segunda-feira

Droga Maldita!


O lado negro acabou por levar vantagem.
Existe um reino dos mortos-vivos que lança uma capa negra, como rede pesqueira, sobre um mar ingénuo e carente.
As aves partiram em debandada, sem rumo nem norte, deixando-o entregue à sua má sorte. E ele não se conseguiu desenvencilhar, nunca mais, da rede. Ainda espreitou, algumas vezes, por um buraco que alguém lhe alargou, mas o corpo não obedeceu e acabou por sucumbir à desgraçada mente, cada vez mais fraca e doente. Tó. Droga maldita, que escreve a morte sem piedade nem dó.
RIP.

Acolhe nos braços, Pai, este teu filho pródigo.

sexta-feira

Desfolhada


A madrugada e a manhã foram longas.
Aquece. Está quente. Cada vez mais quente. Tão quente de uma luz de fogo que doira.
Espigas de milho, loiras, reluzem na eira ao calor do sol.
À medida que estas haviam sido despidas das camisas, logo cestos as tinham aparado para, depois de cheios, serem levadas para a eira e estendidas ao sol a corarem como oiro.
Era uma montanha enorme, que custou a vencer.
Os milheiros tinham sido cortados da terra com foicinhos, um a um, dias antes. Também me calhou a mim, para aprender, mas os canoilos eram grossos e a minha habilidade não era nenhuma. Cortei-me num dedo. A mãe disse que saíam por lá as tripas grossas. E “vai-te embora, vai-te embora… que não sabes fazer nada.”
Não percebi isso das “tripas grossas”, assim como há muitas outras coisas que não percebo, e depois riem-se de mim por eu não perceber, mas também ninguém me explica nada, e uma pessoa não nasce ensinada. E não é verdade que eu não saiba fazer nada, chateia-me que me digam isso, é só que há trabalhos a que não estou habituada. Mas a mãe tem a mania de me comparar com as outras raparigas que têm à volta da minha idade, que começaram a trabalhar ainda crianças e que, por isso, trabalham como “gente grande”, como ela diz, e que eu não presto para nada. Eu não lhe levo a mal de ela me dizer que não presto para nada, porque penso que percebo o que ela quer dizer: que sou muito miúda e franzina e assim não tenho força nenhuma. É que ela nunca teve jeito para as palavras.
Enrolei um lenço no dedo, por causa do sangue que escorria, e fui para casa, mas isso já passou e hoje já deu para ajudar a descamisar o milho.
Foi o ti Joaquim Fernandes que trouxe todo o milho na palha, em várias carradas de carro de bois, para o troço da oliveira ao pé da adega da nossa antiga casa. É aí que está a eira. Ontem à noite juntou-se um grande grupo à volta da montanha de milheiros e deram-lhe um grande avanço, à luz da lua e do petromax. Hoje começámos cedo. A tia e a madrinha vieram ajudar-nos, à mãe e a mim, e acabámos com o que faltava. O pai tinha-me arranjado, de um pau de moita, um bico para descamisar as espigas, e eu desenrasquei-me muito bem.
Agora cheira a espigas de milho acabadas de desfolhar. Um cheirinho tão bom e doce, que o sol espalha por aí além.

quinta-feira

Pontos nos iiiiiii


Os olhos são espelhos da alma.
Quando a alma dói, quando chora ou ri, ou tem sono, frio ou fome… ou quando adoece… os espelhos da alma mostram-na nos seus diferentes tons.
Mas, e se são os espelhos a adoecer? Como podem eles saber?
Há já algum tempo que os meus olhos se magoam. E a alma magoa-se por eles.
É o espelho que se vira ao contrário. É o mundo que fica invertido. Raiam-se os olhos como um espelho partido. Espetam-se na alma aos pedaços. E até o corpo fica ressentido.
Parecem fungos, ou farpas, que se introduzem nas frestas e distorcem os reflexos de luz. São areias movediças. São pontes levadiças que não me deixam passar. São cancelas, são tramelas, ciscalhadas, gramíneas, remelas, e quero livrar-me delas.
Acho que preciso de um colírio. Para lavar os espelhos. Para tirar pó dos cantos. Para lhes dar outro brilho. Para escorrer até dentro e regar bem a alma.
Porque o espelho a aprisionou. E a alma não se vê no espelho.
Tenho de marcar consulta no oftalmologista.
Ou terei de desistir de ti…