sol. E eu a encolher-me, a preguiçar, sem me apetecer espreguiçar-me, mole, apesar da luz intensa do sol a enfiar-se-me pelo quarto, pela cama afora, pelos lençóis adentro; apesar das vozearias da passarada, das labutas a começar lá fora. 

Maldito cansaço que me prega à cama, que não se desprega de mim. 


Há dias em que o sol nasce quadrado, 
em que o fogo gela 
e em que a maré está vazia 
de vontade de a encher 

Há dias em que o silêncio ensurdece, 

em que o amor perde a coragem 
e em que o norte perde o rumo. 

Nestes dias, 

há uma alma angustiada 
que clama por consolo 
mas o vento cala a sua voz. 

A esperança esmorece, 

a força desvanece, 
a fé hesita, 
a luz apaga-se. 

Nesta noite escura, 

que me sufoca a alegria 
e me impede de respirar a Tua paz, 
que eu saiba perseverar no meu caminho, 
mesmo sem saber qual é. 

Que eu saiba ter paciência 

e manter acesa a chama da confiança, 
mesmo sem saber porquê. 

Que eu saiba acreditar que nela permanecerei, 

impotente e só, 
apenas o tempo que for necessário…
(Raquel Dias, Há dias assim, em: Renascer Do medo à confiança)

11/07/2022

Subir O Caminho I


Tornei a pisar o chão. No dia seguinte e no outro, e no outro. Caminhos diversos, dura a caminhada. Deambulo à procura de Tudo e parece que não há por aqui nada. 

Estes caminhos são juncados de cardos. Talvez, para mim, “vasos de alabastro com bálsamo de nardo” (cf. Mc. 14, 3). 

Percorro trilhos dos outros lados, na busca do ponto que no primeiro dia abandonei. Talvez que houvesse uma convergência; talvez um sinal, talvez uma saliência que se pudesse pular, talvez uma frágil ponte, talvez um carreiro, talvez um sulco já antes trilhado… mas nada. Não encontro nada, nada disso.


– Onde estás, Deus?



E… onde é que Tu não estás?!

––––––––
Às vezes temos que descer para voltar a subir 
Descer ao fundo dos nossos erros 
Descer ao abismo dos nossos medos 
Descer às questões pertinentes que 
(inconscientemente) fingimos não existir. 
Descer e aterrar na nossa impotência perante tudo e todos. 

Com medo ou sem ele 

A descida leva-nos por trilhos desérticos, 
a uma sensação de vazio, de solidão, 
quase deixando de fazer sentido 
o sentido que damos à vida. 
(Dulce Gomes)


(Adenda)

Há caminhos na floresta que não conduzem a nenhuma parte. Que valor é que têm? Dão-nos a possibilidade de passear, de estar ali naquele momento com o peso do nosso corpo, com a nossa situação. A vida espiritual é precisamente a redescoberta disso, a cada momento.

12/06/2022

Arrepiar Caminho VI


Continuamos a subida e chegamos à estrada principal.
Quinto Mistério Luminoso – Jesus institui a Sagrada Eucaristia. 

Estamos mesmo a chegar a casa e sinto fome, mas preciso, antes, de me lavar. Sinto-me pegajosa do suor que me lambe. É noite. 
Entro ao portão e desatrelo o meu companheiro de jornada. Ele vem cheio de sede; dou-lhe água. 
Três Ave-marias em honra da pureza de Nossa Senhora. Ave Maria, cheia de Graça… 
Tomo um duche rápido, morninho, e fico bem. 
Depois sento-me à mesa e pego em pão para comer. 
Salvé Rainha, Mãe de Misericórdia… 

Quantas metáforas tem o caminho! Vivê-las, vivi-as eu, sem saber bem reconhecê-las – nunca fui muito boa a destrinçar metáforas; achá-las, ache-as quem lê. 


Saímos de casa para voltar a casa, mas a uma casa que já nada tem a ver com a primeira. Porquê? Estamos diferentes por dentro e, por isso, todo o mundo se alterou. 
(João Delicado, Ver para além do olhar)


29/05/2022

Arrepiar Caminho V


Seguimos agora estrada abaixo, por entre os eucaliptais. Daqui a pouco estaremos em casa. Depois de mais uma encruzilhada, dobramos a curva à direita e há aí um milheiral, que fica do lado direito, cheio de espantalhos a luzir. 
– Lembras-te, Snoopy, da primeira vez que os viste, quando ainda eras adolescente? Eriçaste o pêlo e ladraste a um. Agora já não te metem medo. Até costumas banhar-te sempre no ribeiro a seu lado quando aqui passas, no tempo em que ele leva água. Agora está seco.
Secou há umas semanas. 

Quarto mistério luminoso – A transfiguração de Jesus no monte Tabor. 

Passamos o milheiral e avançamos ladeira íngreme acima. E cá vou subindo, de dezena entre os dedos, meditando nos Mistérios de Nosso Senhor. 

Quem quer passar além do Bojador, tem que passar além da dor. 
(Fernando Pessoa, Mensagem)

Nisto aparece-nos de frente o dono do milheiral. 
– Então, a esta hora? És muito afoita. Eu vou para baixo agora e vou com medo! 
– Medo? Não há que ter medo. Quem anda com Deus não pode ter medo, porque anda bem acompanhado. 
– Tens razão. Eu levo aqui uma arma: um pau. Mas Deus é a melhor arma. 
– Então mas aonde é que vai a esta hora? 
– Vou pôr o rádio a tocar no meio do milheiral, para espantar os javalis. 
– Ah, vai dar-lhes música de baile! Boa ideia. Pode ser que eles assim aprendam a dançar – digo num sorriso. 
Fazemos as despedidas e cada qual segue o seu caminho. 
Oh, que caminho cheio de metáforas!

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