24/02/2026

Arrepiar Caminho I


Valha-me Nossa Senhora, 
Mãe de Deus de Nazaré! 
A vaca mansa dá leite, 
 a braba dá quando quer. 
A mansa dá sossegada, 
a braba levanta o pé. 
Já fui barco, fui navio,
mas hoje sou escaler. 
Já fui menino, fui homem, 
só me falta ser mulher. 
Valha-me Nossa Senhora,
Mãe de Deus de Nazaré! 
(Ariano Suassuna, Auto da Compadecida)

A estrada é larga. Asfaltada.
Ouso o caminho quando o sol se reclina, por cima das ramagens, em direcção ao mar. Deixo a estrada principal e desço a ladeira íngreme  via semi-nova, pouco movimentada  rumo à natureza, levando pela trela o meu camarada de passeio. Uns metros adiante, solto-lhe a trela para o deixar correr à sua vontade, agora que a estrada é só para nós.
Faz-se bem este caminho, em modo de passeio, sempre a descer.

A dezena vai-me rolando entre os dedos da mão direita, enquanto os pés vão pisando o asfalto negro na sede da caminhada. Mistérios Dolorosos.

Lá em baixo, no vale, onde o arvoredo se torna mais denso, o meu amigo já anda a farejar as bermas da encruzilhada, enquanto espera que eu lhe indique a direcção a tomar. Hoje vamos virar à esquerda, sempre pelo asfalto, deixando o caminho da direita, em terra batida, para percorrer amanhã. Ainda ao longe, faço-lhe sinal com a mão e ele avança resoluto. Gosta de ir sempre à frente, no comando, como se fosse ele o dono da viagem, e eu permito-lhe esse gosto.

Uma ligeira subida e deixamos o asfalto para trilhar o caminho da floresta que nos fica do lado esquerdo. O caminho é nosso conhecido de outras caminhadas. Descemos agora. Ele corre; eu vou ficando um pouco para trás, assobiando-lhe de tempos a tempos, para que não pense em dispersar-se por outros lugares que não o caminho que levamos. Na bolsa, que levo a tiracolo, enfio a trela – que já me cansa na mão esquerda – e tiro a máquina fotográfica para tirar umas fotos a uns maciços de cogumelos que me surpreendem o olhar, que grande alfobre nasceu aqui!

Continuo. No próximo cruzamento lá está ele novamente à minha espera, olhando-me ansioso. Indico-lhe a subida, à direita, e seguimos quase lado a lado, agora que é a subir. A meio da ladeira há um carreiro à esquerda, por onde já fomos uma vez, até uma pequena capela; e uma curva à direita na continuação desta estrada de pedra sobre pedra. Bordejam-na alecrins, rosmaninhos, silvados de amoras ainda verdes e algumas flores cor-de-rosa de chícharos-selvagens. Tiro mais umas fotos – este mundo é um jardim que me seduz!

Guardo a máquina fotográfica e penso que está na hora de voltar para trás, porque já andámos a metade do tempo que determinei para esta caminhada, e é preciso fazer outro tanto tempo no mesmo caminho de regresso, antes que se faça noite. Mas…

21/02/2026

Flores, Cerejas e Pedras

"Meu senhor eu vendo flores
Mas ninguém mas quer comprar
São tão baratas, tão lindas
Mais lindas não pode achar."

Vou cantar esta canção na festa da minha Profissão de Fé.
Sim, porque depois da Profissão de Fé, vai haver outra festa, em que todos vamos participar com umas pequenas peças de teatro, danças e canções.
Está a aproximar-se o dia e os ensaios andam a chatear-me. Não são propriamente os ensaios que me chateiam, apesar de eu já saber a minha canção de cor e salteado e ter de ensaiar ainda mais com os dois seminaristas que vão acompanhar-me à viola. Não, não é isso que mais me chateia.
Nos dias dos ensaios vou directamente da escola para lá de autocarro; mas na volta para casa é uma estafa a pé durante meia hora... bem, algumas vezes ainda é mais, muito mais, quando, pelo caminho, vamos apanhar cerejas tão vermelhinhas, àquelas cerejeiras carregadinhas delas, que só de olhar fica-se com água na boca. O pior é quando a dona lá vai dar connosco... ai, ai, já mais do que uma vez... isso é que foi fugir! Isso é que é aventura! Mas eu acho que não fazemos mal nenhum. Roubar para comer não é pecado, dizem-me as colegas. A avó dizia-me que pecado era estragar, mas para matar a fome não; mas que nunca fosse às uvas, porque essas davam trabalho e despesa a tratar com sulfato e enxofre; isso era pecado porque dava prejuízo. Pecado é, portanto, prejudicar alguém. Então, ir às cerejas, não faz mal. Acho que não, pois se não as comermos nós, comem-nas os pardais... elas são tantas e tão pequenas que os donos não são capazes de dar vencimento a apanhar tanta coisa...
Mas o que me chateia, mesmo, mesmo, é quando somos corridas à pedrada pelo grupo dos rapazes. Eu não sei o que se passa naquelas cabeças chochas para nos atirarem pedras, ou porque será que são assim tão maus. O que é certo é que todas as miúdas têm medo deles. Tentamos sempre manter a distância. Mas se ficamos para trás fazem-nos uma espera... se vamos à frente acabam por nos alcançar...
Por isso é que estou desejosa de que acabem os ensaios.
E também que chegue o dia de eu cantar as flores.

"Meu senhor comprai as flores
Que ventura só vos dão
E à floreira que as cultiva
Dão-lhe vida, gosto e pão."

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