03/10/2026

Pontos nos ii

O dia amanheceu cor-de-rosa. Percebi-o pela luz que me chegou filtrada através das cortinas da mesma cor. Esquecera-me de fechar as portadas na noite anterior e o dia espreitava-me, agora, mais cedo do que o costume. Pensei um breve gesto para me levantar mas nem sequer as pálpebras me obedeceram, teimando em voltar a fechar-se. E sonhei, por momentos, o mesmo sonho de sempre, outra vez: isto já não era sonho, mais parecia pesadelo! Sonhava que o meu quase primeiro movimento da manhã era em direcção aos teus braços, mas agora sentia-me sem forças para o fazer. Melhor assim. Agora não eras tu que te impunhas, era eu que comandava. Chamavas-me, mas havia algo, mais aliciante do que tu, que me prendia: tão bem aninhada nos lençóis fofos e quentinhos que nada me arrancaria de lá tão cedo.

A vida fervilhava lá fora há muito tempo quando, por fim, dei conta de que eram mais do que horas. Aquilo não era vida. Mandriava, o que me traria os mais diversos aborrecimentos. Não só começava o dia tarde, o que me faria andar atrasada todo o dia, como não iria ter muito tempo para estar contigo. Levantei-me e não resisti a procurar-te. Mas, desilusão, hoje não te tinha. Como era possível que a janela não abrisse? Já não sei o que é melhor: que me sejas veneno ou pedaço de fantasma que me tapa o sol. De uma maneira ou de outra, não passas sem me embotar o cérebro, e não era para isso que te queria.
Porque me manténs refém? Não havia necessidade! Eu gostava de ti, para que querias de mim ainda mais? Maldita ressaca quando me faltas!…

02/10/2026

Passagem

A tarde de Outono começou a fazer-se lua – redonda, grossa – que uma multidão de nuvens prenhas, de ancas largas e de peitos túrgidos, começaram a empurrar para o fundo do céu, fechando-a numa noite temporã. Ela ainda experimentou espreitar por entre umas cortinas que o vento ajudou a arredar, mas não teve forças para fazer frente àqueles bustos inchados que impunham respeito.
Depois de assim vendarem os olhos à lua, estas monstras começaram a guerrear umas com as outras com um leve rosnar intensificado até à discussão séria, empurrando-se e acotovelando-se, discutindo assanhadamente e deitando fogo pelas ventas como toiros, numa ânsia desenfreada de encontrarem lugar para parir. E o céu explodiu em raiva sobre o bosque de eucaliptos que não tinha culpa de nada.

Carregado de medalhas ao peito e de cigarro na boca, foi apanhado naquela confusão pelo caminho enlameado de regresso ao casebre, que ficava para lá daqueles arvoredos, e resmungaguejava contra aquela bátega que o molhou dos pés à cabeça. Se ele soubesse tinha ficado em casa da irmã. “Eeela beeem qqquuue m’aaaaviiiisô!”
Na noite de raios e coriscos, as árvores tomaram formas humanas de cabeçudos gigantes com narizes pontiagudos e dentes arreganhados, que gargalhavam amedrontando o incauto que atravessava naquela hora.
Quem era esta personagem quase descartável, que ali dançava como uma folha de papel soprada pelo vento? Será que deixaria para sempre as suas pegadas naquela lama do caminho? Porque há pessoas que marcam bem a sua passagem pelo tempo.

(M. Fa. R. - 09.12.2009)

01/10/2026

A Pedinchice


Uma caixa de fósforos e meio litro de petróleo; um quilo de prego de meio solho e de ripa, misturados; um pacote de cloreto e um quarto de quilo de sabão azul; um pacote de massa de meada; meio quilo de açúcar amarelo. Com conta, peso e medida. Os rebuçados quase todos. Sem conta nem medida.
Foi assim uma tarde inteira atrás do balcão da loja. E uma enorme ralhadela furiosa do pai.
Aos poucos, o pai tem vindo a confiar-me a loja. Desde pequena fui aprendendo e ajudando e, agora, para além de aviar os fregueses, anoto as faltas de mercadoria e faço as encomendas aos vendedores quando o pai não está, confiro a mercadoria que os viajantes vêm entregar e arrumo-a nas prateleiras; e, ainda, tenho ao meu encargo o registo das facturas das compras no livro.
Esta tarde, o pai teve que sair e eu fiquei sozinha a tarde toda, como algumas outras vezes. Até me desenrasquei bem… só com os rebuçados é que correu mal.
- O frasco dos rebuçados está quase vazio porquê?
- Vendi-os…
- E onde é que está o dinheiro? – perguntou o pai, de gaveta aberta, depois de conferir as vendas que eu tinha anotado.
Fui apanhada. E tive que dizer toda a verdade, que era só uma: tinha-os dado à Nelita, à São e à Fernanda.
A voz do pai ecoou pela loja inteira e, decerto, pela rua além. Eu encolhi-me com medo de que a trovoada trouxesse chuva, mas a nuvem negra passou ao lado e escapei desta. Não escaparei de uma próxima, deixou o pai prometido. Mas não acontecerá mais, também deixei prometido eu.
Desta vez, estas minhas amigas conseguiram levar-me à certa quando me vieram chamar para jogar à macaca com elas. Como eu lhes disse que não podia sair, encostaram-se ao balcão a dizerem que então tinha que lhes dar rebuçados para as compensar; e voltaram mais vezes, com falinhas mansas, a pedir  sempre mais. Mas não voltarei a cair noutra, porque agora vejo como fui palerma ao deixar-me levar na pedinchice delas e no que elas me diziam.
Afinal, se elas gostassem de mim, como eu gosto delas e, ainda para mais, sendo duas delas mais velhas do que eu, não teriam ousado abusar da minha bondade e fraqueza, agindo daquela maneira, só pensando nelas e nada em mim.

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