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07/09/2026

A Casa dos Ratos 1.1


Ficou quieto e mudo, pensando numa solução. Sabia que podia vir a ser uma estragação naquela casa se os deixasse ficar, mas não se atrevia a matá-los. E se os criasse como animais domésticos? Mas surgiram-lhe algumas dúvidas: seriam domesticáveis? E não seriam novos demais para os criar? E se os ratos forem portadores de doença logo que nascem? Será que haveria alguma vacina para eles? E que alimentação lhes havia de dar?…
Ainda olhou em redor à procura de algo para onde os deslocar, pois ali no trigo é que não os queria! Não vendo nada que jeito tivesse, acabou por levantar a aba da camisola, improvisando-a numa espécie de bolsa, onde os depositou, fechando-a depois, cuidadosamente, de encontro a si.
E rumou a casa. Chegado à cozinha entreabriu a aba da camisola para mostrar à mulher e à filha, ainda com caras de sono:
— Olhem o que eu encontrei! Quatro ratitos…
— Eh, estás doido ou quê?... chega isso para lá!...
— Tão lindinhos, pai, e tão pequenininhos, ainda são de mama.
— Arranjem-me uma caixa, ou algo para os deitar… um ninho fofinho…
— Não deves estar bom da cabeça, isso são animais cheios de doenças que se transmitem aos humanos – protestou a mulher contra aqueles hóspedes que não desejava ter em casa.
— Mas eu vou criar estes ratos como animais domésticos. Levo-os ao veterinário para ele me aconselhar… e vaciná-los.
— Eu acho melhor soltá-los lá fora…
— Isso é que não! Ainda podiam vir fazer muitos estragos.
— Então mata-os, ou dá-os ao gato.
— Estás louca?!
— Então está bem. Se quiseres apanhar uma doença, cria-os. Esta agora… criar ratos!... para quê? – resmungou a mulher virando-lhe as costas.
— Ó pai, acho que eles precisam de leitinho, vou embeber um algodão em leite para eles sugarem.
— Mas primeiro arranja-me lá uma coisa para os pôr…

04/07/2026

A Casa dos Ratos 4

(anterior)

Os ratinhos na sua gaiola
Vão brincando e vão sonhando
Que um dia, não sabem quando
Mas um dia, qualquer dia
Hão-de roer e roer
Ou esticar, ou encolher
Mesmo a muito doer
E passar
De dentro para o outro lado
Debaixo dos bigodes do gato
Que os vigia deitado
Dolente e anafado
À espera de os caçar.
Desengane-se o gatarrão
Que não. Bem pode esperar sentado.

Da prisão à liberdade
Há grades com frestas estreitas
Que os separam do mundo

Aqui têm o que comer
Túneis por onde correr
Camas fofas e quentinhas
E enfeites ao pescoço
E lá fora o perigo espreita
Mas isto de se ser rato
Tem muito que se lhe diga…

Não é com fitas e laços
Nem com uma qualquer espiga
Numa gaiola bonita
Que se prende um ratinho.
A ânsia de aventura
Da frescura da noite ao luar
De liberdade e tontura
A roer o seu belo manjar
Será sempre o que perdura
Para lá de qualquer fechadura
Que teime em o agarrar.

(continua)

23/05/2026

A Casa dos Ratos 5

(anterior)

Elas chegaram, alegres e cheias de graça. Distraiu-se, o gatarrão, dos afazeres a que se tinha apostado. Vigiar os ratinhos cansava, e agora aquela música era-lhe familiar e querida, embora os seus ouvidos, treinados, não a ouvissem há muito. Ali estavam, naquela parte dos seus sonhos, as melodias de que mais gostava – os belos trinados das andorinhas. Tinha-lhes sentido a falta durante o Inverno, muito embora os ratinhos lhe tivessem vindo aplacar um pouco o vazio dessa perda. Só um pouco mesmo, porque ainda não lhes conseguira deitar as garras, o que o andava a deixar ansioso. 

Agora ali estavam elas a gozar o sol, encavalitadas nos fios telefónicos que sobrevoavam o pátio até à parede da casa. Trepou avidamente o poste de suporte da alpendorada até ao telhado, para as fitar mais de perto. Eram duas, e as canções que cantavam enfeitiçaram-no como cantos de sereias. Ah, maviosos tons! Que maravilhosa cor e aroma delicioso que o sol lhe vinha trazer! Bendito sol, bendito céu azul onde moravam os seus sonhos. Um dia ainda haveria de voar como elas…

(continua)

11/12/2023

A Casa dos Ratos — intermezzo (8)

 (anterior)

Toda a quadrilha tem um chefe. E eles eram quatro – adiantou-se o vermelhinho: “Eu sou o chefe! Vamos lá, que se faz tarde!” 

E aí vão o Vermelhinho, o Azulinho, o Verdinho e o Amarelinho numa desfilada apressada em fila pelo carreiro, no desfiladeiro do túnel a desembocar numa fresta, alargada pelo Tonecas de tanto por lá remexer. E uma luz lá ao fundo brilhava para eles, que já a estavam a ver. Mas são os olhos do Gato que brilham tanto no escuro na ânsia de os comer. Um sobressalto. Um salto. Um “Alto!... Para trás!... que está ali o rapaz!”
Tiveram de recuar e esperar por melhor oportunidade. 

O Tonecas percebera que tinham tentado fugir. Ficou mais alerta, mas à futrica. Desejava-os há tanto tempo que temia que lhe escapassem sem lhes conseguir tocar. Disfarçou, fechou um olho e abriu outro, espreitou pelo buraco, esperou, esperou, esperou, eles haviam de vir. Fingiu um sono profundo. E adormeceu... e acordou e… 

...é agOora! Deu um salto estendendo as mãos e… 

Quase, quase!... por um triz. Ao lado do seu nariz.

Caramba! (meneou a cabeça), como foi possível?! Estava apardalado... Tinham passado rapidamente debaixo dos seus bigodes, caladinhos como só ratos, que só viu o rabo do último. 

Ainda correu, esbracejou, procurou, fungou, miou, qual quê? Agora?! Muito tarde e a má hora! Já deviam ter-se alojado nalgum canto bem escondido. Ah, como lhe tinham apetecido, como lhe apeteciam ainda, que nóia! Cabisbaixo e atordoado retirou-se, já nada havia a fazer, melhor seria agora esquecer. 

05/09/2023

A Casa dos Ratos — intermezzo (6.1)



Depois de muito matutarem cada um para seu lado, os ratinhos reuniram-se enroscados no ninho e guincharam uns aos outros o que cada um tinha pensado. Era preciso encetar a fuga: consenso, veredicto!
Havia de ser bonito! Assim não podiam continuar! Era mais que altura de passar o pé, marchar!

Era hora, agora, de orquestrar uma estratégia com pés e cabeça, para que a evasão fosse bem sucedida, pois estavam fartos de sonhar com uma vida livre, mas a verem-se atados de pés e mãos, sem se atreverem a pôr pé em ramo verde.
Então, com o pé no estribo, mas de pés de lã, que é como quem diz: pé ante pé; e a pé firme, haviam de dar com os pés àquela vida que lhes tinham imposto do pé para a mão. Com muito cuidado, sem pôr os pés na argola, quer dizer: não podiam perder o pé, nesta altura de pôr-se em pé e agir! Fugir, pois, é a única solução, bater o pé ao patrão; ele que pensara protegê-los, mas os tinha aprisionado fazendo deles diversão.
 
Se bem o ditaram, melhor o haviam de fazer.
Era só procurar algum ponto mais fraco na gaiola e roer. Alargar uma fresta e, ala!, zarpar!
Lá fora haveria um largo mar, uma praia, uma casa grande a explorar. Oh, música para os seus finos ouvidos! Já se viam todos idos, à larga, no bem bom e bem bebidos.

15/07/2013

A casa dos ratos — intermezzo (7.1)


Deitou-se ao pé da gaiola dos ratinhos, como quem estivesse à sombra, como se ela fosse um porto de abrigo que o protegesse de raios abrasadores e de outros incómodos tais quais pragas rogadas, assombramentos ou pavores.

Mergulhou numa nostalgia letárgica e assim se deixou estar tempos infindos, sem sequer se lhe ouvir um ronrom. Parecia que o seu mundo tinha parado ali. Estava cansado. Cansado de correr atrás de quimeras, e os ventos sempre contrários. Pobre bichano, como até a um gato a vida pode fazer negaças!

Inspirou fundo e soltou depois o ar num suspiro soluçado. Agora não queria nada, mais nada, nada mesmo. Só um vazio sossegado. Enroscou-se mais, escondendo a cabeça debaixo das patas dianteiras, e deixou-se ficar, sem desejo algum.

Não tardou muito que o arrulhar de uma rola lhe viesse perturbar o inconsciente. Ah, as rolas! Meninas bonitas, as malditas, sempre com os seus rucrruu rucrruu a chamá-lo! E ele a começar com água a crescer-lhe na boca. E o rucrruu rucrruu a aproximar-se, e ele, pata ante pata, cada vez mais perto… um pulito sorrateiro e zumba! A mordida no pescoço foi certeira e fatal. Abraçado a ela, sorveu o sabor meio salgado que lhe escorria por entre os dentes, cuspiu as penas, fungou… acordou. Soube-lhe bem. O sonho viera dizer-lhe que tinha que voltar à caçada, porque gato que é gato não fica assim apático e desanimado.

Agora ia poder dormir o seu sono solto, de olho naquela fresta da gaiola.

25/05/2013

A Casa dos Ratos - (en)fim !


E então os belos ratinhos, bem aperaltados com os seus lacinhos, pela calada da noite, encheram as prateleiras da despensa e da cozinha com as suas vidas agitadas. Corriam por elas afora e adentro, escondendo-se nos recantos dos biscoitos, do açúcar, das massas, do arroz, das panelas e dos testos delas; tombavam frascos, tilintavam copos, lambuzavam pratos, roíam guardanapos, toalhas, outros panos e papéis… faziam, cada qual, o seu papel numa trama de cordel: marcavam o seu lugar, deixando a sua marca num rasto de rataria; chiavam, num riso fino, gozando com o gato e os ex-donos, agora que a vida lhes sorria; mordiam, aqui e além, neste e naquele cartucho, provando isto e aquilo, comendo do que queriam e estragando outro tanto; pintavam a manta e o manto de preto e outras cores, sem pejo nem outras dores; café, açúcar, bolachas – é tudo nosso!; fosse doce ou salgado, cru ou cozinhado, frito, cozido ou grelhado, pouco ou muito – o que é que importa?! –, até ao nascer do dia. Que depois é outro dia. E é para dormir, bem escondidos, sem companhia do gato; que ao cair nova noite nova festa vai raiar. 
E assim foi depois, nos outros dias – ou melhor, noites – na cozinha e para lá: na sala, nos quartos; era fazer o ninho no forno do fogão, e mais outro no sofá da sala… e outro atrás das orelhas do Tonecas – que esse, coitado… nunca mais os viu acordado, só em sonhos quando estava deitado, ou antes, em pesadelos a escaparem-lhe ao lado. 
Assim, sim: que rica vida, enquanto essa durar não vão querer outra. 

E estragação dos diachos naquela casa se fez, tudo a monte e à vez: retraçado, estraçalhado; escaganitado e esmijaçado como resina ou pez. Ora bem – ou ora mal –, tudo tudo ratado! 

Quando se protegem os ratos, eles acabam por tomar conta da casa. 

E viveram felizes e contentes numa casa toda deles. 

Sape gato!


27/04/2013

A Casa dos Ratos 7


O Tonecas andava de trombas, como se fosse mau. 
Tinha-se fascinado com os rituais de acasalamento do par de andorinhas empoleiradas no estendal do telheiro, mas já estava a ficar farto. Eram cantorias para um lado, cantorias para o outro, pulinhos daqui para ali, dali para aqui, mais um pequeno voo para acolá, e depois mais outro para acolí, só visto! E, então, as melodias eram cada vez mais elaboradas, e ele não gostava nada de se ver como “segundo violino”, ainda por cima desafinado. Se era para andar nessas vidas, melhor seria não aprender a voar. Ná, ele não tinha jeito para isso. Gostava de ser o dono da situação: de lançar os seus longos miados, naquelas noites de luar de Inverno, em cata de alguma fêmea das redondezas; e ao sol da Primavera queria era caçar. Pássaros de telhado, pardais e ratinhos dos campos, ratinhos do celeiro… ratinhos! ah, os seus ratinhos da gaiola… como se esquecera deles?! Aquelas andorinhas tinham-no tirado do sério. 
Avançou por cima do telhado, lançando um último olhar, como um adeus, àquelas esganiçadas aves, que tanto o tinham feito sofrer, e desceu pelo poste que segurava o telheiro.

Foto

10/04/2013

A Casa dos Ratos 6

(anterior)

Os ratinhos cresceram. E começaram a olhar com maior insistência para o lado de fora. Algumas vezes mordiam as grades com uma certa esperança de as conseguirem desfazer. Mas os seus dentinhos não eram tão fortes assim que roessem aquele material, só faziam barulho naquelas malditas grades. E chiavam uns com os outros, mas eram chiados finos, quase gritos mudos a que os ouvidos dos donos não davam importância. Estes pensavam que eles se andavam a divertir, quando o que eles faziam era ralhar e lutar uns com os outros de tão descontentes que se achavam. É que, por vezes, até se acabava a comida, pois a dona ainda não se apercebera bem de que eles tinham crescido rapidamente e que precisavam de maior dose de alimento. Isso era um inferno. E sonhavam alto com outra vida lá fora. Os olhos daquele gato-guarda não andavam por perto havia alguns dias, talvez ele se tivesse cansado de os espreitar ou tivesse tirado uns dias de férias. Quem sabe, seria uma boa altura para pôr em prática um plano de fuga… mas eles ainda não tinham arranjado um plano. Agora começavam a perceber que estava mais do que na hora de pensarem a sério nisso.

(continua)

26/11/2012

A Casa dos Ratos — O Gato Tonecas


Esta casa tem um gato, ai ai ai que feio gato:



Nome: Gato Tonecas

Sexo: Masculino

Idade: 3 anos

Aspecto físico: Grande, gordo e feio, de grandes malhas pretas e algumas brancas, com pêlos sensores brancos nas costas, espetados por entre as malhas pretas; céu-da-boca preto; olhos amarelos; bigodes grandes e fartos. Faz lembrar o Gato Malhado da Andorinha Sinhá.

Qualidades: Caçador de sonhos; educado: não sobe à mesa nem aos armários, dá uma volta pela cozinha e pelo resto da casa se alguma porta interior estiver aberta e, se não vir ninguém, volta a sair; atento e observador.

Defeitos: Também caçador de pássaros; mandrião: estende-se ao sol no alpendre, ou enrosca-se na sua cama improvisada lá num canto; é curioso e guloso.

Medos: Tem medo da dona.

Passatempos: Gosta de saltar de telhado em telhado, deambular pelos quintais e, quando lá lhe parece, às vezes passados dias, é que regressa para casa trepando o muro alto do pátio.

Aqui há gato!


05/09/2012

A Casa dos Ratos 3



As fitinhas coloridas iriam dar o nome aos ratinhos. Assim que Bia lhas pusesse ao pescoço os ratinhos já não seriam só ratinhos, mas sim: Verdinho, Amarelinho, Vermelhinho e Azulinho. E isso seria assim que mudassem para a gaiola nova que teriam.

Quem quer admirar os belos ratinhos,
Tão lindos e enfeitadinhos,
Com as suas fitinhas de cores?

Será então que o gato Tonecas,
Se vai perder por eles de amores?

No dia seguinte, quando a Bia acordou, a primeira coisa que fez foi retirar a tampa do cesto e servir aos bebezinhos miolo de pão embebido em leite – o seu biberão – (isto de criar ratos a biberão pode causar alguma confusão), é que os coitadinhos ainda eram de mama. Mas Bia, daqui a pouco, quando fosse comprar-lhes uma gaiola a uma loja de animais, iria trazer-lhes um pacote de comidinha adequada para ratinhos.

Na loja de animais, Bia deslumbrou-se com um mundo de bichinhos e coisinhas para eles. Foi difícil a escolha de uma gaiola, tanta era a oferta: de várias cores, de vários materiais (de vidro, madeira, plástico, metal), vários tamanhos e andares, vários acessórios… ena!
A gaiola que acabou por escolher, depois de se aconselhar com o simpático empregado, é de um material plástico multicolorido, de três andares com três escadinhas; tem duas casinhas, um comedouro e um bebedouro; tem também duas rodinhas de exercício e dois túneis. Será o sonho (ou o pesadelo) dos ratinhos. As escadinhas para trepar, as rodinhas e o túnel servirão para eles se divertirem. Os ratinhos gostam de explorar e o exercício só lhes fará bem.
Comprou algodãozinho de uma fibra adequada para as camas nas casinhas; palhinha de erva aromatizada para espalhar pelo chão e também serradura granulada absorvente para neutralizar os odores; e não podia faltar a comida: uma mistura de grãos de vários cereais, sementes e ração com vitaminas. Disseram-lhe que lhes pode dar também legumes, verduras e frutas; e que deve limpar a gaiola todas as semanas para evitar os maus odores e não atrair formigas, nem os bichinhos apanharem doenças.

Quem quer admirar os belos ratinhos,
Tão lindos e enfeitadinhos,
Numa gaiolinha a brilhar?

Ai! Será agora que o gato Tonecas,
Desistirá de os caçar?

Bia pegou num animalzinho com cuidado para lhe pôr a fitinha ao pescocinho. Esta não podia ficar muito apertada, mas também não muito larga para não cair. Sentiu algum receio de o magoar, mas verificou que o Vermelhinho ficava bem-disposto (e bonitinho!); e assim também o Verdinho, o Azulinho e o Amarelinho, que Bia acomodou no seu novo ninho.

23/06/2012

A Casa dos Ratos 2.2


O gato Tonecas, caçador de pássaros e de sonhos, espreitou, espreitou, mexeu e remexeu no cesto, subiu-lhe para cima, aflito por desencantar de lá a ninhada, até que o tombou.
A dona, na cozinha, ouviu e acorreu em socorro dos indefesos.
— Malandro! Isso não se faz aos meninos, seu atrevido!
— Miau… miau!... – como quem diz “não sou culpado”, ficou ali a observar a dona a compor aquela cena tão estranha.
Frustradas as intenções do bichano, que não teve outro remédio que não o de conformar-se (conformar-se não, que ele era lá rapaz para se conformar!... eles não haviam de perder pela demora!), Bia aconchegou os ratinhos no seu ninho, vedando bem o cesto, ao mesmo tempo que repreendia o Tonecas, passando-lhe, depois, a mão pelo pêlo:
— Não se mexe aqui, ouviste? Uns bichinhos tão lindos e o menino com apetites? Ai, ai, ai!...
O Tonecas fingiu-se obediente e, amuado, ficou por ali como que a tomar conta deles. De vez em quando parecia lançar-lhes uns olhares de irmão mais velho, mas longe de se enamorar pelos ratinhos, estudava alguma forma de os meter para o bucho.

Enquanto isso, a dona foi procurar, na sua caixinha de costura, umas fitas fininhas de cores, que tinha comprado há uns tempos para uns trabalhos que não chegou a fazer. Vinham mesmo a calhar: verde, amarelo, vermelho e azul. Também havia uma fita branca e outra cor-de-rosa, mas rejeitou essas cores por lhe parecerem muito femininas… e não sabia ainda se entre os seus bebés havia meninas. Amanhã iria comprar uma gaiola apropriada para eles e enfeitá-los-ia, cada qual com o seu lacinho de seda colorida ao pescoço, para ficarem janotas. Ah, eles haviam de ficar medonhamente lindos com os seus lacinhos coloridos!
Esperava que, assim, o Tonecas os visse com outros olhos, que, afinal, eram coisa fina, intocável, e tirasse deles o sentido como petisco.


15/06/2012

A Casa dos Ratos 2.1


O gato Tonecas era um gatarrão feio, de bigodes grandes e fartos. Lembrava o Gato Malhado da Andorinha Sinhá. Saltava de telhado em telhado, deambulava pelos quintais e, quando lá lhe parecia, às vezes passados dias, regressava para casa trepando o muro alto do pátio.

Do alto do seu trono observava o seu reino antes de se dispor a descer. Algumas vezes percorria o muro até ao telhado da alpendorada, pela frente da cozinha e da adega, à caça dos pássaros que por lá poisavam. Quando descia, esgueirava-se pelo alpendre, rente à parede, para dentro da cozinha se a porta não estivesse bem fechada, ou sorrateiramente pela janela se entreaberta. Encontrava sempre maneira de entrar; em último caso dava a volta à casa e entrava pela gateira, rente ao chão, no portão da garagem; com alguma sorte a porta de dentro, que dava acesso à casa, haveria de estar só encostada!

Mas era educado: não subia à mesa nem aos armários. Dava uma volta pela cozinha e pelo resto da casa, se alguma porta interior estivesse aberta e, se não visse ninguém, voltava a sair e estendia-se ao sol no alpendre, ou enroscava-se na sua cama improvisada lá num canto.

Naquele dia não entrou em casa. Encontrou no alpendre algo que lhe despertou a atenção. Espreitou, por umas frestas, para dentro daquele cesto de papéis bem vedado por cima. Lá de dentro vinha um odor que lhe abriu o apetite… miau!...

21/05/2012

A casa dos Ratos 2


À falta de melhor, a casa para os ratitos foi um cesto para papéis. Era de plástico, alto, com quase meio metro de altura, rendado do meio para cima – as janelas. Uma cama improvisada com uma camisola velha a forrar o fundo.
O senhor João transferiu-os para lá, um a um, e eles pareceram ficar perdidos, abandonados, ali estendidos naquele colchão sem odor de mãe.
— Coitadinhos, pai, eu trato deles.
Bia aninhou-os bem encostadinhos, procurando que sentissem o quentinho uns dos outros. Foi buscar um pires para onde verteu um bocadito de leite. Ensopou nele uma bolinha de algodão e encostou-a aos focinhitos dos monstrinhos para eles sorverem.
— Pai, venha ver como eles mamam! – gritou ela esfusiante de contentamento.
E, assim observados, tomaram a primeira refeição na nova casa.
Depois, Bia foi buscar um pano de cozinha e tapou com ele a boca do cesto, amarrando-o bem à volta com um cordel, não fosse aparecer por lá o gato Tonecas e fazer deles o seu almoço.

13/04/2012

A Casa dos Ratos 1


Um dia, pela manhãzinha, o senhor João encontrou uma ninhada de ratinhos, dentro de um saco de trigo.

A adega estava escura e silenciosa quando o senhor João entrou. Em casa ainda todos dormiam. Como o sono o tinha abandonado, pensara então que era melhor levantar-se e ir fazer umas arrumações no celeiro, pela fresca. O celeiro ficava por cima da adega, ao lado da cozinha. Subiu, com cautela, as escadas escuras, de madeira velha a ranger sob os seus passos, sem acender a luz, até ao celeiro, onde o sol começava a querer espreitar por uma janelinha fosca de pó e de teias de aranha. “Isto tem que levar uma grande limpeza”, acenou com a cabeça, em gesto de assentimento aos seus próprios pensamentos.
— Olá!... – desconfiou ele assim que pôs os olhos numa das tampas do comprido cadeirado dos cereais – alguém deixou isto mal fechado... por certo já entrou rataria.
Mal começou a levantar a tampa... e lá estavam eles! Saltou um, depois outro, de dentro do saco de trigo de boca desatada. E, enroladinhos uns nos outros, aninhados no quentinho do ninho em cima do trigo, quatro filhotes pequenininhos que ainda não abriam olho. Puxou instintiva e rapidamente as abas ao saco do trigo, fechando-o com ambas as mãos... E agora?... Que iria fazer, agora, com estes hóspedes cinzentos, horrendos roedores vira-latas?

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