03/08/2009

[4] Ainda mais gotas

Sentiu-se bem toda aquela miséria. Era necessário fazê-la também entender ao José que, por estar tão habituado a ela, por não conhecer outra maneira de viver, parecia não se incomodar muito. Era preciso fazer-lhe perceber bem o estado degradante que o envolvia e que se agravaria, na certa, com o próximo Inverno. Se viesse um temporal o telhado estava sujeito a ruir.
Mas como é que pode viver aqui, assim, senhor José? O telhado precisa de ser arranjado, senão qualquer dia cai… e mesmo, quando chegar o Inverno chove aqui com força e molha-lhe a cama toda… depois pode ficar doente. Ele assente: Pois era… pois era… mas como é que há-de ser? Se quiser, manda-se cá um pedreiro ver e fazer um orçamento… e tenta-se que alguém dê uma ajuda, ou algum subsídio… Encolhe os ombros. Pergunta-se-lhe quanto recebe de pensão. Diz que não sabe, que é o que lhe dão no banco.
Tenta-se saber como é que passa o dia. Diz que é por aí. Às vezes pega na enxada e entretém-se a roçar umas ervas atrás de casa. E outras, vem para a rua ver e falar com quem passa. Come umas sardinhas assadas com pão ou umas batatas cozidas e bebe uma pinga. Não bebe leite. Mas, às vezes, acolá a dona do restaurante manda-o lá ir buscar uma sopa.
Perguntam-lhe se não gostaria de experimentar a ir até ao Centro de Dia… almoçava lá… vão lá passar o dia pessoas que conhece… tinha lá companhia para se distrair… Nunca se sabe! – Responde.
A Assistente Social insiste se não tem nenhum papel da pensão. Ele procura na carteira… cheia de notas… pasme-se: muitas notas! Um perigo! O dinheiro acumulado de vários meses. Traz aí o dinheiro todo que tem… Não. Tem mais no banco… uma conta a prazo.

(continua)

14 comentários:

Daniel Aladiah disse...

Sem nome... e assistente social? :)))
Um beijo
Daniel

Alexandra Alpha disse...

Boa tarde. Venho retribuir a sua passagem pelo meu espaço... e gostei do que descobri :)

Beijo*

Jorge Freitas Soares disse...

Infelizmente é uma realidade bastante mais comum que o que pensamos, as pessoas vivem uma vida a dar valor ao dinheiro e depois, não sabem para que serve.....

Excelente texto
Jorge

mariabesuga disse...

Este José que come bocados de pão mais com coisa nenhuma que com qualquer outra coisa é não mais que o retrato de tantos Josés e Marias e outros que tais que descontrairam das necessidades de alteração de vida. Para eles até nem está mal assim...

Do arrepio pode acontecer a vontade/necessidade de intervir mas quantas vezes a impotência instalada não vence?!?!?!...

Justine disse...

Retratas neste excelente texto um passo à frente da miséria física: é também a desistência da vida, de si!
Assustador, porque é real!

Nilson Barcelli disse...

Ainda há pessoas que não têm sequer consciência da pobreza em que vivem...
Fico à espera de mais gotas...
Beijo.

pin gente disse...

não sei se é (também) o caso da pobreza de espírito.
será que uma probreza leva à outra?
beijos e um abraço apertadinho
luísa

antonior disse...

O texto vai aumentando de interesse.
Está bem estruturado. Demonstra que o quotidiano vulgar, pode tornar-se num exercício de delírio quase surrealista.
No fim caímos em nós e não é mais do que o que está a acontecer ali ao nosso lado.

Beijinhos

Anónimo disse...

Estou a gostar da história. E adoro a temática das gotas de água.
Eu não consigo sempre ver as novidades nos blogues e, se te lembrares, vai avisando quando escreveres mais gotas :)

Beijo.
L

Å®t Øf £övë disse...

Fá,
Está aqui um retrato bem real de um extracto da sociedade bem maior do que aquilo que se pode pensar. Infelizmente há muita gente assim, que simplesmente deixa as coisas acontecerem sem procurarem ter qualquer responsabilidade no rumo que elas tomam. Mas a pergunta que deixo no ar é se não serão felizes assim... ?
Bjs.

Fá menor disse...

Art, alguém pode ser feliz quando lhe chove em cima da cama, sem cuidados de higiene, com pulgas por todos os lados, e sem se alimentar convenientemente?

Há pessoas que, por si só, não são capazes de tomar as rédeas da sua vida, sem um empurrão vindo de fora.

Mas cada caso é um caso.

Obrigada pelo teu comentário.

Bjs

Lígia Casaca disse...

Enfim! Um retrato fiel da miséria física e humana e do abandono dos velhos! Um quadro real, de tantos e tantos e outros novos! Impressiona-me pais sozinhos e com filhos a viverem afastados! Haja comiseração! Nada justifica deixar um familiar próximo por aí, a alimentar-se de cobras e lagartos! Quem tem consciência não pode, não consegue dormir descansado! É preciso agir! Centros de dia, não falo porque desconheço a realidade. Quanto a lares, é a vergonha completa. Tive uma familiar indireta, apesar dos apelos colocaram-na lá . Desagrada-lhes ver parentes por perto, especialmente se a visita coincidir com a hora do lanche! A comer todos os dias sopas de pão e beber café preto. Que raio??? Os almoços são servidos praticamente frios… se por acaso procuram a cama, por lá ficam. Eu presenciei. Nazistas é o que são! Verdadeiras nazistas! Quatro anos depois, a familiar faleceu. Fui ao cemitério e a urna encontrava-se aberta. Fiquei parva!!! O corpo que ela tinha e o que restou! Qualquer pessoa diria se tratar de cancro! Mal nutrida! Neste século!!!!!???? Choca-me !!!! É revolta-me !!!!!
Há dinheiro e gasta-se nos bancos e afins, ajudar os mais pobres? Ajudar a desaparecer mais depressa!?

Beijinhos e continuação de boa semana.

Porventura escrevo disse...

O valor desmesurado do dinheiro na nossa sociedade
Gostei do texto

J.P. Alexander disse...

Pobre Jose ojala pueda vivir mejor y utilizar e l dinero que tiene en una vida digna. Te mando un beso

Mais Rabiscos