Só tinha uma hipótese: ir. Já perdera muito tempo calando o que havia para dizer. Só agora começava a ter noção de que nunca se deveria ter calado.
São as palavras que se calam as que, por vezes, mais doem. Doem como fazem doer as fracturas expostas. E muitas vezes são nódoas negras que aparecem depois de uma pancada. As que ela calara eram tudo isso e muito mais: eram ferida aberta que, por mais curativos que quisesse inventar, não cicatrizava.
Naquela altura não pensou que seria assim. Achou que ficaria tudo bem, que ficaria tudo melhor se se calasse, e que o tempo seria seu aliado. Mas agora, depois dos traumatismos que sofrera em consequência do acidente, olhando para as nódoas negras do seu corpo, que ainda mal se queriam disfarçar, pensava nas outras que tinha por dentro e que lhe doíam na alma. Estivera do lado de lá da vida. E regressara. Agitava-se agora numa convulsão, ao pensar que aquelas palavras não ditas poderiam ter morrido com ela. Palavras em carne viva, que lhe eram sangue escorrendo dolorosamente da ferida recentemente acesa. Sim, tinham sido nódoa negra de sangue pisado. Agora eram chaga com sangue vivo que se lhe vertia para dentro em catadupa e lhe revolvia as entranhas até a sufocar num vómito aflitivo. Chorar, por vezes resolve; mas outras, nem por isso. E chorar não resolvia a sua dor. Tinha que falar. Tinha que o procurar e falar.
Depois de ter despertado de todo um emaranhado de alucinações, tomara consciência de que o tivera outra vez e que, outra vez, o perdera. Se ele tivesse voltado, talvez que não lhe tivesse sido difícil dizer-lhe tudo. Mas ele não voltara. Não voltava. A espera era inútil. E só ela e Deus sabiam o quanto lhe doía tudo. Tudo.
As palavras que se calam agigantam-se dentro do peito e chega uma altura em que têm de eclodir. Mesmo que façam doer ainda mais do que doem. Mas, se para sarar uma ferida tiver que doer ainda mais, que doa! Assim é que já não podia continuar. Falaria. Falaria tudo o que havia para falar. Tudo. Até à última lágrima. Até à última gota de sangue.
Engoliu a enchente de lágrimas misturadas com essa decisão e foi em frente. A vida tinha-lhe dado outra oportunidade que não podia desperdiçar. Só tinha uma hipótese: ir.
São as palavras que se calam as que, por vezes, mais doem. Doem como fazem doer as fracturas expostas. E muitas vezes são nódoas negras que aparecem depois de uma pancada. As que ela calara eram tudo isso e muito mais: eram ferida aberta que, por mais curativos que quisesse inventar, não cicatrizava.
Naquela altura não pensou que seria assim. Achou que ficaria tudo bem, que ficaria tudo melhor se se calasse, e que o tempo seria seu aliado. Mas agora, depois dos traumatismos que sofrera em consequência do acidente, olhando para as nódoas negras do seu corpo, que ainda mal se queriam disfarçar, pensava nas outras que tinha por dentro e que lhe doíam na alma. Estivera do lado de lá da vida. E regressara. Agitava-se agora numa convulsão, ao pensar que aquelas palavras não ditas poderiam ter morrido com ela. Palavras em carne viva, que lhe eram sangue escorrendo dolorosamente da ferida recentemente acesa. Sim, tinham sido nódoa negra de sangue pisado. Agora eram chaga com sangue vivo que se lhe vertia para dentro em catadupa e lhe revolvia as entranhas até a sufocar num vómito aflitivo. Chorar, por vezes resolve; mas outras, nem por isso. E chorar não resolvia a sua dor. Tinha que falar. Tinha que o procurar e falar.
Depois de ter despertado de todo um emaranhado de alucinações, tomara consciência de que o tivera outra vez e que, outra vez, o perdera. Se ele tivesse voltado, talvez que não lhe tivesse sido difícil dizer-lhe tudo. Mas ele não voltara. Não voltava. A espera era inútil. E só ela e Deus sabiam o quanto lhe doía tudo. Tudo.
As palavras que se calam agigantam-se dentro do peito e chega uma altura em que têm de eclodir. Mesmo que façam doer ainda mais do que doem. Mas, se para sarar uma ferida tiver que doer ainda mais, que doa! Assim é que já não podia continuar. Falaria. Falaria tudo o que havia para falar. Tudo. Até à última lágrima. Até à última gota de sangue.
Engoliu a enchente de lágrimas misturadas com essa decisão e foi em frente. A vida tinha-lhe dado outra oportunidade que não podia desperdiçar. Só tinha uma hipótese: ir.
(M. Fa. R.)
20 comentários:
Apenas o desespero nasce do ir até às últimas consequências. São perigosas...
E não voltar, pois há experiências que não são para repetir.
Beijocas!
e se foi...Acho que foi bem!
Não voltar! Eis a questão!
As palavras que se calam, são um sofrimento infindo!
Bom dia Fá!
Bom dia de Outono...Rs... Mais parece querida!pelo menos por aqui!
besito
O "ir" não parecia ser o grande dilema... O "ser"... O se capaz de deixar de ter piedade de si... O "ser" capaz de vislumbrar a flor que nasce dos escombros da destruição... Há palavras que são como os partos! Têm de ser paridas no pranto e na dor, para desabrocharem em subtil perfume...
Um beijo
Quando a vida nos dá nova oportunidade, é de ir!!!
Neste belo dia de Primavera,
deixo-te um abraço,
"Nunca desistas dos teus sonhos"
Beijinhos
Raramente existe duas oportunidades na vida, ainda que difíceis as decisões temos sempre de olhar em frente e continuar
beijinhos
Ir, seguir, prosseguir...a vida sempre nos aponta para frente.
Um texto eloquente, para ler e mais que ler, refletir.
Amiga Fá,
Obrigada pelo sua delicada presença em nossa página!
Meu filho tem-me sido um anjo, pois sem ele, iria ficar complicado fazer qualquer coisa ali.
Te adoro demais!!!Bjssss
fá querida.
obrigada pelo carinho.
seu texto é lindissimo e nos diz muito.
vai amiga siga em frente e não olhe para atraz.
beijos com carinho.
um outro texto escrito com a intensidade com que ,há muito ,nos habituaste .um texto de dentro ....com um riquíssimo aforismo por conclusão ( se bem que subjacente ) - "desistir é próprio dos fracos"......
.
um beijo
Nunca se deve dizer não a uma nova oportunidade. Gostei muito do texto
S e avida deu outra oportunidade há que ir em frente sem dúvida...
Bjs
Belo texto! Assim realmente é: são as palavras que não dizemos, as que mais nos machucam a alma. Boa semana!
Fá querida
Só para dizer que as palavras que escreveste estão a cair mesmo a pique.
Como água numa tarde cheia de sol quando se está cheia de sede
Uma nova oportunidade...
Grandes são as obras do Senhor.
Beijinhos e muitas felicidades.
As feridas que dóiem é
são sinal de que há vida.
Utilia
.
. ser da hipótese o movimento da ida .
. ir . ir . re.ir sempre .
.
. porque o silêncio há tanto é culpado .
.
. um beijo .
.
. paulo .
.
ir...sempre.
belo texto.
obrigada!
um beij
"Ir" - sugere o som da palavra o que a palavra diz.
*
é a unica escolha ?
então faço como tu,
como na tua foto ergo
os braços ao céu e grito:
não há escolha, escolhido está !
e vamos apanhar sol
antes que chova !
srsrsrsr,
,
conchinhas, deixo,
,
*
Querida Fá,
Convém não guardar o que doí dentro do corpo, é preciso tratar as feridas e às vezes é necessário rebentar com uma borbulha para o pus sair...
Mas convém continuar a ir sempre em frente, deixando o passado para trás.
O teu texto é muito belo.
Beijinhos da Verdinha
Uma bela escolha:)
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