16/06/2026

Subir o Caminho VI

Sento-me por momentos numa pedra na encosta a meio da ladeira íngreme, ofegante de cansaço; à minha volta, fragrâncias húmidas de terra e de musgos. As pedras, castanhas de terra, gemem pequenos fios frescos prateados. Por baixo de uma pedra espreita um pequeno lagarto, ou lagartixa – nem sempre sei bem distingui-los; e por entre outras, pequeninas flores. Até no meio das pedras, Deus faz brotar as mais belas flores. Para que se aprenda a sorrir e se esqueçam, ainda que por momentos, as dores. Para além da meta que se pretenda alcançar, é preciso saborear os bons momentos do caminho.

Ergo-me, depois de inspirar o pequeno descanso. No meio do caminho a pedra ficou.
A pedra. E as outras pedras.

As pedras, que são tão essenciais aos alicerces! – sem alicerces somos construção frágil, que em qualquer altura está sujeita a ser levada pela menor ventania.

Pedras que tanto fazem parte do caminho! Continuam no meu trilho a querer morder-me os pés na subida.
Temos que saber aproveitar as pedras em nosso favor, e contornar as que são obstáculos... é o que faço, é o que tento sempre fazer!
A vida está longe de ser planície, embora também as tenha. Mas de montanhas e planícies se conjuga o verbo viver.
A vida, como os ramos de uma árvore, entrelaça-se nela própria e vai seguindo rumo à claridade. Uns ramos vão chegando ao fim do seu percurso, enquanto outros brotam e vicejam.
Por vezes os troncos de algumas árvores são castigados com pedras – pedregulhos – lá colocadas ao seu redor rente ao chão. Para quê? Talvez para que aprofundem as raízes à procura do melhor sustento e venham depois a produzir muitos e saborosos frutos – ouvi dizer.

E vou subindo. De vez em quando resvala-me, por baixo dos pés, uma ou outra pedrita que depois rola por ali abaixo, atrás de mim. Não faz mal. Eu prossigo a marcha. Subo. Por vezes como quem trepa. Tenho de subir. Nem que as mãos tenham que ir ao chão aqui ou ali, quando preciso for, para segurar, amparar, para que não me surpreenda alguma queda, mais ou menos aparatosa, e esfole os joelhos, ou a alma.
É dura a subida; mas sei que depois de subir, ainda terei de descer para voltar para casa. Eu sempre pensei que descer era mais fácil – “para baixo todos os santos ajudam”, não é? – Não, não é, afinal. Disseram-me que descer custa mais. Algumas vezes terei de descer de costas, escorregar sentada, com todo o cuidado, não vá cair ao desamparo, e o vazio venha a ser o ganho da jornada.

E andamos toda uma vida com algum vazio por preencher, a esfarrapar-nos contra esquinas de pedras agrestes que nos cerceiam. Quando, por fim, nos libertamos, tantas vezes ficamos mudos e quedos sem conseguir absorver a realidade.


«Quando as pedras frias
caem brancas e torcidas
sobre as palavras imperiais,
mordendo-lhes as raízes
como se fossem o contrário do que são,
fecham-nos a alma e ficamos sem saber
se as asas se quebram ou
se ficamos de pé à espera das próximas pedras.»
(José Maria Brito Sj)

14/06/2026

[2] Outras Gotas

(anterior)

A IPSS local tomou conhecimento das aparentes necessidades do José, através de um dos directores, que atentou na situação e levou o problema à reunião de direcção. A direcção deliberou avaliar a situação e estudar as possibilidades de resolução. Talvez conseguir-lhe um subsídio eventual para as obras do telhado e trazê-lo para o Centro de Dia onde tomaria as refeições e o banho.
Dois dos directores ficaram responsáveis pelo caso e, no dia seguinte, falaram com a Assistente Social da Instituição.
Seria preciso, primeiro, conhecer a fundo a situação e dar apoio perceptivo ao José, ou seja, ajudá-lo a perceber e a avaliar o seu problema, a dar-lhe significado e a estabelecer objectivos realistas e, só depois, dar-lhe o apoio instrumental: ajudá-lo a resolver o problema através da prestação concreta de bens e serviços. O problema é, primeiramente, do José, ele é que tem de querer resolvê-lo, se conseguir perceber que tem um problema e que o quer resolver.
Combinaram fazer uma visita ao José, ficando incumbido de o abordar, para conseguir agendar a visita ao domicílio, o director que trouxe o problema à discussão, o qual teria mais hipóteses de ser bem sucedido, uma vez que tem alguma confiança com ele.

Passados dois dias a visita estava marcada. O José disse que sim, que podiam ir lá falar com ele quando quisessem. Seria então no dia seguinte.

Continua

13/06/2026

Prova final

Hoje foi o meu exame da quarta. Não foi na minha escola, mas numa da sede do concelho, ao lado da Casa da Criança, onde está uma estátua dum rapazinho a tocar uma trombeta longa.
De manhã, uma prova escrita parecida com as que estava habituada a fazer e, de tarde, a oral. Não achei nada difícil, pois correu-me muito bem. Não dei erros no ditado e acertei todos os problemas. Fiquei aprovada, claro, nem outra coisa estava à espera, depois de tanto esforço despendido! Fiquei a saber que um dos professores é amigo de um dos meus irmãos, pois quando ele viu o meu nome, perguntou-me se eu seria a sua irmã. E conheci uma menina, a Joana, que me disse que ia estudar para o Ciclo e me perguntou se eu também iria. Respondi que não sabia, que o meu pai é que mandava. Então ela insistiu com o meu pai e ele disse que ia pensar no assunto. Estou com esperança de que ele me deixe ir, uma vez que já lá teria uma amiga.

No fim da oral o pai trouxe-me ao parque infantil.
O parque infantil fica no jardim da Várzea e é muito bonito. Tem canteiros de flores no meio de grandes relvados e é coberto de grandes árvores que fazem sombras fresquinhas. De um dos seus lados corre o rio que passa debaixo da ponte.
É a primeira vez que me aventuro no escorrega e nos cavalinhos de roda. Um baloiço, esse já tinha experimentado. Os manos fizeram-me um, na figueira ao pé da eira, e posso balançar-me nele, sempre que me apeteça, durante as tardes depois da escola, desfrutando da sombra da árvore, enquanto me delicio a observar os pardalitos que trabucam nos seus ramos.
Um após outro, experimento os brinquedos novos, entranhando os pés na areia, com a sofreguidão de querer eternizar estes momentos, neste lugar que me parece ser o remate de uma etapa e, ao mesmo tempo, me indicia um universo por descobrir.

(Memória alada, pag. 28)                      comentar

12/06/2026

[1] Gotas

O José tem 76 anos. Fala-se de miséria habitacional, concretamente ao nível do telhado, que se encontra degradado, deixando que as gotas de chuva lhe entrem em casa e caiam em cima da cama. Imagina-se o que lá vai dentro. Além disso, o seu aspecto denuncia falta de cuidados de higiene pessoal, em que as pulgas encontraram poiso; parece, ainda, não usufruir de uma alimentação digna, sendo visto, na rua, a comer apenas bocados de pão com alguma outra coisa. O José é portador de algum atraso mental e vive sozinho, sem suporte familiar, depois de terem falecido, primeiro o cunhado, única pessoa com maior tino naquela família, e depois a irmã, que lhe cuidava da alimentação e da roupa.

Ninguém pediu nada. Há olhos para ver. Ouvidos para ouvir. E uma pele para se arrepiar.
Há uma intervenção para fazer.

Continua

11/06/2026

Luísa


Luísa casara numa manhã de Junho; era Primavera, quase Verão. Tinha sido uma cerimónia íntima no registo civil, apenas com um casal amigo de ambos por testemunhas, seguido de um almoço a quatro; e pronto.
O marido, filho único de pais já idosos, não tinha mais família chegada; por isso não queria grandes cerimónias nem boda e resolvera assim. Ela amava-o e conformara-se; que fossem um do outro, construir uma vida em conjunto, era tudo o que lhe bastava. Mas a sua família não lhe perdoou o casamento fugido e repudiou-a. Acabou, com muito custo, por se habituar a esse afastamento; em contrapartida ganhou outra família: os pais do marido, que passaram a ser a sua única família – eram eles que a estimavam como filha.
Casada ainda não era há um ano quando o marido lhe desapareceu, num dia de nevoeiro, qual D. Sebastião. Passou muito mal. A dor e o pranto pareciam querer roubar-lhe a vida. Dormia mal, comia mal… ou mal dormia e mal comia, ao que se seguiram quebras de tensão, desmaios; enjoos. Definhou. Estava grávida, soube-o depois. Isso a salvou. E foi mãe.
Ter um filho sem pai era ter que ser mãe e pai para ele. Dedicar-se inteiramente àquela criança supria-lhe a falta do marido e ajudava-a a não pensar no sofrimento que a falta dele lhe causava. O filho era vida, alegria ressurgida, amor perpetuado.
Visitava amiudadamente os sogros, os quais deliravam com o neto que ia crescendo esperto e saudável, recordando-lhes saudosamente o filho, ao mesmo tempo que lhes preenchia algum do vazio deixado. As férias e muitos fins-de-semana eram passados juntos, até que um dia mais tarde Luísa se mudou para lá. A idade avançada tornava-os cada vez mais dependentes e não tinham mais ninguém senão a ela e ao menino.
Mas não foi só isso que a levou àquela mudança de cidade e de vida. É que a vida também é feita de repetições…

10/06/2026

A Casa dos Ratos 4

(anterior)

Os ratinhos na sua gaiola
Vão brincando e vão sonhando
Que um dia, não sabem quando
Mas um dia, qualquer dia
Hão-de roer e roer
Ou esticar, ou encolher
Mesmo a muito doer
E passar
De dentro para o outro lado
Debaixo dos bigodes do gato
Que os vigia deitado
Dolente e anafado
À espera de os caçar.
Desengane-se o gatarrão
Que não. Bem pode esperar sentado.

Da prisão à liberdade
Há grades com frestas estreitas
Que os separam do mundo

Aqui têm o que comer
Túneis por onde correr
Camas fofas e quentinhas
E enfeites ao pescoço
E lá fora o perigo espreita
Mas isto de se ser rato
Tem muito que se lhe diga…

Não é com fitas e laços
Nem com uma qualquer espiga
Numa gaiola bonita
Que se prende um ratinho.
A ânsia de aventura
Da frescura da noite ao luar
De liberdade e tontura
A roer o seu belo manjar
Será sempre o que perdura
Para lá de qualquer fechadura
Que teime em o agarrar.

(continua)

05/06/2026

Sombras I

O tempo convidava a um mergulho naquela água reluzente. Mas o calor escaldante que se fazia sentir desenhava-se numa capicua de sofrimento. Caminhando pela beirinha da piscina, puxando pela mão o seu irmãozinho que ainda mal andava, o menino procurava desesperadamente com o olhar. No bolso, a chave de casa - uma mansão antiga, grande demais para dois meninos sozinhos. O pequenino chorava, ora caindo, não conseguindo acompanhar o passo agitado do irmão, ora sendo arrastado e obrigado, pelo mais velho, a levantar-se. A criançada ficou curiosa perante o espectáculo, e alguns adultos pareciam temer que os dois pequenos caíssem à água. Que se passaria com estes meninos que destoavam daquele ambiente? Infrutíferas buscas causavam cada vez mais desânimo neste menino de olhar cansado e fugidio. Havia já duas noites e dois dias em que tudo se resumia a uma espiral de angústia devastadora. Não a encontrava nos locais de lazer, que tão bem conhecia, habituado que estava a que ela os lá levasse. Procurara-a e não a encontrara. Urgia, agora, repensar a estratégia, antes que o desalento e o pânico se instalassem por completo. Sentado na soleira da porta da igreja, esperava. Talvez uma luz divina o iluminasse. Então pareceu-lhe que um anjo lhes falhava. Respondeu às suas perguntas como se o céu os tivesse vindo socorrer. Tinha necessidade de confiar em alguém. Contou tudo. O que acontecera, as suas inquietações, os seus medos e o como já não sabia mais que fazer para calar o irmãozinho. Aquele anjo bondoso tranquilizou-os e até conseguiu que o pequenino adormecesse. Escutava inebriado aquela voz melodiosa que lhe respondia serenidade e esperança. Então pôde acalmar um pouco, recostando-se de encontro ao seu peito, fechando os olhos, sentindo pousar em si a sombra das suas asas delicadas.


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