Retalhos e Rabiscos
. Um mundo dentro de outro mundo
26/01/2026
A rede
25/01/2026
Sombras I
24/01/2026
Arrepiar Caminho I
Valha-me Nossa Senhora,
Mãe de Deus de Nazaré!
A vaca mansa dá leite,
a braba dá quando quer.
A mansa dá sossegada,
a braba levanta o pé.
Já fui barco, fui navio,
mas hoje sou escaler.
Já fui menino, fui homem,
só me falta ser mulher.
Valha-me Nossa Senhora,
Mãe de Deus de Nazaré!
(Ariano Suassuna, Auto da Compadecida)
23/01/2026
A eira
Este vai alto e ofusca-me. Olho em meu redor e apercebo-me do quanto sou feliz neste espaço de brincar.
Bem, não é um sítio feito para se brincar. É a eira, a minha eira com o seu muro circular recheadinho de abóboras. O lastro está agora vazio e no telheiro repousam os restos da palha do milho, sobre a qual me dou conta de ter adormecido. Como é que tal foi possível?
- Estou aqui, tia...
Fico ainda mais um pouco. A tarde está quente, de um sol escaldante e resplandecente que me turva os olhos claros, que não conseguem suportar tamanha luz. Fecho-os e procuro lembrar-me como é que vim parar aqui. Será que ainda estou a dormir e isto é um sonho? Não… não pode ser!
08/01/2026
Arrepiar Caminho II
Escuto mas não sei
Se o que ouço é silêncio
Ou deus
Escuto sem saber se estou ouvindo
O ressoar das planícies do vazio
Ou a consciência atenta
Que nos confins do universo
Me decifra e fita
Apenas sei que caminho como quem
É olhado amado e conhecido
E por isso em cada gesto ponho
Solenidade e risco
(Sophia de Mello Breyner Andresen)
Este caminho é cheio de metáforas.
11/11/2025
Po-esia
Um dia meio pardo, com o sol a espreitar aqui e ali.
A bicicleta do pai chamou-me, luzindo numa nesga de sol que lhe pousou.
Não me fiz rogada, pois para brincar estou sempre pronta.
Aprendi, não há muito, a andar de perna traçada sob o quadro
daquelas rodas enormes, e depressa fiquei viciada em pedalar, agora sentada
no selim.
Afoita, já sem os pés no chão, vá de enrolar com os pedais,
fazendo girar as rodas, para que a bicicleta tomasse balanço e depois, sem
esforço, só a guiasse ladeira abaixo levando-me à boleia.
E era como se tivesse asas… poesia para voar.
Sem os pés assentes no chão, no que é o real, tanto pode haver poesia, como só e apenas o pó, da po-esia.
A bicicleta voou pela descida acentuada, como se a estrada fosse céu, mas eu não tinha pára-quedas.
Sem ser capaz de acompanhar o voo, com
medo de não fazer a curva lá em baixo, atirei-me para a barreira do terreno do
lado direito e fiquei ali caída para trás, enquanto a bicicleta foi rolando
certinha e direitinha, até se espetar contra o portão da casa azul ao fundo.
Quando o chão deixa de ser esse céu de poesia, para passar a
ser apenas o pó que nos envolve, também se cai por dentro; ainda que às vezes
seja apenas uma paragem mais ou menos pequena, antes de tornar ao voo.
Felizmente, apenas sofri uns arranhões e a bicicleta não se estragou muito; só tive de me esforçar um bocado para lhe endireitar o guiador e depois, ladeira acima, trazê-la de volta, apeada.
29/10/2025
Regresso ao mundo II
O mundo tinha parado e José Miguel, de olhos fechados, saboreava com sofreguidão aquela embriaguez dos sentidos que se apoderara dele, enquanto o seu peito arfava de comoção.
Não conseguindo aguentar, foi deslizando a sua mão pelo braço nu da sua amada, num bailado de arrebatadora paixão.
Sentia-se um pecador, mas o desejo foi mais forte. Pousou os seus lábios naqueles que o chamavam com um misto de veludo e seda, primeiro com toda a suavidade, depois, sentindo-os entreabrirem-se, fundiram-se neles numa entrega inevitável e plena de êxtase.
O beijo quente e apaixonado fez-lhe reviver alvoroços perdidos no fundo de um baú. Mas aquilo parecia-lhe uma violação. “Perdão, meu amor…”, foram as palavras que lhe afloraram à mente. E afastou-se. Afastou-se sem se poder saciar naquela boca, que tantas vezes tinha povoado os delírios das suas noites. Afastou-se sentindo um arrepio profundo a inundá-lo, até lhe deixar as mãos trémulas e a cabeça à roda. E, de repente nauseado, antes de ter tempo de procurar onde se sentar, notou que o chão lhe fugia…
As emoções tinham sido muitas e demasiado fortes nos últimos dias, e aquela vertigem, que lhe tirou momentaneamente os sentidos e o atirou ao chão, era o resultado disso.
“Luísa… oh, Luísa… tanto te esperei!...”
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