quinta-feira

Subir o Caminho II


Acordo cansada. Com o coração a querer saltar-me para fora do peito. Há dois dias que ando cansada. Um cansaço em estado crescente a escrever-me no corpo rimas de todas as coisas e de coisíssima nenhuma. Sinto-me quase apática, quase sem qualquer vontade. Como se se tivesse levantado, à minha volta, uma nuvem de pó desta cruzada. O que quererá o corpo falar-me? Há, por vezes, palavras tão difíceis de se deixarem agarrar… e entender. 

Quem me dera uma chuva miudinha que me refrescasse a fronte latejante, que orvalhasse o pó do caminho. Que bom seria sentir o cheiro a terra molhada, para que esta penitência fosse menos custosa, um pouco menos pesada, menos severa; mais airosa, mais suave… mais lavada. 

É assim, no meu amargo soluço, que a madrugada me encontra, começando a espreitar-me, avidamente, por debaixo da porta. Primeiro, uma nesga de claridade, depois um céu aberto. E entra no quarto uma sinfonia de luz, recortada a chilreio da passarada. Percebo que as estrelas lá fora, no céu, já se despediram da noite, e está agora o dia a ser torneado pelo sol. E o meu corpo a pedir mais repouso, sem se atrever a levantar! 

O dia ergue-se e enche toda a casa, pássaro louco a esvoaçar esbaforido numa madrugada de Verão, sacudindo as asas e agitando tudo com elas. A manhã a esticar as penas, a espanejar as asas ao sol. E eu a encolher-me, a preguiçar, sem me apetecer espreguiçar-me, mole, apesar da luz intensa do sol a enfiar-se-me pelo quarto, pela cama afora, pelos lençóis adentro; apesar das vozearias da passarada, das labutas a começar lá fora. 

Maldito cansaço que me prega à cama, que não se desprega de mim. 


Há dias em que o sol nasce quadrado, 
em que o fogo gela 
e em que a maré está vazia 
de vontade de a encher 

Há dias em que o silêncio ensurdece, 

em que o amor perde a coragem 
e em que o norte perde o rumo. 

Nestes dias, 

há uma alma angustiada 
que clama por consolo 
mas o vento cala a sua voz. 

A esperança esmorece, 

a força desvanece, 
a fé hesita, 
a luz apaga-se. 

Nesta noite escura, 

que me sufoca a alegria 
e me impede de respirar a Tua paz, 
que eu saiba perseverar no meu caminho, 
mesmo sem saber qual é. 

Que eu saiba ter paciência 

e manter acesa a chama da confiança, 
mesmo sem saber porquê. 

Que eu saiba acreditar que nela permanecerei, 

impotente e só, 
apenas o tempo que for necessário…
(Raquel Dias, Há dias assim, em: Renascer Do medo à confiança)

8 comentários:

Daniel Aladiah disse...

Querida Fá
Há dias assim, e outros que não. Abrir as janelas, quando as portas se fecham, mas nunca deixar que o tolhimento se instale.
Beijo
Daniel

Nilson Barcelli disse...

Um ataque de preguicite aguda...?
Mais a sério, gostei imenso do teu texto. Como sempre, aliás.
Tem um bo fim de semana, querida amiga Fá.
Beijo.

SOL da Esteva disse...

Um excelente texto teu e Poema da Raquel Dias a completar.
Parece que tudo se conjuga no tempo dos sentires; as Palavras (e frases) essas é que têm dizeres diferentes, dizendo o mesmo.
Ter paciência, é pouco; tem Fé...



Beijos


SOL

O Árabe disse...

É muito bom caminhar contigo, Fa; com ou sem preguiça, gosto da sinceridade e da poesia com que nos apresentas o caminho. Boa semana, amiga!

Ana Tapadas disse...

Uma conjugação perfeita o teu texto e o poema de Raquel!

Beijo

Vanuza Pantaleão disse...

Que quererá o corpo falar-me?
Há dias em que me faço a mesma pergunta.
Inteligente e sensível.
Carinhos, Fa!

Existe Sempre Um Lugar disse...

Boa noite, temos dias que andamos angustiados sem sabermos porque motivo, nem sempre conseguimos ter motivação e cabeça fria para enfrentar o sol quadrado.
AG

lidacoelho disse...

Bom dia
Foi bom estar aqui nesta madrugada e tentar beber as tuas sedes de chuva nos dias em que tudo mos pesa, nos rasga, nos ensurdece.
Um texto demasiado belo onde parece sentir-me bem pela luz que espreita e me refresca.