09/11/2021

Sombras II

Tinha reparado com atenção em toda aquela inusitada cena na piscina e seguiu-os. Sabia como lidar com crianças, sentia aptidão natural para isso. Por isso foi-lhe fácil aproximar-se e falar com cuidado e meigamente. Procurando ganhar a confiança deles, começou por perguntar com se chamavam. Manuel e José, respondeu o maiorzinho, apontando para si e para o irmão, respectivamente. Que faziam ali sozinhos? Que não sabia da mãe. Esta, ao sair, tinha-lhe pedido que tomasse conta do irmão. Seria por pouco tempo. Não demorava. Uma colega tinha necessidade da sua ajuda e era preciso que lá fosse.
Primeiro pensou que ela tinha precisado demorar um pouco mais, e adormeceram no sofá da sala enquanto viam televisão. Do dia seguinte acordaram e ela não estava no quarto. Se calhar tinha saído para fazer alguma coisa e não tinha querido acordá-los. Comeram bolachas com leite, e mais tarde os iogurtes que estavam no frigorífico. E à noite a mãe ainda não regressara.
Hoje resolvera procurá-la nos lugares onde ela os costumava levar. Não tinham mais ninguém em casa. Sentia muito a falta da sua mamã. Tinha medo que lhe pudesse ter acontecido alguma coisa de mal.
O pequenino pedia a mãe. Pegou-lhe ao colo e acarinhou-o como se fosse filho seu. Adormeceu-lhe no regaço enquanto o acariciava. O outro encostou-se-lhe também e sentiu-se invadir de uma ternura imensa. Estes pequeninos precisavam de alguém que olhasse por eles, que lhes encontrasse a mãe, que os protegesse, tão indefesos e carentes estavam, e tão à mão de predadores, alheios ao perigo que corriam. Tinha que fazer alguma coisa.
Entrou com eles na igreja enquanto o mais pequenino dormia e ficaram um pouco em silêncio naquela penumbra refrescante. Pediu ajuda à Virgem. Era preciso fé e esperança.
Mais tarde, levou-os a lanchar e acompanhou-os a casa, talvez a mãe já lá estivesse. Não estava. Viu fotos... e o seu sangue gelou e ferveu... procurou nomes, telefonou. Fez-lhes o jantar e comeu com eles. Tranquilizou-os, encontraria a mãe! E adormeceu-os contando-lhes uma história.
Fez mais telefonemas. Sim, estava ali… meu Deus, deveria ser ela! Sentiu-se invadir por uma convulsão incontrolável, um sentimento de perda irreparável, um vazio sem esperança. Agora estes meninos não tinham ninguém, não tinham mais ninguém senão a si... e tomou a decisão: seria o seu pai. O pai que eles pareciam não ter.

13 comentários:

  1. ...retratos cruéis da vida de todos nós...sim, porque somos unos neste mundo escola...muahhhhhhh

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  2. Bem contada, esta história pungente.

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  3. Uma história triste com um final de alguma esperança. Gostei muito de ler. **

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  4. Está maravilhosa, a continuação :)

    Mexe comigo. Que ternura !

    Beijinho*

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  5. Comovente, Fá!
    Beijinhos

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  6. Frágil e palpitante luz
    A beleza é feita de ternos murmúrios
    A voz quebra a quietude do silêncio
    A chuva leva a terra ao encontro dos rios

    Não há fracassos no sonho
    Caminhei nas nuvens para te ver do alto
    Abri os braços ao relâmpago
    Desci à terra, senti nos pés o frio basalto


    Vem descobrir qual o caminho


    Bom fim de semana


    Mágico beijo

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  7. Está bem escrito este conto. Um anjo desceu dos céus e trouxe-lhes um pai.

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  8. em nosso voo para atingir a perfeiçao
    algo sabemos, intrinseco, fincado
    Amor e Paz esta sempre dentro de Nós
    quando não, sentemo-nos ao Sol e escutamos as palavras de "silencio"
    que nos foram redigidas

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  9. Que conmovedora historia y que bella decision que bueno por los niños que tengan alguien que los cuide. Te mando un beso

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  10. Bom dia:- Relato, feito Estória, que me comoveu ler. Deixo a minha admiração, aplauso e elogio.
    .
    Bom fim de semana … abraço e/ou beijo..
    .
    Pensamentos e Devaneios Poéticos

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  11. A crueldade é um excelente recurso literário
    E aqui bem explorado
    Gostei

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  12. Nossa, triste e comovente a estória. Fiquei com uma pena destas crianças sozinhas...o que será que houve com a mãe deles?
    Ane
    De outro mundo
    🌹

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  13. É história, mas talvez aconteça mais vezes do que imaginamos...
    Gostei de ler, Fá.
    Tudo bom. Beijos.
    ~~~~~

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