De cada vez que relembrava o último abraço, antes de lhe ter fugido, Luísa revivia toda a emoção desse momento. Aliás, a emoção era cada vez maior à medida que o tempo passava e as saudades apertavam. Revia a fofura do corpo de José Miguel colado ao seu; sentia os braços que a envolviam sem nada suspeitarem; o pescoço quentinho onde mergulhara a cara e deixara marcas de baton dos beijos desajeitados, sofridos, mas disfarçados; as costas que afagara de encontro a si num último adeus.
Na altura, sabia que a separação iria doer, no entanto, pensava que o tempo acabaria por curar tudo. Mas não. O tempo trazia a saudade, essa mágoa violenta que a oprimia, sufocava, deprimia. Doía-lhe o peito muitas das noites. Uma opressão constante, mesmo durante o sono, que lhe causava pesadelos. Eram as mãos do José Miguel que vinham para lhe arrancar o coração enquanto ela dormia. E ela debatia-se entre deixar que ele lho tirasse e morrer de amor, ou morrer na mesma de amor sem lho entregar.
Quando acordava, a dor era não só aperto no peito, mas, umas vezes, latejava-lhe no pescoço e corria-lhe ao ouvido esquerdo, outras vezes estendia-se ao braço do mesmo lado, e outras irradiava-lhe para as costas. Era como se tivesse sido erigida uma muralha fortificada ao redor do coração, para o impedir de sair ou alguém de entrar. Então, acendia a luz e suspirava fundo repetidas vezes, para ver se a dor passava. Tentava não pensar nele, mas quanto mais força fazia para o afastar do pensamento, mais ele se lhe intrometia. E voltava o último abraço, com toda a carga emocional e ainda mais alguma. E desejava outro abraço, um próximo abraço que os reconciliasse. Virava-se de bruços como se se deitasse sobre ele, imaginava-se a abraçá-lo de novo. E adormecia nesse abraço. A sussurrar-lhe amor e a pedir-lhe perdão.
15 comentários:
Como escreves bonito, Fa?
Leio-te e medito.
Uma semana de paz!Beijos...
É assim a saudade....
Este é o dom de escrever.
Lindo!
Martha
Beijos
A dor da ausência pode ser mesmo muito mais que a saudade.
Gosto da tua narrativa, pois leo-te de um fôlego...
Beijos, querida amiga.
Não há coisa melhor do que receber um abraço, mas o abraço de despedida de um amor que se vai, doi muito e provoca saudade, uma saudade sofrida. É que há saudades que até nos fazem sorrir, aquelas de momentos bons que passaram, porque o curso da vida assim o determinou, mas esta saudade de que falas aqui é terrivel e só o tempo a fará amenizar. Muito bem escrito,
Fá. Parabéns Um beijinho e até breve.
Emília
Um belo texto onde perpassa um apego desesperado a um amor que já teve o seu tempo...!
Beijos,
Verdade. Muitas vezes, a saudade aumenta com o tempo. Boa semana, amiga!
A saudade é terrível! doí tanto...
Bjs
Esta é uma saudade muito dolorosa e que só passa com o tempo !
Uma boa Páscoa.
.
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. e,,, porque adormecer no abraço é florir do húmus profundo . ainda que à superfície . na clemência do amor . ou do sentido de todos os afectos .
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. uma Santa Páscoa .
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. e,,, .
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. um beijo meu .
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É o tempo de renovar e recomeçar; renascer.
Feliz Páscoa!
Um beij
A dor da ausência...que eu conheço bem demais. Lindo.Bj
"...e adormecia nesse abraço..."
Adormecer nos braços de quem se ama é sublime, é amar de verdade.
Admiração e carinho por ti, amiga!!!
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ai, ai . . .
nunca tenho cenas destas,
sou um "desinfeliz" srsrsrsr.
,
adormacidas conchinhas,
ficam,
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Lindo demais Fá.
Completamente envolvente!!
Parabéns!
Beijos!
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