20/10/2010

Entre portas e janelas

Uma porta que se fecha pode ser uma janela que se abre. Uma corrente de ar repentina: um sopro mais forte de vento que escancara esta e obriga a fechar aquela; ou um vácuo que se cria pelo trancar da porta que obriga a janela a dar de si. Seja como for: janela que se abra para bater com a porta ou porta que se feche para que o ar entre pela janela, o mundo não pára para acontecer.
Assim sucedera mais ou menos com Luísa: o fecho de uma porta; uma janela aberta. E um mundo lá fora à espera; e outro a nascer-lhe nas mãos. Mundos diferentes que lhe respiravam na pele e lhe transpiravam no olhar.
Por uns tempos ficara para trás a Faculdade e a sua vida de docente, para dar lugar a uma vida doméstica, quase de reclusa.
Os sogros, dois filhos a crescer - um a pular pela casa e outro a pular dentro de si - traziam-lhe os dias de tal modo preenchidos que não tinha tempo para pensar em nada mais.
Tinha sentido alguma dificuldade e apreensão inicial para contar da gravidez aos seus velhinhos, mas eles até haviam reagido melhor do que contara. Lembrava-se das palavras que a sogra então lhe dissera: “Filha, fizeste um grande disparate, sabes disso?”. Ela assentira, corada, pedindo-lhes que não a mandassem embora. E respirara fundo, aliviada, quando eles, olhando um para o outro, lhe disseram que se ela precisava deles, eles também precisavam dela.
Foi assim que Luísa passou a morar ali naquela casa grande: não só essa porta não se lhe fechara como, por entre as cortinas das suas janelas abertas, o sol lhe fora trazendo alguns sorrisos.
Tinha consciência de que fizera grandes disparates… mas, ainda assim, achava que maior disparate teria sido nunca se ter permitido amar.

06/10/2010

Repetições

Sim, a vida também é feita de repetições.
Há dias de nevoeiro que se fecham em noite; há dias de nevoeiro que se abrem ao sol. E se há dias de nevoeiro que escondem a vida, há também dias de nevoeiro que a desvendam, que dela palpitam.
A vida repete-se todos os dias; em dias de nevoeiro ou em dias de sol; ou de chuva, ou de tempestade, ou de bonança. Todos os dias o sol nasce; todos os dias o sol se põe. As estações sucedem-se umas às outras. Todos os dias se morre; todos os dias se nasce. A vida tira; a vida dá. E até o que se oculta no nevoeiro também dele irrompe inesperadamente, às vezes contra todas as probabilidades.
Luísa viu as repetições acontecerem na sua vida: em si.
Um dia, o nevoeiro cortara-lhe o ar que respirava; mais tarde, um outro dia de nevoeiro devolvera-lhe o ar em tal quantidade que a sufocara. Contra todas as probabilidades, a vida lhe mostrara de novo o amor. Um amor demasiado belo para ser verdade. José Miguel. O aluno daquele semestre que brilhava por entre uma multidão de alunos, como o sol rompendo o nevoeiro.
Demasiado ofuscada, demasiado sedenta, afogara-se nessa fonte de luz, sem conseguir a racionalidade que lhe permitisse manter a distância. Racionalidade é o que não abunda quando o amor e a paixão se fazem urgência. Mais tarde foi tarde demais.

Chegaram as férias e Luísa foi, e não voltou. A dor também se repete, mas desta vez fora uma decisão sua. José Miguel. Pensou sobretudo nele: nunca lhe atrapalharia a vida. Era muito jovem, era homem, como tal seria fácil para ele ultrapassar aquele seu, talvez, devaneio da juventude que era amar a sua professora. Quanto a ela, o que aconteceria a seguir não passaria de mais uma repetição: ser mãe, e pai, outra vez.

28/09/2010

Luísa


Luísa casara numa manhã de Junho; era Primavera, quase Verão. Tinha sido uma cerimónia íntima no registo civil, apenas com um casal amigo de ambos por testemunhas, seguido de um almoço a quatro; e pronto.
O marido, filho único de pais já idosos, não tinha mais família chegada; por isso não queria grandes cerimónias nem boda e resolvera assim. Ela amava-o e conformara-se; que fossem um do outro, construir uma vida em conjunto, era tudo o que lhe bastava. Mas a sua família não lhe perdoou o casamento fugido e repudiou-a. Acabou, com muito custo, por se habituar a esse afastamento; em contrapartida ganhou outra família: os pais do marido, que passaram a ser a sua única família – eram eles que a estimavam como filha.
Casada ainda não era há um ano quando o marido lhe desapareceu, num dia de nevoeiro, qual D. Sebastião. Passou muito mal. A dor e o pranto pareciam querer roubar-lhe a vida. Dormia mal, comia mal… ou mal dormia e mal comia, ao que se seguiram quebras de tensão, desmaios; enjoos. Definhou. Estava grávida, soube-o depois. Isso a salvou. E foi mãe.
Ter um filho sem pai era ter que ser mãe e pai para ele. Dedicar-se inteiramente àquela criança supria-lhe a falta do marido e ajudava-a a não pensar no sofrimento que a falta dele lhe causava. O filho era vida, alegria ressurgida, amor perpetuado.
Visitava amiudadamente os sogros, os quais deliravam com o neto que ia crescendo esperto e saudável, recordando-lhes saudosamente o filho, ao mesmo tempo que lhes preenchia algum do vazio deixado. As férias e muitos fins-de-semana eram passados juntos, até que um dia mais tarde Luísa se mudou para lá. A idade avançada tornava-os cada vez mais dependentes e não tinham mais ninguém senão a ela e ao menino.
Mas não foi só isso que a levou àquela mudança de cidade e de vida. É que a vida também é feita de repetições…

19/08/2010

Quando a Vida é Uma Peça de Teatro

A vida é uma peça de teatro: umas vezes comédia, outras drama. Só que no teatro do quotidiano não são permitidos ensaios, a peça desenrola-se de improviso, sem estudo prévio, em que cada acto rola na sequência de outros actos, mais ou menos amadores, onde o protagonista é uma existência livre, mas que, mesmo que a cena em palco seja monólogo, não vive sem personagens secundárias, figurantes e público, numa permanente construção.
E quantas vezes a vida é um filme! Umas vezes de amor, outras de terror; umas vezes em formato de telenovela, em ecrã de televisão, outras de curta-metragem e em ecrã de cinema. Alguns episódios podem mesmo parecer saídos de filmes antigos, daqueles que sofreram cortes de tesoura porque alguma cena merecera censura ou porque a película pegara fogo.

José Miguel pensava nisso, sentado na sua cadeira no consultório, cansado de uma tarde de trabalho intenso, um tanto desgastante, em que, entre outras, tivera de acalmar duas crianças para as fazer colaborar no tratamento, e de chamar à razão as mães, que em vez de ajudar só atrapalhavam. E pensava nos teatros da vida e no formato que tinha a sua.
Se lhe fosse permitido voltar atrás, ao passado… refazer o seu filme, o teatro que era a sua vida…
Mas não era assim tão simples. O passado não se podia cortar à tesoura, e voltar a colar, como a fita de um filme antigo, nem sequer era como um dente do siso incluso, que se extirpa, sem dificuldade, com uma pequena cirurgia, e que depois de se suturar o vazio, o sítio acaba por ficar perfeito como se o dente nunca tivesse lá existido. Não: no palco da vida real, o passado não pode ser extirpado. Quando muito, pode ser remendado, suturado, a cada dia, com o presente, como jeito de tecer o futuro. Além disso, José Miguel tinha uma confusa percepção de que, no seu passado, poucas teriam sido as vezes em que tivera o papel principal. Se calhar, desde que nascera, em muitas situações tinha sido personagem secundária ou, até, mero figurante...
Se não se sentisse sempre tão carente, talvez não se tivesse apaixonado pela pessoa errada: uma jovem mulher um pouco mais velha do que ele, que lhe dera todo o amor que então precisava, mas que depois o abandonara.
Mas o passado era passado, o que estava feito, feito estava; poucas seriam, pois, as hipóteses de emendar o que, provavelmente, não teria emenda, de endireitar o que nascera torto. Assim, voltar atrás estava fora de questão. A vida tinha que seguir o seu rumo. E amanhã seria outro dia. Quem sabe, igual. Quem sabe, diferente.

10/08/2010

José Miguel


José Miguel de Andrade Cardoso nascera no Porto numa tarde de Junho de 1984. Um parto difícil, por fórceps, que traumatizou a jovem mãe e a levou a pensar não lhe dar irmãos, não fora a ironia do destino a surpreendê-la novamente poucos meses volvidos.

Manuela de Andrade, que descendia de uma família de brasão, quase obrigara o seu namorado Jorge Cardoso a casar com ela às pressas.
Jorge provinha de uma família simples, e fora seduzido pela menina de família, de modos finos, que o deslumbrara com um mundo tão diferente do seu.
Depois, ela fizera-lhe sentir a sua vergonha ao saber-se grávida e ele cumprira o que lhe prometera, mais cedo do que contava. A juventude e a inexperiência fizeram pouco deles, por duas vezes.

Entre José Miguel e Ana Maria havia apenas a diferença de um ano e alguns dias, e a cumplicidade, talvez mais do que o sangue, a uni-los. Os sorrisos de um eram a alegria do outro, tal como as lágrimas de um eram a dor do outro. Desde cedo (mais entregues aos avós maternos do que aos pais, que achando a sua liberdade tolhida pelos nascimentos dos filhos, não se permitiram dedicar-se-lhes em grande parte, delegando muitos dos seus cuidados naqueles, com quem moravam) os dois irmãos refugiavam-se mais um no outro do que no colo dos avós ou dos pais. Frequentaram a escola juntos, até que o percurso académico divergiu. José Miguel estudou sempre no Porto e sentiu demasiado a falta de Ana Maria quando chegou a altura em que ela foi para Lisboa. Sentiu-se desamparado ao faltar-lhe a confidente sempre pronta a ouvi-lo, só a tendo nos poucos fins-de-semana que esta vinha passar com a família. Passou uns maus bocados, com os seus amores frustrados e com a falta da irmã, sem conseguir buscar o apoio no resto da família, mas sobreviveu.

Quando acabou a faculdade, a nova vida profissional de médico dentista levou-o para Coimbra. E é em Coimbra que volta a encontrar Luísa e que lhe sangra o coração outra vez.

(continua)

20/06/2010

Fogo


Naquela tarde, o sol fervia-lhe antipaticamente nas têmporas, ao adentrar-se inconsequente no automóvel, estrategicamente estacionado, e feria-lhe de luz intensa os olhos: nem os óculos escuros lhe escondiam os raios vibrantes. Ainda no dia anterior lhe chovera de improviso e, poucas horas volvidas, um sol sem tréguas o despia de nuvens e se apostava a vesti-lo de fogo. E pensou que precisava de uma cortina de sombra, uma corrente de ar, uns pingos de chuva que o viessem refrescar: ardia.
Dali podia percorrê-la com o olhar quando saísse ou entrasse em casa. E enfim vira-a: bebera-a toda com o olhar. Tinha pensado que era quanto lhe bastava, mas encontrava-se pegado àquele assento, à espera de nova visão. Ela saíra, havia de regressar.
Quanto da vida se suspende de um contacto, ainda que só visual, à distância, mesmo que só um dos lados o saiba, o sinta, o aprecie!

Parecia tomado de febre quando levantou a cabeça para o espelho retrovisor e viu reflectido o seu rosto brilhante de suor, marcado pelo cansaço e pela indecisão. Viu-se o jovem que era, mas sentiu-se velho, ao notar as rugas a marcarem-lhe a testa. Sabia que era preciso construir o futuro, mas então, porque se detinha ante um passado que o prendia numa espécie de limbo, do qual não ousava sair? Queria olhá-la de longe, nem que só uma vez mais, e uma pequena felicidade lhe sorriria. Mas essa felicidade ser-lhe-ia suficiente? Se não podia ser de outra forma, sim, tinha de ser suficiente. Vê-la secretamente, saber que estava bem, encher-lhe-ia os olhos e acalmar-lhe-ia a alma.
Ainda desse modo se agitava quando a avistou de volta: magra, mas belíssima como a conhecera. Escorriam-lhe de cobre os cabelos levemente volteados sobre os ombros, enquanto que os olhos de luar se ocultavam por detrás dos óculos escuros – mas adivinhava-os – e eram fascínio e dor: promessa e recusa. Ali, ao alcance de uns passos: todo o seu tormento, a sua agonia – a sua vida.

(M. Fa. R. )

08/06/2010

A única escolha


Só tinha uma hipótese: ir. Já perdera muito tempo calando o que havia para dizer. Só agora começava a ter noção de que nunca se deveria ter calado.
São as palavras que se calam as que, por vezes, mais doem. Doem como fazem doer as fracturas expostas. E muitas vezes são nódoas negras que aparecem depois de uma pancada. As que ela calara eram tudo isso e muito mais: eram ferida aberta que, por mais curativos que quisesse inventar, não cicatrizava.
Naquela altura não pensou que seria assim. Achou que ficaria tudo bem, que ficaria tudo melhor se se calasse, e que o tempo seria seu aliado. Mas agora, depois dos traumatismos que sofrera em consequência do acidente, olhando para as nódoas negras do seu corpo, que ainda mal se queriam disfarçar, pensava nas outras que tinha por dentro e que lhe doíam na alma. Estivera do lado de lá da vida. E regressara. Agitava-se agora numa convulsão, ao pensar que aquelas palavras não ditas poderiam ter morrido com ela. Palavras em carne viva, que lhe eram sangue escorrendo dolorosamente da ferida recentemente acesa. Sim, tinham sido nódoa negra de sangue pisado. Agora eram chaga com sangue vivo que se lhe vertia para dentro em catadupa e lhe revolvia as entranhas até a sufocar num vómito aflitivo. Chorar, por vezes resolve; mas outras, nem por isso. E chorar não resolvia a sua dor. Tinha que falar. Tinha que o procurar e falar.
Depois de ter despertado de todo um emaranhado de alucinações, tomara consciência de que o tivera outra vez e que, outra vez, o perdera. Se ele tivesse voltado, talvez que não lhe tivesse sido difícil dizer-lhe tudo. Mas ele não voltara. Não voltava. A espera era inútil. E só ela e Deus sabiam o quanto lhe doía tudo. Tudo.
As palavras que se calam agigantam-se dentro do peito e chega uma altura em que têm de eclodir. Mesmo que façam doer ainda mais do que doem. Mas, se para sarar uma ferida tiver que doer ainda mais, que doa! Assim é que já não podia continuar. Falaria. Falaria tudo o que havia para falar. Tudo. Até à última lágrima. Até à última gota de sangue.
Engoliu a enchente de lágrimas misturadas com essa decisão e foi em frente. A vida tinha-lhe dado outra oportunidade que não podia desperdiçar. Só tinha uma hipótese: ir.

(M. Fa. R.)

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