25/03/2025

O Desembaraço


De molhos de garrafões de plástico vazios nas mãos, aproximo-me da fonte para os encher de água. Sabe bem assentar os pés, descalçados os chinelos, no pequeno lastro alagado. No tempo do calor é fresquinha a água desta nascente que jorra continuamente em bica desembaraçada; como desembaraçadas são as duas mãos idosas que ali esfregam a roupa ensaboada na pedra. 
Dou as boas-tardes e peço licença para encher os garrafões, se não for incomodar. 
– Sirva-se à vontade! 
– Obrigada! Sabe bem estar aqui com os pés fresquinhos… – digo para meter conversa. 
– Pois é. Agora é mais fresquinha e no Inverno é mais morninha… 
Vou enchendo vasilha a vasilha, enquanto ela vai esfregando e molhando a roupa devagar na bacia com água, virando-se de lado para mim. 
 – Só há quem a venha aqui estorvar… – digo, pensando que posso estar a demorar, e ela precisará de se servir da bica da água. 
– Não estorva nada. A gente nunca estorva ninguém. 
– Se calhar andamos mas é por cá a estorvar-nos uns aos outros… 
– Não senhora! A gente não estorva nada. Antigamente tinham seis e sete e oito ou nove filhos e não se estorvavam uns aos outros… agora são menos, não há razão para se estorvar ninguém. 
– É bem verdade. Agora é só um, ou dois… quando é!... 
– E tudo se criava. Você se calhar não sabe… não era do seu tempo, mas, e quando se partia uma sardinha em dois ou três só com um bocadito de broa?… agora é só lambarices… e coisas caras. 
– Realmente… ainda dizem que agora os tempos são maus… e que não dá para se viver… as pessoas habituam-se ao que é bom, ao conforto, e já ninguém quer passar com pouco e fraco. 
– Ah, mas olhe, acolá em cima há uma rapariga, você não deve conhecer, que não é de cá… bem, quem mora ali são os pais, ela agora já não mora cá, que já está casada; quero dizer, casou e separou-se e voltou a casar ou a juntar-se… 
– Pois… agora já não se estranha isso… 
– É assim!... Pois essa rapariga trabalha, ou trabalhou, num talho. E contava ela que vinha a carne para o talho e ia-se vendendo para uns e para outros… e passava-se uma semana e nunca se vendia toda… e a carne que ficava começava a ganhar bichos, daqueles com um rabito, você não sabe?... têm um rabito… uns bichos com um rabito… e depois passavam aquela carne por uma máquina e bichos e tudo, moíam aquilo tudo… para… 
– Para fazer hambúrgueres?... 
– Isso. E sei lá mais o quê… olhe, depois era tudo vendidinho!... 
Sorri levemente, num misto de assentimento e incredulidade, acabando de encher os garrafões e acabando a conversa por ali mesmo com um adeus. 
E a água a jorrar sempre certinha e desembaraçada ficou; como certinhas e desembaraçadas as palavras de quem com mestria as ditou.

24/03/2025

Arte(lharia)

- Isto mais parece um SALSIFRÉ, saído de uma qualquer FÁBULA ESCAGANIFOBÉTICA! Assim disparou dona Prazeres, toda finesse, de braço dado ao seu NOVO namorado, enquanto percorriam a galeria. 
- Não gostas, minha querida? – Pergunta-lhe o namorado, com o sorriso a esmorecer-lhe nos lábios. 
- Não! E não vais QUERER que eu diga que gosto, só para te fazer o jeito! 
Luizinho sentiu-se à DERIVA, a ficar sem pinga de sangue. Tinha preparado a exposição com tanta PAIXÃO, com tanto amor e dedicação… e agora… agora o resultado era esta insatisfação! 
- Estás a mangar… não vês que isto é arte, minha querida?! – Refere ainda com alguma exaltação. – Um estilo de arte muito SINGULAR! 
- Arte? Chamas arte a estas esborratadelas, a estas bacias cheias de mazelas, a estes cacos espalhados pelo chão? 
O namorado, coitado, a sentir-se mal-amado, não queria acreditar neste AUTÊNTICO descalabro. Ele que pensara fazer-lhe uma surpresa, daquilo que, para si, constituía uma proeza, e ficava agora mudo e quedo, debatendo-se entre o argumentar e o encolher-se num canto a chorar. Ele bem sabia como a dona Prazeres era difícil de contentar… mas ainda pensara em fazê-la RENASCER com a sua arte… talvez que nisso ela pusesse um LÍMPIDO olhar. Mas, qual quê? O seu SUPREMO mau feitio tinha que dar o seu sinal! E foi isso que fez com que a coisa azedasse e tivesse corrido mal. Mas então, o Luizinho, longe de estar resignado à sua sorte, replica-lhe num rasgo audaz: 
- Pois olhe, minha querida, não é assim que se conquista o coração cá do rapaz!
(Mais um texto das 12 Palavras - 10.º jogo )

23/03/2025

Dia de Aniversário


Fiz catorze anos. Fiz e pronto. Passei, assim de um dia para o outro, de treze para catorze sem mais. Acho que isto de fazer anos merecia uma comemoração… mas não: é um episódio banal, que quase nem se dá por isso. 
Não me lembro de alguma vez se importarem assim tanto com os meus aniversários, excepto o meu mano padrinho, que me manda sempre um postal ilustrado de onde estiver. Mandou-me um da Guiné, quando esteve lá em militar, com a fotografia de uma rapariga preta muito bonita — uma bajuda futa-fula — onde me dizia alguns nomes das variadas etnias de lá (para além dos futa-fulas, há os fulas, os manjacos, os balantas e ainda outros). Agora nunca se esquece de me mandar sempre um do Luxemburgo. O deste ano é encantador — tem um bonequinho jardineiro que leva um carrinho de mão com flores dentro e, no cimo, uma frase: “J’ai mon charriot remplit”; é tão lindo que me perco a olhar para ele. 
Também o meu mano António chegou a oferecer-me, num aniversário quando eu era ainda pequena, uma boneca grande, quase tão grande como eu era — mas já a dei às minhas duas sobrinhitas, filhas dele; espero que gostem dela tanto como eu e que a estimem. Mais tarde, noutro aniversário, ofereceu-me dois bonecos que retirou da sua colecção, que ia ganhando nas latas de Toddy, e aos quais ele pintava as roupas de várias cores; pareciam dois marinheiros! Estes, com o tempo e as brincadeiras, acabaram por se estragar, começando a partir-se pelos calcanhares, talvez por eu bater com eles no chão como se os pusesse a andar. 
Desta vez, o dia ficou marcado só mesmo pelo postal, que eu guardei religiosamente junto dos demais.

17/03/2025

Cinza

O sorriso já de si amargo morreu-lhe por completo nos lábios; a luz esmoreceu-lhe no olhar. O brilho opaco que ainda despontava no seu rosto foi-se apagando como uma torcida que deixa de fumegar.
O lume vai-se lentamente apagando na fogueira já gasta. Não quer arder. Não quer cintilar. Gasta. Apagada. Sem fulgor. Tudo é negro no canto cada vez mais escuro. Vai-se extinguindo a lenha dando lugar à cinza que se vai acumulando e encobrindo, porventura, algum brasido ainda quente. Um coração, ainda rubro, que teima em não parar de bater. Mas por quanto tempo mais, se um mundo de escombros em putrefacção lhe rasgam as carnes e a alma? Só cinza. Lixo. À sua volta o que mais encontra é lixo, lixo, lixo, lixo, lixo, lixo, lixo, lixo, lixo, lixo, lixo…

Cinzas?

04/03/2025

Espelho meu...

Hoje o pai levou-me ao cabeleireiro. E comprou-me uma calça comprida e uma camisola com comboios na frente.
A mãe barafustou. Isso eram ares que se dessem à garota? "Olhem para esse cabelo! Não era muito mais lindo como estava? Era preciso ir gastar dinheiro à cabeleireira para lhe fazerem uma coisa destas? Eu não lho tenho arredondado sempre? E as calças!? Onde é que já se viu uma cachopa de calças? Tu não tens juízo nenhum... é por essas e por outras que..."
Fechei-me no meu quarto à espera que se calassem.
O pai é mais novo do que a mãe. Não em idade, mas em ideias, na maneira de ser e de viver. Se calhar por conhecer e falar com tantas pessoas. Quando sai gosta de ir bem vestido e engravatado e de corrente do relógio à cintura. E tem orgulho em me apresentar aos seus conhecidos.
A mãe é antiquada. Não tem gostos. Mais parece minha avó. Só me quer vestir com os vestidos de chita que ela própria costura.
Mas quando eu era mais pequenina era uma princesa. Ouço contar que, quando ainda mal falava, o tio do Brasil, quando cá veio, me trouxe um casaco de crochê branquinho, que fez a inveja da minha vizinha:
- Eh cachopa, pareces um Bispo!!!
Quando alguém me perguntava o que ela me tinha chamado, eu respondia "O Bico! O Bico!"
Dizem-me que eu era uma menina "nas mãos das bruxas"...
Eu não sei muito bem o que isto quer dizer, mas penso que é por eu ser a única criança pequena da família toda. As bruxas devem ser as minhas três primas, que são raparigas crescidas que já vão para a "Borda d'Água", e que gostavam muito de andar sempre comigo ao colo.

Já não estou a ouvir vozes. É altura de ir ao quarto dos pais ver se estou bonita!
Neste quarto há dois espelhos grandes, um no guarda vestidos, de um lado da cama e outro no peciché, do outro lado, um em frente do outro. É aqui que gosto de me mirar!
"Espelho meu, espelho meu, haverá alguém com um sorriso tão lindo como o meu?!"

É o pai que me tem ensinado a ser vaidosa. Para desespero da mãe.
[7]
(Publicado em: Memória Alada, 2011)

01/03/2025

A rede


Há uma rede de arame enleado, pregada em estacaria por cima do muro; caída a certo passo, em certo tempo derrubada, e a par e passo pisada. É uma vedação que nada veda: nem vento, nem maresia, nem tempo, calor ou invernia; nem vegetação, pássaro, insecto, luz da noite ou do dia; ninguém. 

O tempo vem empurrado pelo marulhar ao encontro da praia e parece ir, dolente, levitar nas asas das gaivotas que não param de dançar, suspensas, lá em cima, num céu acinzentado, meio doente, meio enfarruscado. 

A rede delimita o olhar de um ao outro lado – fora e dentro, só olhar. De fora, atrás, o mar; do outro lado, lá dentro, o tempo custa a passar. De fora, os olhos só vêem a espera, pesada, a arder. 

Por um pouco de tempo, o olhar esqueceu-se de se envolver, semicerrou-se, cansado de pestanejar; e o tempo suspendeu-se, amarelo, na ponta de uma estaca onde a rede se queda, senhora de si, empertigada, enviesada, salpicada da maresia demorada…
 
Dali a outro pouco tempo, do nada, bateu o sol ao atrever-se a espreitar. Um ar de graça que, quer se queira ou não queira, de qualquer maneira, passa. Portanto, sol de pouca dura (e ai, a fome… que ninguém a atura!). 

Mas o tempo é para comer e estar. Porque, do lado de dentro da rede, há outra rede que faz o tempo tardar.

28/02/2025

Inocência

A felicidade é da cor de um céu sem nuvens e tem retido o odor das flores silvestres que se inspira, em tardes soalheiras, ao longo dos pinhais por desbravar; o canto das cigarras e dos grilos imprime-lhe o tom da melodia que sai da boca da criança, que apenas tacteia ao começar a desfolhar o livro da vida.
Oh, como sou feliz ao perscrutar os anelos do coração, os anseios de uma alma que ainda não ousa abrir os olhos!
Voo em meu redor, como uma borboleta mal saída da crisálida. Tudo à minha volta foi feito para mim. É meu.
As primeiras lembranças são marcantes. Permitem a um ser abrir-se ou fechar-se, dar-se ou retrair-se.
A idade da inocência é como o carneirinho da tia a quem ensinei a dar marradinhas.

O carneirinho estava sempre fechado naquele curral ali em baixo, na parte de trás do terraço.
Era de pêlo branquinho, tão pequeno, tão lindo!...
Quando a tia ia levar o almoço ao tio mandava-me para a minha mãe. Mas eu batia o pé e não queria ir. Sentia-me melhor em casa da tia.
- Não podes ficar aqui... tenho que fechar as portas. Olha, só se ficares no curral do carneirito. - Dizia-me a tia, para que eu fosse para minha casa.
- Eu fico com o carneirito. - Respondia decidida.
E a tia fechava-me lá no curral ao pé dele, avisando depois a minha mãe.
O carneirinho aproximava-se de mim e eu, com algum receio, colocava as mãos à frente para me proteger e mandá-lo parar.
- Ai não, não, não, não...
Mas ele batia levemente com a cabeça nas minhas mãos, aprendendo assim a dar as primeiras marradinhas, claro que pelo seu instinto, mas também pela força do meu gesto repetitivo.
E era assim que a minha mãe nos surpreendia.
A beleza destas brincadeiras faz-me acreditar que a inocência anda sempre de mãos dadas com a felicidade.
[4] 
(Publicado em livro: Memória Alada, 2011, pág. 14)

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