quinta-feira

Um mundo para Luísa

Ao adaptar-se à sua nova vida, Luísa vira-se envolvida nos cuidados aos sogros.
Dona Arminda, a sogra, com 73 anos, há algum tempo que vinha fazendo curativo, em casa, a uma ferida que lhe aparecera na perna direita, e Luísa foi-se apercebendo de que esta não tinha jeito de cicatrizar, mas, pelo contrário, parecia que afundava. Levou-a então a uma consulta ao médico de família que a encaminhou para os serviços de enfermagem, onde passou a ir fazer penso três vezes por semana. Andaram neste vai-e-vem durante meses, enquanto a barriga de Luísa crescia.
O senhor Américo, o sogro, era sete anos mais velho do que a esposa, mas sem grandes problemas de saúde, apenas um pouco duro de ouvido e, de vez em quando, com umas dores nos pés que lhe dificultavam um pouco a marcha. Gostava muito de ficar com o neto quando as mulheres não estavam em casa. Parecia que rejuvenescia com as brincadeiras que os dois travavam. Estas eram, para ambos, momentos muito agradáveis de partilha de afectos e de vida. Aquele relacionamento intergeracional ensinava o pequeno a crescer e o mais velho a renovar o gosto de viver. Gostava de dar o seu passeio pela rua, mas só o fazia quando a nora o podia acompanhar, pela tardinha, os dois de braço dado e com o pequenito, ora de mão dada à mãe, ora ao avô.
Mas a idade não perdoa, e as dores nos pés começaram a ser mais e as forças nas pernas a ser menos, o que o passou a confinar, cada vez mais, ao interior da habitação. No entanto, de vez em quando, sentava-se à porta de casa, a apanhar sol nas pernas e, assim, sempre ia observando o que se passava lá fora.
Luísa ia-se sentindo mais pesada e redonda à medida que o tempo passava, até que, enfim, chegou a hora de o José nascer. Deixou o Manuel com os avós e chamou um táxi, que a levou à maternidade onde o parto se desenrolou sem complicações. Passados dois dias estava de volta a casa; na alcofinha, um bebé rosadinho e de cabelos de fazer inveja ao “avô” chupava no dedinho com desenvoltura.
- É tão bonito! – Comentavam os idosos, gostando já dele como se fosse seu neto.
O irmão não arredava pé dele, pendurado no berço a contemplá-lo no sono, experimentando-lhe a chupeta, esperando pela oportunidade de se enfiar no seu lugar assim que a mãe de lá o tirasse. Uma vez, apanhando a mãe fora do quarto, tirou-o ele próprio da caminha para cima do tapete e deitou-se naquele ninho fofo e quentinho, como só os bebés têm.
E, durante algum tempo, tudo se resumiu, naquela casa, a choros de bebé e risos de criança. As crianças retêm em si o mundo. Para além delas, o que houver é de menor importância.

quarta-feira

O Direito à Verdade

Os pensamentos e os remorsos não davam tréguas a Luísa.
Não acreditava que apaixonar-se pudesse ser pecado. É que não se pode evitar, principalmente quando se está só ou carente. Mesmo que não se procure. E quando acontece e se é correspondido, então não há como se ocultar por muito tempo, e o encontro dos sentimentos acabará por surgir na menor oportunidade. Parece que existe como que um íman que atrai e tudo se torna inevitável porque os dois se buscam. Luísa ainda o tentou evitar mas sem o conseguir, apesar de saber que um namoro entre uma professora e um aluno nunca seria bem visto. Uma relação entre professora e aluno não era nada convencional, e quando aconteceu foi a medo, por isso reprimida e curta, mas em encontros tanto mais intensos quanto escondidos, tanto mais vividos quanto fugazes. Uma vivência tão cega quanto puros os sentimentos.
O tempo foi escasso para explicações e estórias de vida, e ficou tudo por dizer.
Tudo se precipitara quase no final do semestre e do ano lectivo quando Luísa caíra em si depois de fazer o teste de gravidez. Depois, Luísa dava por si a evitar-lhe os olhos; e as aulas onde o tinha por aluno tornavam-se insuportáveis porque impregnadas da dor da sua presença. Até que Luísa tomara a decisão que a fizera culpada.
Era agora mais do que tempo de lhe contar toda a verdade. Já não era sua professora. E ele já não era seu aluno.
Pelo menos aquela verdade ele tinha de saber. Tinha esse direito. Mesmo que ela nunca obtivesse o seu perdão.