14/11/2019

Quase como ouvi contar


Na era do antigamente, em tempos magros, de fome, quando os meninos, mal saídos da parca mama das mães, cedo iam ser criados dos senhores mais abastados, a fim de poderem ter um pouco mais para a boca do que na casa paterna, o pastorinho do rebanho das cabritas todos os dias levava os animais a pastar em roda da capelita de San Sadurninho. Na bolsa do farnelito, umas míseras côdeas de broa seca, que o seu amo lhe mandava para o dia inteiro.

A fome apertava, a broa era dura de roer, e o santo na capelita tinha azeite numa griseta para arder.
O rapazito, faminto, eleva uma côdea em direcção ao santo, como quem espera uma bênção que a transforme em manjar do céu.

 Ó mê xantinho xan Xadurninho vosmixê dá lixenxa que eu molhe aqui nha broa no xeu guijaujinho?

E o santo, como bem de ver, nada de responder!
E torna o moço:

 Ó mê xantinho xan Xadurninho vosmixê dá lixenxa que eu molhe aqui nha broa no xeu guijaujinho?

E o Santo parecia que era mudo ou fazia-se.

 Mas vosmixê não ouve ou quê?... Ó mê xantinho xan Xadurninho, xantinho da nha devoxão, vosmixê dá lixenxa que eu molhe nha broa aí, aí, nexe ajeitinho dexe xeu guijão?

E resposta, nenhuma!

 Ai vosmixê não responde? É porque quem cala conxente! Poix atão eu molho, e hei-de molhar e xopotear!

E assim, todos os dias, o coitadinho condutava a magra broa com o azeite do santinho, até ao lamber do acabar.

8 comentários:

Jaime Portela disse...

Rapazito esperto...
Uma história engraçada, gostei de ler.
Até meados do século passado, era frequente a saída das crianças das famílias pobres, que geralmente tinham muitos filhos, para outras casas, principalmente de lavradores, que assim tinham mão de obra muitíssimo barata. Mas a verdade é que aliviavam a despesa dos pobres...
Fá, continuação de boa semana.
Beijo.

Diná Fernandes de Oliveira Souza Souza2 disse...

Até mesmo aqui no nordeste Fá, era natural essa prática nas famílias de baixa ou nenhuma renda.

Realmente o fim foi hilário.
Adorei !
Seguindo vc aqui também!
Bjss

Olinda Melo disse...


Bom dia, Fá

Um excelente apontamento dos costumes do antanho,
em que a pobreza parecia ainda mais envergonhada.
Quem sabe se não persistem situações de dependência
na actualidade, ainda que de diferente forma.

A história é mesmo linda. Adorei lê-la. Em momentos
de crise há sempre quem lhe consiga dar a volta. :)

Beijo

Olinda

Majo Dutra disse...

Um conto muito ternurento, ainda que triste.
Grata pela leitura agradável.

Tenho andado com este bloguw perdido, agora
que ando a colocar a lista de blogues em dia,
redescobri-o...
Beijinhos
~~~~~

Ricardo Valério disse...

Um conto muito bonito. Gostei de ler
.
Cumprimentos poéticos

Elvira Carvalho disse...

Um conto que me encantou.
Abraço e bom fim de semana

Pedrasnuas disse...

Gostei da história, principalmente da linguagem do rapazinho. Aqui, na ilha, em Câmara de Lobos, vila piscatória, as famílias numerosas entregavam as suas crianças nas mãos de estrangeiros ricos que os vestiam da cabeça aos pés, em troca de sexo. A pobreza de espírito também não ajuda. Desconheço se essa prática desgraçada continua...uma tristeza! Nem sei se as mães desconfiavam da fartura da esmola....enfim!

Ana Freire disse...

Um conto, que nos proporciona um vislumbre do Portugal de antigamente... se bem que hoje em dia, ainda haja muita carência disfarçada...
Adorei ler, Fá! E adorei, conseguir hoje passar por aqui, sem condicionalismos... pois os últimos dias, estavam completamente impossíveis para acessar blogues do Blogger... inclusivé o meu... mas parece, que entretanto... ou tudo já normalizou... ou então, logo mais ao final da tarde, terei de novo, falhas de acesso... pelo sim, pelo não... hoje passei por aqui mais cedo...
Beijinho! Continuação de uma excelente semana!
Ana

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