sábado

A Casa dos Ratos 2.2


O gato Tonecas, caçador de pássaros e de sonhos, espreitou, espreitou, mexeu e remexeu no cesto, subiu-lhe para cima, aflito por desencantar de lá a ninhada, até que o tombou.
A dona, na cozinha, ouviu e acorreu em socorro dos indefesos.
— Malandro! Isso não se faz aos meninos, seu atrevido!
— Miau… miau!... – como quem diz “não sou culpado”, ficou ali a observar a dona a compor aquela cena tão estranha.
Frustradas as intenções do bichano, que não teve outro remédio que não o de conformar-se (conformar-se não, que ele era lá rapaz para se conformar!... eles não haviam de perder pela demora!), Bia aconchegou os ratinhos no seu ninho, vedando bem o cesto, ao mesmo tempo que repreendia o Tonecas, passando-lhe, depois, a mão pelo pêlo:
— Não se mexe aqui, ouviste? Uns bichinhos tão lindos e o menino com apetites? Ai, ai, ai!...
O Tonecas fingiu-se obediente e, amuado, ficou por ali como que a tomar conta deles. De vez em quando parecia lançar-lhes uns olhares de irmão mais velho, mas longe de se enamorar pelos ratinhos, estudava alguma forma de os meter para o bucho.

Enquanto isso, a dona foi procurar, na sua caixinha de costura, umas fitas fininhas de cores, que tinha comprado há uns tempos para uns trabalhos que não chegou a fazer. Vinham mesmo a calhar: verde, amarelo, vermelho e azul. Também havia uma fita branca e outra cor-de-rosa, mas rejeitou essas cores por lhe parecerem muito femininas… e não sabia ainda se entre os seus bebés havia meninas. Amanhã iria comprar uma gaiola apropriada para eles e enfeitá-los-ia, cada qual com o seu lacinho de seda colorida ao pescoço, para ficarem janotas. Ah, eles haviam de ficar medonhamente lindos com os seus lacinhos coloridos!
Esperava que, assim, o Tonecas os visse com outros olhos, que, afinal, eram coisa fina, intocável, e tirasse deles o sentido como petisco.

quinta-feira

A Casa dos Ratos 2.1


O gato Tonecas era um gatarrão feio, de bigodes grandes e fartos. Lembrava o Gato Malhado da Andorinha Sinhá. Saltava de telhado em telhado, deambulava pelos quintais e, quando lá lhe parecia, às vezes passados dias, regressava para casa trepando o muro alto do pátio.

Do alto do seu trono observava o seu reino antes de se dispor a descer. Algumas vezes percorria o muro até ao telhado da alpendorada, pela frente da cozinha e da adega, à caça dos pássaros que por lá poisavam. Quando descia, esgueirava-se pelo alpendre, rente à parede, para dentro da cozinha se a porta não estivesse bem fechada, ou sorrateiramente pela janela se entreaberta. Encontrava sempre maneira de entrar; em último caso dava a volta à casa e entrava pela gateira, rente ao chão, no portão da garagem; com alguma sorte a porta de dentro, que dava acesso à casa, haveria de estar só encostada!

Mas era educado: não subia à mesa nem aos armários. Dava uma volta pela cozinha e pelo resto da casa, se alguma porta interior estivesse aberta e, se não visse ninguém, voltava a sair e estendia-se ao sol no alpendre, ou enroscava-se na sua cama improvisada lá num canto.

Naquele dia não entrou em casa. Encontrou no alpendre algo que lhe despertou a atenção. Espreitou, por umas frestas, para dentro daquele cesto de papéis bem vedado por cima. Lá de dentro vinha um odor que lhe abriu o apetite… miau!...

sábado

Procurando Entender a Mãe


A vida para a mãe é tão simples: resume-se ao trabalho na terra: “É da terra que vem tudo”.

Ela diz que a sua vida foi sempre essa enquanto era rapariga: “andar acarvada no campo a mondar arroz… e comer umas batatitas azedas!...”
– “Ninguém passa o que eu passei!”
Trabalhar de sol a sol; sair de casa ainda de noite e, no regresso, dormir a andar pelo caminho e passar à porta de casa sem dar conta, até as colegas a despertarem: “Ó Maria, aonde é que tu vais? Olha que a tua casa já ficou lá para trás!...”
– “Ninguém passa o que eu passei…”
É verdade que ninguém passa o que os outros passam. Cada pessoa tem que viver a sua própria vida. Não há duas vidas iguais. Mas o que a mãe quer dizer é que teve uma vida dura, passou tormentos.
– “Quem é que hoje passava o que eu passei?!”
Ela diz que, naquele tempo, não havia dinheiro; e que a mãe dela a mandava ir vender figos para “arranjar algum dinheirito”. E lá ia ela, com uma cesta à cabeça, até à praia – “Ó minha senhora, quer figos?” – “e p’ra quê?... p’ra arranjar cinco escuditos… e vinha todo o caminho a contar a moeditas”.
– “Tu sabes lá o que é a vida!... hoje em dia nem sabem que vivem no mundo!”
Por isso, a mãe vive intensamente a sua vida ao ar livre da natureza; porque não sabe viver de outra maneira; e porque não quer viver de outra maneira.
Eu sei que a vida dela, em solteira, não foi sempre assim como diz. A tia disse-me que a mãe até foi uma privilegiada, porque foi aprender a costura, coisa a que as irmãs, as duas mais novas do que ela, não tiveram acesso; e, depois, ficava em casa a costurar enquanto elas iam para a lavoura.
Mas foi aquilo que ela conta o que mais a marcou. Penso que a mãe agora quer vingar-se disso. Hoje, se persiste nesse tipo de trabalho, o faz mais por uma necessidade de liberdade, e também por uma certa necessidade de independência económica. Ela não quer precisar do pai para as suas coisas. Gosta de ir ao mercado e vender fruta, hortaliças, criação, ovos… e poder, no fim, contar o dinheiro, mas agora já não para dar à sua mãe, mas para a sua carteira.

É isso a vida para ela. Então, tenta moldar-me à sua imagem e semelhança.