quinta-feira

Cresci II


Cresci.
E o que é que se ganha em crescer? Ter doze anos já não é o mesmo que ter dez ou onze. É verdade que eu já não queria ser uma criancinha pequena e gosto que me olhem como uma rapariguinha crescida, mas às vezes é uma chatice. Chatice e não só. Também dói. Agora, depois de ser menstruada pela primeira vez, já sei que ser mulher também dói. E muito. Quando isso aconteceu, na semana passada, doeu tanto, tanto, que eu não sabia o que fazer para que as dores parassem; estas eram maiores do que a vergonha que tive de engolir para pedir ajuda à mãe. E ela, em vez de me ajudar logo, até parece que ficou com um sorriso de troça: “Ah, isso é o sinal da mulher.” O sinal da mulher, o sinal da mulher…, isso sabia eu! Não que ela alguma vez me tivesse dito alguma coisa; se não tivesse sido a avó, enquanto ainda vivia, a falar comigo de mulher para mulher, seria apanhada desprevenida e o choque seria bem maior. Só que a avó não me disse que dava dores assim tão insuportáveis. E eu rebolava em cima da cama e no chão sem encontrar posição nenhuma que me desse algum conforto. Depois a mãe lá me arranjou uma toalha quente para pôr em cima da barriga, e as dores lá foram amainando. De cada vez que penso nisso começo a temer a próxima vez.

terça-feira

Breve Aragem do Mar na Alma


Uma aragem fresca passou-lhe ao de leve pelo rosto como um beijo, como uma carícia de despedida com uma mensagem dentro. Que lhe queria dizer aquela aragem?
Stella abraçava-o e ele deixou que lhe aconchegasse o corpo gelado no seu quentinho, abandonando a cabeça no seu ombro, fechando os olhos, sem querer pensar nada. Mas pensava. Taiki pensava que há coisas que não se devem adiar tanto tempo. Pensava e pensava, tentando respirar aquele ar impregnado de maresia.
O vento, por vezes, traz-nos perfumes de recordações, e incita-nos na procura de um sinal de permanência nelas, ou então de um ponto de viragem.
Sim, claro, percebia, tinha recebido um beijo de despedida de Loiris. Era essa a mensagem definitiva que lhe roçou a face, a dizer-lhe que não podia viver agarrado a uma recordação que não frutificaria. Era preciso encerrar um capítulo da sua vida, para que vida nova brotasse. Mas não seria nada fácil… não seria nada fácil…
A carta fora escrita, entregue em mãos e respondida. Mesmo que não estivesse à espera de resposta, e não estava, a resposta viera. Viera num leve bater de asas de um anjo que o rodeou num voo perfumado de maresia. Sentiu novo roçar pelo rosto, nova aragem, novo beijo. Estremeceu, abrindo os olhos na procura dessas finíssimas asas transparentes, mas o que encontrou foram os lábios de Stella tão perto dos seus:
- Olha como tremes. Que ideia a tua vires para aqui, assim, sem um casaco… e o susto me pregaste!
Olhou para ela, incapaz de articular palavra, mas aconchegando-se mais naqueles braços, verdadeiros e seguros, que o puxavam para fora do areal.


(Um trecho meu para Mar da Alma do Fontez na sequência de colaborações anteriores na história de Taiki.)