Cresci
Eu gosto do quentinho do Verão. Do cheiro das flores dos pinhais, que a brisa da tarde me faz chegar, quando passo lá perto. E também do canto das cigarras. Só tenho medo duma coisa: das cobras que costumam aparecer nesta altura.
E gosto das idas à praia. Mas este ano preciso de um fato de banho novo, pois o que tenho já é pequeno. Acho que cresci muito desde que comecei este caderno. Já foi há tanto tempo, que as páginas até já estão soltas.
Sim, é verdade: cresci. Quando o comecei, andava na terceira classe e agora já acabei o segundo ano do ciclo… quero dizer, acabei a escola, pois já está decidido que não vou continuar. Os pais pensam que aceitei isso pacificamente, mas eu, embora não tenha feito dramas, sinto alguma revolta dentro de mim, pois não era isso que eu queria. E pior me sinto quando a mãe repete, para quem a quer ouvir, o que os professores disseram que “quem é bom é que sai!”. Mas, um dia, ainda hei-de ganhar coragem e dizer-lhes, bem na cara, que me quebraram as pernas!
Quebraram-me, sim, as pernas e, com elas, os sonhos de vir a ser professora.
Posso dizer que a minha meninice morreu. Cresci.
Ao longo deste tempo fui aqui rabiscando alguns retalhos soltos, como soltas se acham as folhas do caderno, da vida desta infância que agora me foge. De fora ficaram muitas coisas por contar, que se perderam no tempo, e que este se encarregará de, aos poucos, talvez, apagar completamente.
A minha história mais que perfeita acaba aqui.
Agora só quero um fato de banho novo.