domingo

Cor matinal

Um som estridente ressoou pelo casarão adentro, fazendo rodopiar, num gesto de bailarina, o coração assustado de José Miguel. Ainda de forças quebradas pela noite mal dormida, teve de inventar um grande esforço para se erguer.
Transpiravam-lhe as mãos quando rodou a chave na fechadura.
Do lado de lá, dois rostos femininos encaram-no com surpresa. Identificam-se.
– Quem é o senhor? – Pergunta uma das jovens.
José Miguel fica sem saber que responder, mas consegue dominar a situação e ilude a pergunta.
– Que desejam?
– Vimos buscar os meninos. – Percebe uma resposta seca, talvez numa tentativa de cortar pela raiz uma eventual resistência.
Então, propõe-se travar aquele propósito sem qualquer capitulação. Estava ali para proteger os seus pequeninos.
– A mãe deixou-os sozinhos em casa…
– Não! – Cortou José Miguel. – Deixou-os comigo!
Assim. Com total liberdade. Ninguém lhe arrancaria aquelas pérolas que acabara de encontrar. Por isso ensaia o acto falaz.
– São meus filhos. Nunca permitirei que os levem!
– Mas a mãe…
– Já não têm mãe. – Gemeu. – Não os podem deixar também sem pai…
Quase desfalecia de dor. José Miguel começava, agora, a entregar-se a um sentimento de inquietação que o rondava, pela ideia de que poderiam querer interná-los num lar de acolhimento de crianças em risco, afinal eram órfãos, e ele um intruso.

Mas não existem verdades absolutas. Os sustos e as surpresas surgem sempre repentinamente, revelando o quão ilusória é uma certeza e abstracta uma harmonia. Do mesmo modo, na escuridão pode esplender inesperadamente uma luz, qual galanteio que converte uma amálgama de mágoas em sintonia perfeita de cores e tons.

Deste confronto com as Técnicas de Serviço Social vem a nascer nova alma em José Miguel. Luísa vive. Acordou quando todos a julgavam morta. Era ela que as tinha mandado.

[Texto enviado ao 7.º Jogo das 12 Palavras]

sexta-feira

Sombras IV

Desde aquela manhã em que acordara com o bilhete ao seu lado, aquele bilhete manuscrito por aquelas mãos que tinha tido entre as suas, aquele bilhete que ficara como despedida de um amor que parecia não ter fim, desde aquela manhã, que a sua vida tomara um rumo sempre pendente de um acalentado reencontro.

Mergulhou o rosto entre as mãos e abafou os soluços que lhe saltavam do peito. Olhou a foto uma vez mais e percebeu o seu coração a bater pesadamente.

Ai, o coração... como batia forte quando, tímidos, os seus passos o levaram até ela!
Fora ficando fascinado com o seu sorriso, que exalava o perfume das flores abertas ao sol da manhã. Os seus olhos transbordavam lagos verdes de uma perene sedução; os cabelos ondeavam reflexos quentes do sol e todo o seu corpo se movia nessa luz.
Inflamado de paixão e sedento de amor, o seu olhar traiu o que o seu peito encobria. E nesse lume aceso arderam os dois, quando os seus lábios se roçaram...
“Amo-te..." - Ainda ecoava aos seus ouvidos.

- Porque me abandonaste depois da mais bonita noite de amor que me deste? - Soluçava - Senti tanto a tua falta!... Perdi-te... e agora perdi-te para sempre! Fazes-me tanta falta…
Sentia-se inundado por um sentimento de perda irreparável. A esperança que lhe permitira caminhar, toda se esfumara agora como um feitiço quebrado.

O castelo de sonhos que tinha construído desmoronara-se nesse dia em que lhe perdera o rasto. Luísa deixara-o, abandonara-o. Só constatara isso, a muito custo, depois de algumas infrutíferas buscas. Depois acomodara-se. Se era isso que ela queria, tinha que respeitar. Se bem que a esperança, essa, nunca o deixara. Afinal o mundo até nem era assim tão grande.
Seguira com a sua vida. Concluíra o curso e tivera as suas aventuras, mas não se ligara a ninguém. Os seus sonhos residiam na reconstrução daquele castelo desmoronado. Castelo esse que agora se diluía em pó.

Mas, no meio da nuvem de poeira negra, brilhavam duas pedras preciosas que não sabia que existiam. Agora arrancaria força dos escombros do seu peito para, com elas, alicerçar um novo e dourado castelo.