segunda-feira

Ovelha Tresmalhada


A manhã, que, como de costume, começara a ferver ainda mal o sol acordara, quase parou quando ele entrou e se dirigiu a uma mesa vaga, bem a meio da pastelaria.

Rogério não tinha pressa. Habitualmente pedia uma bica e uma nata, ao balcão, que engolia apressado, mas hoje não era dia de aulas.

Enquanto esperava que o viessem atender, pensou que devia ter mais dias assim: tranquilos, depois de noites completas, dormidas como se deve, sem a azáfama dos trabalhos para entregar, que lhe roubavam todas as horas de descanso. Engenharia Informática estava a ser mais difícil do que pensara, mas havia de dar conta daquilo.

Os pais tinham ficado emigrados em França, onde nascera e crescera, e ele procurava-se por cá, sozinho, num país que queria que viesse a ser o seu, depois de ouvir tantas histórias que os pais sempre lhe contaram. Se eles, quando eram da sua idade, não tivessem fugido da aldeia, do país, se não se tivessem aventurado a um mundo largo e desconhecido, talvez ele hoje não passasse de um guardador de rebanhos, igual ao que o pai estava destinado a ser… ou talvez nem tivesse nascido…

Mas lá na freguesia ainda haviam de ouvir falar do filho do Chico da Silva e da Alzira Pereira.

terça-feira

Os Pés pelas Mãos


Agulhas e linhas; pano branco e bastidor; riscos cheios a cordão…
A cheio vai passar a ser, assim, o meu mundo.
Comecei a aprender a bordar a máquina. Agora vivo para isso. As terças e as quintas são para ir aprender, os restantes dias da semana são para praticar.
O primeiro dia foi muito monótono: um bastidor todo a ponto de cordão até aprender a dar o balanço… que ainda não dou bem. Enquanto não se dá o balanço certo, é um meter os pés pelas mãos, linhas rebentadas, agulhas partidas…
Isto de colorir desenhos com linha, à máquina de costura, tem que se lhe diga. Temos de tirar o calcador à máquina e cobrir-lhe os dentes com uma pequena peça, para que o pano corra livre, esticado no bastidor. São as mãos que lhe dão o jeito para que a agulha leve a linha ao bordado, mas são os pés que tocam o pedal, para fazer a agulha com a linha andar para baixo e para cima, a bordar. Ora isto, no princípio, não se coordena muito bem. As mãos e os pés não se entendem, ou melhor, os pés querem ir atrás das mãos, mas não devem. Os pés não podem ir atrás das mãos, senão a agulha anda ao contrário e a linha parte-se. Os pés têm de ganhar ritmo, embalo para a frente, sabendo quando avançar, abrandar e parar, enquanto as mãos voam livres. Os pés tocam a máquina; as mãos pintam poesia.
É aí que está o meter os pés pelas mãos, enquanto cada qual não souber fazer, coordenadamente, a sua parte. Partem-se linhas e agulhas; borda-se ao lado do risco; sai o desenho todo deformado. Mas eu vou aprendendo.
Aos poucos, hei-de aprender a bordar na perfeição.