24/11/2025

Po-esia

Um dia meio pardo, com o sol a espreitar aqui e ali.

A bicicleta do pai chamou-me, luzindo numa nesga de sol que lhe pousou.

Não me fiz rogada, pois para brincar estou sempre pronta.

Aprendi, não há muito, a andar de perna traçada sob o quadro daquelas rodas enormes, e depressa fiquei viciada em pedalar, agora sentada no selim.

Afoita, já sem os pés no chão, vá de enrolar com os pedais, fazendo girar as rodas, para que a bicicleta tomasse balanço e depois, sem esforço, só a guiasse ladeira abaixo levando-me à boleia.

E era como se tivesse asas… poesia para voar.

Sem os pés assentes no chão, no que é o real, tanto pode haver poesia, como só e apenas o pó, da po-esia.

A bicicleta voou pela descida acentuada, como se a estrada fosse céu, mas eu não tinha pára-quedas. 

Sem ser capaz de acompanhar o voo, com medo de não fazer a curva lá em baixo, atirei-me para a barreira do terreno do lado direito e fiquei ali caída para trás, enquanto a bicicleta foi rolando certinha e direitinha, até se espetar contra o portão da casa azul ao fundo.

Quando o chão deixa de ser esse céu de poesia, para passar a ser apenas o pó que nos envolve, também se cai por dentro; ainda que às vezes seja apenas uma paragem mais ou menos pequena, antes de tornar ao voo.

Felizmente, apenas sofri uns arranhões e a bicicleta não se estragou muito; só tive de me esforçar um bocado para lhe endireitar o guiador e depois, ladeira acima, trazê-la de volta, apeada.

12 comentários:

  1. Quantas vezes as quedas que não se vêem deixam marcas difíceis de apagar . Mas se assim não fosse , seria tão mais difícil aprender …
    Beijinho, Fa

    ResponderEliminar
  2. Olá, Fá Menor.


    Muito bom esse teu relato poético-acidental...rs
    Pedalei demais na adolescência, era meu brinquedo preferido. E claro que tenho algumas quedas memoráveis para relembrar.

    ResponderEliminar
  3. Olá Fá

    Interessante e cativante de ler, embora o acidente, mas que deu para fazer um texto poético, muito original.
    Boa semana com saúde.
    Deixo um beijo
    :)

    ResponderEliminar
  4. Imagina, não havia paraquedas e, se o tivesse, ele diria "estou contigo e não abro". E a poesia não deixaria de rolar. Ainda não era tempo de agitar as asas.
    Que belo texto, Fá.
    Abraços,

    ResponderEliminar
  5. kkkk, eu fiz das minhas na adolescência com a bicicleta! Minha casa tinha uma rampa grande, o carro saia da garagem e subia aquilo tudo, mas eu com a bicicleta e longe de meus pais, descia tudo sem pegar no 'guidão' da bicicleta!! Sempre dava direitinho, até o dia que não deu, me esborrachei! Mas meus pais nunca souberam da minha maluquice!!! kkkkk Achei melhor não contar o que eu fiz, assim não me chamaram de maluca...
    Gostei de ler essa ótima crônica!
    Beijinho, querida Fa, coisas de adolescente...

    ResponderEliminar
  6. Ah ! Fá uma delícia seu texto, cheio de poesia e traquinagem adolescente.
    _ esse era o mote mais poético ... gostava também de andar de bicicleta e é realmente uma delícia sentir o vento esfregando seu rosto , sem nenhum pudor , e desajeitadamente. Adorei ,amiga escreva sempre ! e ganhará mais abraços ... rsrs

    ResponderEliminar
  7. Bom dia, Fá
    Lindo texto, como é bom andar de bicicleta, na minha adolescência andava demais. Ainda bem que você sofreu poucos arranhões, um forte abraço.

    ResponderEliminar
  8. Boas pedaladas
    que dá gosto ler estas linhas Fá ´,~`)
    Bom fim de Semana agradável, beijinhos.

    ResponderEliminar
  9. Adorei a tua po-esia. Viajei no tempo :)
    Beijinhos grandes

    ResponderEliminar
  10. Estou aqui a pensar no que escreveste!
    Bem que podia ser uma história da minha neta Alice.
    Também ela é muito afoita.
    Diz ela: olha avó sem mãos, olha avó sem pés!
    Eu digo : Olha Alice sem dentes :)
    Adorei esta tua poesia estrada abaixo.
    Hei - de mostrar para a Alice.
    Abraço e brisas doces *****

    ResponderEliminar
  11. Boas recordações da infância, também experimentei descer rua abaixo, na bicicleta! muito mais saudáveis que os de hoje! Lindostempos! Quando devia ser o oposto! Anda tudo às avessas e vai continuar assim, não tem remédio, à frente dos comandos da nossa vida está o capitalismo selvagem!

    ResponderEliminar

Truman Capote diz:
«Quando se trata de escrever,
acredito mais na tesoura do que na caneta.»...
Mas eu escrevo aqui por entre o imaginado e o sentido; e
«Entre meus rabiscos e minhas ideias há um mundo de sentimentos.» (Marcelle Melo)
.
Leia pf: Indicações sobre os Comentários

poderá também gostar de:

Mais Rabiscos