Maria esperou. Mas, apesar da esperança que se lhe aninhou no coração, o Natal passou e o espírito de Natal não veio.
Maria Aurora barafustava a toda a hora: com a filha; com o genro; com os netos. Alcides, já sem nenhuma paciência para a aguentar, parava cada vez menos em casa. José Maria e Matilde passaram a fechar-se cada qual no seu quarto, isolando-se do resto da família e do mundo. E Maria dizia mal da sua vida, ao mesmo tempo que elevava o seu pensamento ao Deus Menino que nascera para resgatar os oprimidos, pedindo-lhe uma luz que a iluminasse, a fim de conseguir encontrar uma solução para os problemas da sua família.
Já novo ano. Já Reis. E ela reflectia em como os Magos tinham ido do Oriente ao encontro do Salvador, guiados unicamente por uma estrela. Tinham feito uma caminhada durante meses até o encontrarem. Pois ela também haveria de caminhar. Sabia, tinha fé, de que uma estrelinha a guiaria. O espírito de Natal não tinha vindo, mas a esperança que lhe restava dizia-lhe que ele não se ausentara para sempre. Só precisava de um ninho quente para pernoitar e ali, no seu lar, definitivamente, não o havia nesta altura. Era preciso prepará-lo. Tinha, pois, de passar à acção, não podia ficar parada, de braços cruzados, numa eterna espera de que o espírito de Natal lhe caísse do céu, ali, assim sem mais nem menos, e que num estalar de dedos, num passe de magia, acontecesse o milagre esperado, sem nada fazer por ele.
Talvez que ele viesse só no próximo Natal – há coisas que levam tempo –, mas não é o tempo por si só a dar conta do recado; tem de se trabalhar para conseguir resultados. No entanto, Maria sentia-se impotente para, sem a cooperação de todos os elementos da família, conseguir o que quer que fosse. E eles nada faziam para emergir daquela situação, muito pelo contrário, o seu rumo era em direcção ao fundo.
Tinha chegado, assim, a hora de engolir a vergonha e procurar ajuda externa especializada. E não era tarde nem era cedo – era agora.