08/01/2023

Presépio na Montra e A Fuga para o Egipto


Este meu presépio aqui na montra da loja é bem mais pequeno do que o do tio Zé. O dele é enorme! Estende-se pela adega além, em cima de um palanque de tábuas para dar uma altura, que foi revestido até ao chão de papel pardo, retirado de sacos grandes de farinha, enfeitado depois com fitas e bolas coloridas e brilhantes. E o mais importante: tem imensas figurinhas. Perco-me a observá-lo sem nunca me cansar. A cada Natal há sempre mais coisas que o tio vai acrescentando: luzes, água, um ou outro movimento, campainhas que tocam ao ser puxado um cordel que vem pela parede até à porta…
Para além das figuras iguais às que o meu presépio também tem, há outras que me causam alguma estranheza e admiração. Gosto tanto de apreciá-lo e de fazer perguntas! Ó tio, o que é este? Ó tio, e este? Ó tio, e ali aquele?... E o tio com a sua paciência pachorrenta vai-me explicando, como quem está a ensinar catequese – o tio é catequista.
 
Por exemplo, tem um velhinho de barbas brancas com um menino pequenino às costas: diz o tio, que é o Ano Velho que traz o Ano Novo. Tão giro! Nunca tal me passaria pela cabeça: o Ano Velho e o Ano Novo em figura de gente... (e enquadrado no presépio... humm... um homem velho carregando um Homem Novo! Algo a ver com Jesus terá... ainda cheguei a pensar que seria o Pai Natal e o Menino Jesus, que tola, sei lá!...)

Intrigou-me também uma figura de uma senhora que puxa pela mão, como que arrastando, uma criancita que parece ir a chorar. Lá mais atrás uma figura de um militar empunhando uma espada. O tio diz-me que a senhora e a criança vão a fugir dos soldados do Rei Herodes, aquele malvado, que mandou matar todos os inocentes meninos pequenos até aos dois anos de idade, para ver se entre eles apanhava o menino Jesus para o matar. Pois se Jesus é o Rei dos Judeus, pensava ele que vinha usurpar-lhe o seu lugar no trono, não percebendo que o Reino de Jesus é um reino de paz, de amor e de graça de Deus, de vida, de verdade e de justiça; um reino bem diferente dos deste mundo. 

Também detive o olhar, mais além, num burrito que carrega Nossa Senhora com o Menino ao colo, com S. José adiante a pé, segurando o burrinho pela arreata. Conta que vão em fuga a caminho do Egipto, para que Herodes não apanhe e mate o Menino. São José tinha sido avisado num sonho, por um anjo, para que fugissem para o Egipto e por lá permanecessem até que passasse o perigo e lhe fosse transmitido que poderiam regressar.

15 comentários:

Roselia Bezerra disse...

Feliz noite de domingo da Epifania, querida amiga Fá!
Eu creio em sonhos de profecia, assim como São José.
Muitos sonhos são pistas divinas para nós.
Tenha uma nova semana abençoada!
Beijinhos

Elvira Carvalho disse...

Um presépio sempre nos recorda os ensinamentos que recebemos na catequese, ou a leitura da Bíblia.
Abraço e saúde

J.P. Alexander disse...

Es una buena forma de reflexionar, Te mando un beso.

Jaime Portela disse...

Hoje ninguém fugiria para o Egipto...
Continuo a ler e a gostar deste presépio.
Boa semana, amiga Fá.
Beijo.

O Árabe disse...

Encanta-me o teu modo de escrever, Fa! Como me encantam também os presépios, lembrança viva da minha infância. Até hoje sempre o armamos, aqui em casa! Meu abraço, boa semana.

lis disse...

Estou um tempinho aqui, lendo tim tim por tim, adoro!
Me faz recordar a infãncia e as escolas dominicais.
Continua 'escrevinhand' Fá _ bom demais!
beijinhos

Anónimo disse...

Olá Fá, a fuga para o egito me ensina tanta coisa, como fazer a vontade de Deus em meio às tempestades da vida.
Abraços e boa semana.

- R y k @ r d o - disse...

Um texto que me encantou ler. Muito bem escrito. Deixo o meu elogio
.
Saudações poéticas
.

Cidália Ferreira disse...

Gostei da estória :)
.

Beijos. Boa noite.

Kinga K. disse...

Provoca reflexión, me encanta!

Crônicas de Areia disse...

Oi, Fá. Poxa vida, fiz um comentário faz uns 5 dias, e não apareceu aqui. Tive dificuldades em postá-lo, pois dava erro a cada vez que tentava, até que consegui, mas ao que parece, acabou não indo ao seu efeito. Uma pena.
Mas, como a web gira, nada de reclamações. Vamos tentar novamente.
Falei de vários aspectos de seu belíssimo texto no outro comentário, mas, desta vez, e relendo o texto, quero ressaltar outro ponto: o olhar de quem faz e o de quem vê.
Através de seu relato, seu tio, um artista nato, entrega a suas obras nuances dualistas, ambíguas... propositais, eu diria. Ele faz com que o leitor visual interprete, e você o fez muito. Errou, talvez! Não chegou naquilo que seu tio tinha a intenção, mas interpretou. Méritos dele, ao se propor tal coisa, mas mérito seu também em interagir, interpretar.
Adorei a crônica, as palavras mágicas, a significação. Tudo de uma riqueza sem igual. Grande abraço, Fá.

Marcio

Franziska disse...

Son muy atinadas tus reflexiones, no podemos evitarlo pero los humanos somos así, siempre estamos dispuesto a ver mensajes. Un abrazo con mis mejores deseos de paz y alegría.

Porventura escrevo disse...

Uma reflexão profunda e intensa

Ana Freire disse...

Os encantos do presépio... fizeram-me lembrar os meus tempos de criança, em que a tradição do presépio também se levava muito a sério, e se reservava uma área grande em torno da árvore, para o fazer com musgo natural...
Um texto encantador... e repleto de sabedoria que é sempre bom lembrar, através das várias figuras do mesmo...
Adoro o Natal! Tenho sempre pena que passe tão depressa, o mês de Dezembro!
Um beijinho grande! Bom ano, com saúde, Fá, para si e todos os seus! O meu... começou com umas impertinentes avarias, em alguns equipamentos da cozinha... pelo que ando a tratar de resolver a situação por estes dias...
Tudo de bom!
Ana

pensandoemfamilia disse...

Linda escrita que nos traz um presépio com detalhes significativos. Remete-me também às memórias da infância. Bom dia.

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